sábado , 16 de dezembro de 2017
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Florbela Espanca e os homens de sua vida – Nathalia Silvestre

“Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada… a dolorida…”

 

Florbela Espanca, Livro de Mágoas, 1919

 

A poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) apresentou desde nova sintomas de depressão, retratados com frequência em sua obra poética ao longo dos anos. O não reconhecimento como filha legítima pelo pai, João Espanca, a morte de seu querido irmão, Apeles Espanca, os relacionamentos fracassados, os abortos e o não reconhecimento de seus poemas ainda em vida, fizeram com que Florbela padecesse a vida inteira desse mal que a levou, em 7 de dezembro, véspera de completar 36 anos a suicidar-se.

Bela foi registrada como filha de pai incógnito, o que era comum em sua época. Mesmo assim, a poetisa foi morar ainda nova com seu pai e a madrasta, Mariana Espanca. No entanto, sua relação com seu pai era distante. Buscava no pai a confirmação do amor e o reconhecimento como filha. No poema “Hora que passa” de seu livro Sóror Saudade(1923), podemos notar o sentimento de abandono vivido por Florbela, pois nunca se sentiu verdadeiramente amada, principalmente por seu pai.

“Vejo-me triste, abandonada e só

Bem como um cão sem dono e que o procura,

Mais pobre e desprezada do que Job

A caminhar na via da amargura!”

 

No poema “Mendiga” de seu livro Charneca em flor (1931), nota-se também o seu sentimento de dor, tristeza, solidão e abandono.

“Na vida nada tenho e nada sou;

Eu ando a mendigar pelas estradas

No silêncio das noites estreladas

Caminho, sem saber para onde vou!”

 

Em carta a Júlia Alves, amiga com quem se correspondia dizia o seguinte: “É sempre triste a perda de um pai… E eu, que tenho ainda o meu, calculo a tua mágoa, se Deus me tivesse roubado o meu, que ainda assim não me quer como eu lhe quero!”. Podemos sentir a dor que Florbela sente por seu pai não retribuir o seu amor.

 

No pai, busca a confirmação do amor, mas falha, pois João Espanca sempre a enxerga como como prolongamento de sua mãe, Antonia Loba, que assumiu o papel da amante/outra. João não a reconheceu como filha enquanto ainda era viva, apesar de ter a criado, deixando Florbela para sempre no limbo em relação à confirmação do seu amor. A ausência dessa figura paterna talvez tenha feito com que Florbela procurasse em seus relacionamentos o amor não correspondido. Ao longo de sua vida casou-se três vezes. Seu primeiro casamento foi aos 19 anos, com Alberto Moutinho, em 1913, o segundo com o médico Antonio Guimarães e o terceiro com Mario Lage.

Em seus poemas românticos, Florbela explora todo seu amor, erotismo, sensualidade, o desejo de ser amada, o enaltecimento do homem amado. Todo esse donjuanismo feminino em sua obra não deixa de lado a dor e a melancolia. Florbela se sentia sozinha, incompreendida, abandonada, não correspondida, como diz António Freire “ (…) o amor foi a principal tragédia de Florbela Espanca (…).”

 

“Por uma que te despreza,

Teu coração endoidece;

E a pobre que te quer bem

Só teus desprezos merece!”

As quadras dele (I), livro Trocando olhares

 

“Sonhei que era a tua amante querida,

A tua amante feliz e invejada;

Sonhei que tinha uma casita branca

À beira dum regato edificada…”

Sonhos, livro Trocando olhares

 

Florbela tinha uma ligação muito forte e especial com seu irmão, Apeles Espanca. Talvez o amor não correspondido pelo pai e o distanciamento da mãe biológica, fizeram com que Florbela visse em seu irmão o único laço familiar verdadeiro e correspondido. Apeles era três anos mais novo que a poetisa, desce novos eram muito unidos, eram confidentes e era comum trocarem cartas contado sobre seus relacionamentos e acontecimentos da vida. Florbela escreveu sobre o amor pelo seu irmão em diversos poemas, em particular no poema “Roseira brava”:

 

Há nos teus olhos de oiro um tal fulgor

E no teu riso tanta claridade,

Que o lembrar-me de ti é ter saudade

Duma roseira brava toda em flor.

Tuas mãos foram feitas para a dor,

Para os gestos de doçura e piedade;

E os teus beijos de sonho e de ansiedade

São como a alma a arder do próprio Amor!

Nasci envolta em trajes de mendiga;

E, ao dares-me o teu amor de maravilha,

Deste-me o manto de oiro de rainha!

Tua irmã… teu amor… e tua amiga…

E também, toda em flor, a tua filha,

Minha roseira brava que é só minha!.

 

Apeles morre três anos antes da morte de Florbela. A morte de seu irmão teve um impacto muito forte na vida de Florbela, principalmente na sua saúde mental. A poetisa volta a ter depressão, tenta se matar e nunca mais se recupera da morte de seu querido irmão, sentindo sozinha e sem família.

 

Por fim, notamos o impactos, negativos e positivos que esses homens causaram na vida dessa poetisa. Florbela se sentia incompreendida e solitária, procurou nos homens de sua vida o amor não correspondido por seu pai, teve conforto e amor na companhia de seu único e amado irmão que morreu precocemente. Ela nunca mais se recuperou desse tragédia, o que a leva ao triste fim de tirar sua própria.

 

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

CCHLA – Departamento de Letras

Disciplina: Tópicos de Literatura Portuguesa I

Docente: Marcio de Lima Dantas

Discente: Nathalia Oliveira Silvestre

Fatos pitorescos e rocambolescos da política brasileira – Júlio César Cardoso

Preso desde junho deste ano em regime semiaberto, o deputado federal Celso Jacob (PMDB-RJ) foi flagrado no último domingo tentando entrar no complexo penitenciário, em Brasília, com dois pacotes de biscoito e um de queijo provolone escondido  na cueca. Fonte: Uol notícias.

O hesitante STF é uma vergonha. Se zelasse pela Constituição, jamais poderia permitir que um condenado e preso pudesse continuar a exercer mandato político.

Por outro lado, os congressistas federais são imorais iguais ao Jacob, pois permitem que um condenado, e hóspede da Papuda, continuem a prestar expediente na Câmara Federal, em desrespeito à sociedade e ao contribuinte, que paga os seus salários. Este país está uma desmoralização e precisando de outra intervenção.

Mas não é só o caso Celso Jacob que denigre a imagem política.  Vejam: (1) no plano federal, Michel Temer se sustenta no governo por manobras sorrateiras ao usar o balcão de negócios, em duas oportunidades, para comprar a honradez de muitos parlamentares e com isso impedir a Câmara Federal de autorizar a instauração de processo contra o Presidente da República: e (2) no plano estadual, o país assistiu à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) cometer todos os tipos de desrespeito legal ao mandar libertar da prisão, sem ordem judicial, o seu presidente, deputado Jorge Picciani (PMDB), e mais dois deputados, Paulo Melo (PMDB) e Edson Albertassi (PMDB), todos recolhidos à prisão por determinação unânime de desembargadores federais do Tribunal Federal da 2ª Região (TRF-2).

Em que país estamos, onde a Constituição é tratada com menoscabo e interpretada benevolamente  a favor dos mais fortes e de forma impiedosa em desfavor dos mais fracos? Que país é este, cujos políticos esquecem a defesa dos interesses sociais, a ética e a moralidade para defender partidos políticos e partidários corruptos com inexplicável relevância?

Com efeito, não se pode estar satisfeito com o desenrolar da política nacional, cujos políticos são beneficiados com o voto obrigatório, com a reeleição e com o frágil critério de filiação partidária. O indivíduo para exercer mandato político, a partir de vereador, deveria ter curso superior completo e vida pregressa ao mandato ilibada.

Júlio César Cardoso. 

Bacharel em Direito e Servidor Federal aposentado.

ARTIGO – Deputado, o senhor sabe o que é uma universidade e o que ela faz?

Por José Ronaldo – UERN*

Alguns deputados estaduais do RN, felizmente uma minoria, não fazem a menor ideia do que é uma universidade, o que ela faz ou o que representa para um estado. Para se convencer dessa triste realidade, basta ouvir o que falam sobre a UERN. Vejamos alguns relatos e prestemos alguns esclarecimentos.

  1. O governo estadual deve financiar a UERN

Um deputado disse em entrevista que o governo do RN não deveria financiar a UERN porque não é obrigado a fazê-lo. Na verdade o governo tem essa obrigação. Ele assumiu essa responsabilidade quando a UERN foi estadualizada há 30 anos e isso é um fato concreto. E nesse particular, ele é só mais um porque não tem nada de excepcional nisso.

Somente o estado do Paraná tem sete universidades estaduais e a região Nordeste tem 15. Dessas, quatro estão na Bahia e três estão no Ceará. Os estados de Alagoas e do Maranhão têm, cada um, duas universidades estaduais. Existem inclusive vários municípios que financiam universidades, como, por exemplo, Rio Verde, cidade do interior de Goiás (UNIRV) e Linhares, cidade do interior do Espírito Santo (FACELI).

  1. Qual é o investimento do estado na UERN?

O mesmo deputado aparece em um vídeo nas redes sociais dizendo que a UERN custa R$ 33 milhões/mês ao contribuinte, ou seja, quase R$ 400 milhões/ano. Como não acreditamos que o deputado se arriscaria deliberadamente à vergonha pública, vamos trabalhar com a hipótese de que sua assessoria seja medíocre, ou no mínimo muito preguiçosa.

No ano passado o estado investiu pouco mais de R$ 263 milhões na UERN. E isso é muito para manter uma universidade? Vamos fazer uma comparação entre a UERN e universidade estadual da Paraíba, não apenas porque está na moda comparar os dois estados, mas também porque até pouco tempo eram economicamente bem parecidos. Pois bem, o governo da Paraíba investiu R$ 307,5 milhões na sua universidade estadual, a UEPB, ou seja, R$ 44,5 milhões a mais.

Esses dados estão disponíveis ao público no portal da transparência de ambas as universidades. Um assessor menos preguiçoso teria encontrado facilmente esses números.

 

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  1. Quanto é o salário do professor da UERN?

O mesmo deputado novamente expõe sua assessoria quando diz, em outra entrevista, que o salário de um professor da UERN é R$ 15, 18, 20 mil e nas federais é R$ 6, 8, 10 ou 12 mil. Pela quantidade de valores, vê-se quanta certeza ele tem sobre o que fala.

O salário médio de um professor da UERN é cerca de R$ 9 mil, perfeitamente compatível com o salário médio pago pelas universidades federais, sendo que estes, inclusive, são levemente superiores. Em 2016, o governo do RN pagou R$ 241 milhões em salários na UERN. O governo da Paraíba pagou R$ 260 milhões na folha de pagamento da UEPB e atenção, a folha da UERN também paga seus aposentados, a da UEPB, não. Uma dica elementar para a assessoria do deputado é olhar os recentes editais de concurso na UERN e nas federais.

  1. Na UERN tem estudantes de outros estados

Outro deputado se queixou de que na UERN há vários estudantes de outros estados. Ele não sabia dizer quantos, mas pareceu achar isso um absurdo.

Atualmente, cerca de 15% dos estudantes da UERN são de outros estados. Ora, os potiguares também estudam em universidades da Paraíba, Ceará, Pernambuco, além de outros. Em se tratando de universidades, isso é um fato natural, até porque os cursos oferecidos variam muito de uma instituição para outra. O RN não é uma ilha e como qualquer outro estado da federação, ele importa e exporta estudantes universitários o tempo todo.

Há inclusive universidades em cidades de fronteira, como a Unipampa, no Rio Grande do Sul, que recebe centenas de estrangeiros (uruguaios) todo ano.

O fato de a UERN ser procurada por estudantes de outros estados atesta que seus cursos têm qualidade. De fato, em 2015, ano em que a UERN adotou o ENEM-SISU, mais 61 mil inscritos disputaram uma vaga nos seus cursos.

 

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  1. O que a UERN faz

O deputado também afirmou que não “sabia direito o que a universidade faz”.

Primeiro é necessário dizer que além do campus de Natal (Zona Norte), a UERN desenvolve suas atividades nos campi de Mossoró, Pau dos Ferros, Patu, Caicó e Assú. Tem núcleos avançados em São Miguel, Alexandria, Umarizal, Caraúbas, Apodi, Areia Branca, Macau, João Câmara, Touros, Santa Cruz e Nova Cruz. E o que ela faz nesses locais?

– Ela forma pessoas.

A UERN faz o seu papel enquanto universidade e faz bem feito. Ela tem sob sua responsabilidade a formação de mais de 11.485 estudantes de graduação e 1.167 estudantes de pós-graduação. Para isso, abre anualmente mais de 2.000 vagas aos potiguares nos seus 69 cursos de graduação presenciais, três cursos de graduação a distância, 20 cursos de mestrados acadêmicos e 2 cursos de doutorado. Esses cursos estão em sua quase totalidade no interior do estado potiguar e cerca de 70% da sua clientela provém de famílias de baixa renda.

A UERN formou quase 100% dos professores da Rede Básica de Ensino que atuam na região oeste do estado. Além disso, forma enfermeiros, economistas, cientista da computação, advogados, médicos e diversos outros profissionais que passam a atuar nas cidades em que se formam ou no seu entorno. Ela já formou mais de 40 mil profissionais no interior do estado e isso representa não apenas melhoria dos serviços das cidades do RN, mas também e principalmente a inclusão social dessas pessoas.

– Ela atua nas comunidades.

A UERN atua diretamente junto às comunidades executando mais de 170 projetos de extensão. Esses projetos capacitam e promovem a melhorias na produção, serviços e na vida das pessoas, no campo e nas cidades. Além da prática jurídica, que presta assessoria a dezenas de cidadãos diariamente, a universidade mantém clínicas e ambulatórios odontológicos, que atendem centenas de pessoas de baixa renda. Os projetos de extensão nas escolas incentivam a leitura e promovem a cultura. Além disso, são oferecidos diversos cursos para a população. Somente na Zona Norte de Natal, são mais de mil pessoas participando de atividades realizadas no seu Complexo Cultural.

 

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– Ela capacita e faz pesquisas científicas.

A UERN promove pesquisas voltadas para a solução dos problemas do estado. Só em 2016, seus programas de pós-graduação matricularam mais de 600 estudantes de mestrado e doutorado. Nesse mesmo ano, seus pesquisadores publicaram 342 artigos científicos, 362 capítulos de livros e registraram 23 patentes como resultados de suas pesquisas. Esses pesquisadores analisaram e apresentaram soluções para os mais variados problemas. Outro dado relevante desses programas é que, em 2016, seus estudantes receberam do governo federal cerca de R$ 3,4 milhões de reais em bolsas, recursos esses injetados nas cidades do interior do estado.

 

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  1. O estado do RN precisa fortalecer a UERN

Por fim, alguns deputados precisam entender que o debate sobre uma universidade não se limita a uma simples questão contábil. Ao andar pelo interior do estado, em particular na região oeste potiguar, os deputados podem perguntar às pessoas onde elas se formaram. Ao encontrar uma das mais de 40 mil pessoas formadas pela UERN, pergunte o que elas pensam da universidade que a formou.

Perguntem o que a UERN representou na vida delas e de suas famílias. Perguntem ao médico nascido e radicado na cidade do interior o que lhe possibilitou o diploma. Perguntem ao professor onde ele teve a sua licenciatura. Pergunte ao comunicador social que fala nas rádios, na TV ou escreve nos jornais como surgiu sua oportunidade para se capacitar.

Perguntem aos prefeitos e empresários das cidades onde se formou a mão de obra especializada que consultam e contratam. Ou simplesmente perguntem a um colega, deputado na Assembleia Legislativa do RN, sim porque lá também tem estudante da UERN, o que pensa da universidade.

Enfim, pergunte, informe-se e, se a sua motivação for de fato um futuro melhor para o nosso estado, irá sem dúvida reconhecer que precisamos fortalecer a UERN.

 

*José Ronaldo Pereira da Silva – Doutor em Ciências Exatas e da Terra e Professor da Faculdade de Ciências Exatas e Naturais (FANAT) da UERN.

Padre Cornélio Rodrigues – Reflexão para o XXXIII Domingo do Tempo Comum

Neste trigésimo terceiro domingo do tempo comum, o penúltimo do ano litúrgico, continuamos a leitura do discurso escatológico de Jesus no Evangelho segundo Mateus. O texto de hoje compreende a chamada “parábola dos talentos”, Mt 25,14-30. Essa é uma das parábolas mais difíceis e complexas de Mateus, por isso, muito passível de distorção em sua interpretação. Nela, continua em evidência o tema  da vigilância, embora de maneira menos explícita que na parábola das dez virgens (cf. Mt 25,1-13), refletida no domingo passado.
Localizada entre a parábola das dez virgens e a cena do julgamento final, a parábola dos talentos tem um significado relevante em todo o Evangelho segundo Mateus e, portanto, seu ensinamento é de fundamental importância para o bem da comunidade cristã em todos os tempos. Certamente, a comunidade de Mateus vivia um momento de relaxamento e desânimo na vivência das bem-aventuranças, núcleo central da mensagem cristã. Ora, os cristãos esperavam um retorno imediato do Senhor e, como isso não acontecia, começavam a desanimar, abandonando a fé ou vivendo-a de modo superficial.
Com essa parábola, o evangelista quis animar aqueles cristãos, mostrando que o tempo de espera não é perdido; pelo contrário, é o tempo oportuno para a comunidade fazer crescer e multiplicar os dons que o Senhor lhe confiou. Assim, essa parábola assume um papel importante para os processos de discernimento dos cristãos a respeito da espera pelo Senhor, ensinando que a melhor maneira de esperá-lo é trabalhando para que o seu Reino se realize no cotidiano, fazendo render o amor, o talento por excelência, que foi confiado a cada um e cada uma na comunidade.
Olhemos, então, para a parábola: “Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois, e ao terceiro, um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou” (vv. 14-15). Antes de tudo, recordemos que parábola é um gênero literário que apresenta uma mensagem por meio de comparação. É, portanto, com essa imagem apresentada que o evangelista compara a situação da sua comunidade em espera pelo retorno do Senhor. Embora o texto litúrgico empregue a palavra empregados, o correto seria servos, por corresponder com mais fidelidade ao termo grego “dúlos” usado pelo evangelista. O homem viaja, mas não se ausenta, pois continua presente, de modo implícito, nos bens confiados aos servos. Também o Senhor ressuscitado não se ausentou da comunidade; continua presente à medida em que seus servos são capazes de fazer o seu projeto se desenvolver, cultivando os dons que lhes foram confiados.
Embora distribuídos em quantidades diferenciadas, ninguém ficou desprovido de bens; cada um recebeu de acordo com a sua capacidade. Esse detalhe é importante para o evangelista. Se todos recebem, todos tem algo a partilhar, a plantar e fazer frutificar. A quantidade diferenciada de bens recebidos por cada um pode ser uma alusão à diversidade de dons e carismas existentes na comunidade. Os talentos não são emprestados, são entregues, verdadeiramente doados. Talento era uma medida de peso usada para pesar metais preciosos como ouro e prata; um talento equivalia a aproximadamente trinta quilos de ouro, o que correspondia a seis mil denários; um denário era o salário de um dia de trabalho braçal (cf. Mt 20,2). Assim, até mesmo aquele recebeu apenas um talento, ainda recebeu uma grande fortuna. Isso significa a benevolência e liberalidade do Senhor, bem como a perenidade dos bens que ele doa à comunidade.
Ao receber os talentos ou dons, cada um é livre para usá-los como quiser. A viagem do dono evoca a liberdade dada àqueles que receberam os talentos para usá-los. Como o dono não estava presente para vigiar os servos, eles poderiam multiplicar, extraviar ou apenas conservar os talentos recebidos. A parábola diz qual foi a atitude de cada um: “o que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. Do mesmo modo o que recebeu dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão” (vv. 16-18). Os dois primeiros servos trabalharam até duplicarem o que haviam recebido. Embora o texto não indique como eles fizeram isso, o certo é que não ficaram parados, nem tiveram medo. Foram ousados e criativos. O terceiro, simplesmente pensou na conservação; escondendo o talento, o conservou de modo íntegro e fiel.
A aparente ausência do Senhor  pode levar os membros da comunidade a diferentes posturas: para uns, é oportunidade de crescimento, para outros é motivo de medo e insegurança. A comunidade de Mateus vivia esse drama: o que fazer enquanto o Senhor não retorna? O evangelista aconselha que cada um desenvolva os dons recebidos, procurem multiplicar, transformando as realidades com amor e justiça. O Senhor nunca se ausentou; deixou seus dons como forma de continuar presente e operante. Desse modo, o convite à vigilância não visa um momento final específico, mas uma vida toda vigilante, praticando o amor e a justiça, ou seja, vivendo segundo a dinâmica das bem-aventuranças.
A liberdade de cada um no uso dos talentos não os isenta da responsabilidade, pelo contrário. Por isso, diz o texto que “depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar as contas com  os empregados” (v. 19). Ora, se os talentos entregues aos servos equivalem aos dons confiados aos membros da comunidade para a sua edificação, é justo que o Senhor se interesse pelo uso que cada um fez deles. Na comunidade não pode haver individualismo, indiferença nem omissão. Quem recebeu dons e não os fez frutificar, colocando-os a serviço dos demais, obviamente, não está apto a integrar a comunidade. É esse o sentido do acerto de contas mencionado na parábola. O Senhor quer saber o que fazemos com o seu evangelho a nós confiado. Quem multiplicou os talentos, gerou vida, edificou o Reino. Quem o manteve intacto como recebeu, foi omisso, cruzou os braços; na comunidade cristã, responsável pela edificação do Reino, não há espaço para pessoas assim.
Os servos que souberam colocar os dons a serviço da comunidade, multiplicando-os, ou seja, fazendo-os frutificar, são tratados, em tom de elogio, como “servo bom e fiel” (vv. 21-23). Embora o texto não descreva o que estes servos fizeram precisamente, o certo é que agiram, não ficaram acomodados. O Senhor quer que os dons confiados sejam usados em prol da justiça e do amor, tornando o mundo mais humanizado e parecido com o Reino. Não se trata de um convite ao acúmulo, o que seria contrário à lógica do Reino. É uma mensagem de esperança e perseverança, um convite a perder o medo e arriscar tudo, inclusive a vida, para que as sementes do Reino se multipliquem.
Ao contrário dos dois primeiros servos, o terceiro foi repreendido como “servo mau e preguiçoso” (v. 26). É interessante que o texto não menciona nenhuma ação malvada desse servo; pelo contrário, menciona sua precaução em não estragar o talento recebido, o que poderia render-lhe um reconhecimento de prudente. Ora, na lógica do Reino, lógica que a comunidade cristã deve assumir, não basta cometer delitos para ser tratado como mau: basta ser omisso, indiferente e medroso. Não basta não fazer o que é mal, basta deixar de fazer o bem para ficar fora da comunidade e, consequentemente, do Reino. O medo paralisa a comunidade e impede a instauração do Reino. De todos os medos, o mais perigoso é o medo de mudança. É esse medo que leva muitos grupos e movimentos a simplesmente conservarem rigidamente certas tradições, ignorando a ação criativa e constante do Espírito Santo.
Podemos, finalmente, identificar o sentido da vigilância nessa parábola: a autêntica vigilância não é espera passiva, mas é atitude, é serviço em prol do Reino, através da multiplicação dos dons confiados pelo Senhor à comunidade. Quem pensa apenas em conservar a doutrina, os costumes e tradições, trai a confiança depositada pelo Senhor. O Reino exige decisão, ousadia, criatividade e liberdade para o uso dos dons recebidos. Ser vigilante é, portanto, não ter medo de arriscar, é colocar-se a serviço da comunidade, expondo os dons recebidos, mesmo correndo riscos.
Uma vez que os talentos não foram confiados para serem conservados, mas para frutificarem, a atitude do dono é completamente compreensível: “tirar do que tem pouco para dar ao que tem muito” (v. 28). Ora, o que já tinha dez talentos, passando a onze, poderia fazer multiplicar cada vez mais, e quem mais ganharia com isso seria a comunidade, ou seja, o Reino. Com essa afirmação “a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas aquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado” (v. 29), o evangelho não propõe a perpetuação das desigualdades, mas acentuando a natureza da comunidade cristã: só pode participar dela quem produz e multiplica o que lhe foi confiado. Quem recebe o dom e o retém somente para si, não pode entrar em um projeto de vida comunitário como o Reino de Deus.
O destino final de quem se auto-excluiu da comunidade enfatiza a privação total de vida e amor: “choro e ranger de dentes” (v. 30). Essa expressão significa o grau máximo de despero para um ser humano, equivalente a uma vida privada de sentido. Isso não é castigo, mas consequência. De fato, é sem sentido a vida de quem não vive a lógica das bem-aventuranças. Viver para si é um mal. No Reino, só vive quem sabe viver a serviço do bem de todos; só se vive asssim com coragem e amor!

Padre Francisco Cornélio Rodrigues – Não deixar faltar o óleo das Bem-Aventuranças

(REFLEXÃO PARA O XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 25,1-13)

 

Por Padre Francisco Cornélio  Rodrigues.

Com a proximidade do final do ano litúrgico, o tema da vigilância passa a ocupar o centro da liturgia. Por isso, por três domingos consecutivos, os últimos do ano litúrgico corrente, o Evangelho é retirado do último dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus, o chamado “Discurso Escatológico”. É importante, de antemão, ressaltar que a ênfase dada à vigilância não visa provocar medo, e sim reavivar e aumentar nos cristãos a esperança na realização plena do Reino de Deus ou dos céus, como prefere Mateus.

No discurso escatológico prevalece o gênero literário apocalíptico, o que o torna tão enigmático e provocativo. Por isso, é necessário compreendê-lo bem, para que sua mensagem de encorajamento e esperança não seja transformada em medo e terror. Esse discurso é composto pelos capítulos 24 e 25 de Mateus, mas a liturgia dominical faz uso apenas do capítulo 25, composto de três parábolas, das quais a primeira compreende o Evangelho de hoje: a parábola das dez virgens (25,1-13). As outras duas serão lidas nos dois próximos domingos.

Quase cinquenta anos separam a ressurreição de Jesus da redação do Evangelho segundo Mateus. Muitas coisas aconteceram nesse intervalo de tempo, como um esfriamento ou relaxamento na vida de fé dos cristãos. A comunidade mateana vivia uma situação de crise, tanto por causas externas quanto internas. As causas internas eram as perseguições da parte do judaísmo ortodoxo e do império romano; as causas internas eram o conflito entre os cristãos de origem judaica e aqueles de origem pagã e, principalmente, a queda do fervor nos cristãos que começavam a desanimar. O Evangelho segundo Mateus é, portanto, um conjunto de respostas a tudo isso.

No caso específico da parábola que hoje lemos na liturgia, essa é a resposta à crise de fé e de identidade pela qual passava a comunidade, devido a diminuição no fervor de seus membros. Ora, tendo se passado já quase cinquenta anos da ressurreição, os cristãos não viam suas vidas melhorarem, pelo contrário, até pioravam devido às perseguições. O resultado disso era uma fé cada vez menos viva e sem esperança. Era preciso, portanto, reanimar, encorajar e despertar na comunidade a esperança e o ardor da fé inicial. Ao desânimo, o evangelista pede uma atitude de vigilância. A comunidade deve estar sempre pronta para encontrar-se com o Senhor a qualquer momento. Na verdade, segundo o evangelista, o melhor seria viver na certeza de que o Senhor nunca se ausentou, mas está sempre presente na comunidade. Isso exige solicitude, e é exatamente o que a parábola das dez virgens quer suscitar.

Por se tratar de uma parábola, não comentaremos versículo por versículo, mas apenas a sua mensagem central, embora seja necessário, mesmo assim, observar cuidadosamente algumas expressões particulares. Assim diz o texto em seu início: “O Reino dos Céus é como a história das dez virgens que pegaram suas lâmpadas e foram ao encontro do noivo” (v. 1). Essa é a última parábola do Evangelho em que o Reino dos Céus é comparado a uma realidade concreta conhecida do auditório de Jesus e da comunidade de Mateus. É uma parábola de alcance e interesse universais. A expressão “dez virgens” (em grego: déka parténois) evoca o universalismo da comunidade. Dez é um número que expressa totalidade, por ser a soma de dois números perfeitos: 7+3=10. Com esse pequeno detalhe, Jesus dá um salto de qualidade considerável em sua mensagem: o Reino dos Céus já extrapolou os limites de Israel, o qual seria representado pelo número doze.

A imagem do casamento não era novidade na linguagem de Jesus e nem no judaísmo. Desde o profeta Oséias, a relação entre Deus e seu povo é apresentada em linguagem matrimonial. O que Jesus faz é ampliar o alcance da imagem, cuja noiva-esposa deixa de ser Israel e passa a ser a humanidade inteiro. Por sinal, a parábola não fala da noiva; por ela, subentende-se toda a humanidade, uma vez que é o próprio Jesus o noivo-esposo.

Sem saber como se desenrolava uma festa de casamento no tempo de Jesus, corremos o risco de não compreender a parábola, imaginando que as dez virgens estavam disputando um único noivo. Por isso, tentemos compreender. Após um ano da primeira fase do casamento, a fase da promessa, o casamento era festejado e consumado. No dia marcado, o noivo ia com seus amigos até a casa da noiva. Em sua casa, a noiva reunia suas melhores amigas para esperar o noivo. Após a chegada do noivo, a noiva se despedia dos seus pais, deixava sua casa e ia para a casa do noivo, ao seu lado, onde acontecia a festa. Formava-se assim, o cortejo nupcial da casa da noiva para a casa do noivo. Isso deveria acontecer no início da noite, de modo que o cortejo era iluminado pelas lâmpadas que as moças amigas da noiva levavam.

Seria grande imprudência as moças deixarem faltar óleo para suas lâmpadas no cortejo, uma vez que uma festa de casamento começava a ser preparada com muita antecedência, cerca de um ano. Daí, Jesus faz a sua denúncia e alerta com a parábola, a partir dos distintos comportamentos das virgens: cinco eram imprevidentes e outras cinco eram previdentes. Essa distinção é típica da literatura sapiencial, bastante difusa no tempo de Jesus. O texto litúrgico não emprega os termos mais adequados para essa distinção: sensatas (em grego: morai) e insensatas (em grego: fronímoi). A insensatez das primeiras consiste em ter deixado o óleo acabar. A sensatez das segundas consiste em ter óleo suficiente.

A parábola se torna até surpreendente e difícil de ser interpretada, considerando a natureza dos personagens envolvidos. Na verdade, todos os personagens são passíveis de observações negativas, inclusive o noivo e as virgens ditas prudentes: o atraso do noivo poderia pôr em cheque a sua reputação perante a noiva e sua família (v. 5); a falta de solidariedade das virgens prudentes ao não compartilharem o óleo com as imprudentes (v. 9); a falta de perseverança das dez virgens, prudentes e imprudentes, pois todas elas acabaram cochilando (v. 5). Como se vê, não há méritos morais em nenhum dos personagens. Poderíamos até dizer que todos se nivelam por baixo.

Como o objetivo da parábola não é apresentar um padrão de comportamento moral adequado, identificamos pois o centro da sua mensagem: ter ou não ter óleo suficiente. A denúncia e alerta de Jesus consiste exatamente nesse detalhe. Muito tem se discutido nos estudos bíblicos a respeito do significado do óleo (em grego – elaion) nessa parábola. É inegável que se trata de algo essencial, pois quem não tem ele fica fora do banquete e, portanto, do Reino (v. 11), e ao mesmo tempo intransferível, ou seja, pessoal (v. 9). Alguns já definiram o óleo como as boas obras, os carismas pessoais, os dons do Espírito Santo, interpretações que não são totalmente satisfatórias.

Acreditamos que a imagem do óleo se refere às bem-aventuranças, inclusive como chave de leitura de todo o Evangelho segundo Mateus, compreendendo-as como a responsabilidade pessoal de cada um na construção do Reino. Essa construção do Reino é um compromisso comunitário, por isso ninguém pode isentar-se da sua responsabilidade pessoal. Essa responsabilidade consiste em viver com seriedade o projeto de Jesus expresso nas bem-aventuranças. Viver as bem-aventuranças é, acima de tudo, fazer a vontade de Deus. A conclusão da parábola nos leva exatamente para o discurso da montanha, pouco após Jesus ter proclamado as bem-aventuranças: “Não é aquele que diz ‘Senhor, Senhor!’ que entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus” (Mt 7,21). E a vontade do Pai não se faz em um momento apenas, mas em toda a vida. 

As cinco moças imprudentes que não alimentaram suficientemente suas lâmpadas com óleo representam aquelas pessoas que ao longo da vida não vivem as bem-aventuranças, imaginando que basta, de última hora, dizer “Senhor, Senhor!” para entrar no Reino. Tudo indica que na comunidade de Mateus havia muitas pessoas assim. Por isso, ele relembrou com muito cuidado as palavras de Jesus que pediam paciência, vigilância e perseverança: “Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora” (v. 13). Essa vigilância não significa longas vigílias de oração, mas uma vida cristã sadia, responsável e comprometida com o Reino. Enfim, é a vida segundo as bem-aventuranças que caracteriza a pessoa vigilante e prudente.

Raimundo Carlyle – O Fim dos Tempos… No RN dos Mártires

Por Raimundo Carlyle – Juiz de Direito no RN

 

Nas últimas décadas, o RN viveu um proselitismo estatal irresponsável. Nenhuma equipe de governo teve “força” para convencer os chefes do Executivo de suas épocas o que vislumbraram sobre a crise que se avizinhava no horizonte de médio e longo prazo. E não faltaram avisos.

Os efeitos da vertiginosa queda dos “royalties” do Petróleo no solo potiguar tornaram cidades antes ricas em túmulos de progresso. A aprovação desmesurada de Planos de Cargos, Carreiras e Salários de várias categorias funcionais sem os necessários estudos de impacto orçamentário aprisionaram os vários governos em uma ciranda financeira sem fim.

A participação dos Poderes e Instituições de Estado no bolo orçamentário tornou o Executivo mártir sem causa e caixa sem lastro. A ausência de transparência real nas finanças públicas alavancou suspeita da existência de recursos sabidamente inexistentes.

A falta de diálogo espontâneo entre Poderes e Instituições sobre os cenários presente e futuro do RN transformaram as infindáveis discursões de gabinetes em acirradas disputas judiciais.

Ou seja, tudo conspirou para a avassaladora crise financeira pública atual. Não podemos esquecer as crises vivenciadas por todos os governos do RN nas últimas décadas: Geraldo Melo atrasou salários; Garibaldi Filho vendeu a Cosern para bancar seu governo; Vilma de Faria contraiu empréstimo para construir a Ponte de Todos; Iberê Ferreira tomou sete milhões de reais emprestados ao TJRN para pagar o 13º do Executivo; Rosalba Ciarlini fez uma Parceria Pública Privada para construir a Arena das Dunas, resultando em aumento da despesa pública, por vários anos; Robinson Faria utilizou o FunFir do IPERN para pagar servidores e os salários continuando atrasando.

O problema dos vencimentos e proventos atrasados dos servidores ativos, inativos e pensionistas do RN, é a face mais escancarada da crise financeira. As alternativas para solução do problema têm sido buscadas por todos.

Os orçamentos dos Poderes Legislativo e Judiciário, do Tribunal de Contas do Estado, Ministério Público e Defensoria Pública têm se mantido nos mesmos patamares nos últimos anos e não serão maiores em 2018. Ainda assim, não existem soluções efetivas no curto prazo para que seja vencida a crise atual.

A saída para a crise financeira passa pelo aumento da arrecadação – que depende do aquecimento da economia nacional – para que seja viabilizada no médio prazo.

Uma pauta de soluções emergenciais para a crise financeira do RN passaria por: a) empréstimos governamentais federais; b) alienação de bens públicos estaduais; c) corte radical das despesas de custeio; d) corte de pessoal.

Todas as alternativas elencadas exigem sacrifícios imensuráveis. A alternativa “a” está na fase de tratativas e, se viabilizada, poderia desafogar o pagamento dos vencimentos atrasados. A alternativa “b” está na Assembleia Legislativa para análise. Urge seja aprovada, embora seja relativa a somente dois imóveis. A adoção da alternativa “c” inviabilizaria muitos serviços essenciais já parcamente prestados. A mais radical das alternativas, a “d”, não faz parte do cenário vislumbrado pelo governo do RN, conforme foi amplamente noticiado.

Porém, sem a concretização de qualquer das alternativas elencadas, continuaremos apenas náufragos em mar aberto… ou, para aproveitar o momento, mártires no século XXI.

Pe. Francisco Cornélio Rodrigues – Reflexão para a Solenidade de Todos os Santos

Por Padre Francisco Cornélio Rodrigues. 
O texto evangélico que a liturgia propõe para a solenidade de todos os santos é Mateus 5,1-12a. Esse é, certamente, um dos trechos mais lidos e conhecidos de todo o Novo Testamento. Trata-se da introdução do primeiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus, conhecido como “discurso ou sermão da montanha”. Essa introdução ficou conhecida como “bem-aventuranças”, devido a repetição constante do termo grego “makárioi”, cujo significado é benditos, felizes ou bem-aventurados.
As bem-aventuranças compreendem a síntese do programa de vida de Jesus e, consequentemente, dos seus discípulos e discípulas de todos os tempos. É um texto belo, mas muito fácil de ter seu sentido deformado, se interpretado de modo equivocado, como geralmente tem acontecido. Ora, falar em todos os santos e santas tem tudo a ver com o autêntico seguimento de Jesus de Nazaré. Por isso, é importante refletir cada vez mais sobre as palavras de Jesus que o Evangelho apresenta.
O discurso da montanha é um indicador de direção para o discipulado de Jesus e, portanto, para a santidade. Devemos, pois, concentrar nossa reflexão na mensagem evangélica, evitando que esta solenidade se transforme em mera apologia ao devocionismo ingênuo que tanto tem se difundido na Igreja Católica nos últimos anos. Por isso, é preciso ter clareza do programa de vida de Jesus com seu projeto de sociedade e, consequentemente, das suas exigências.
De todas as palavras atribuídas a Jesus que encontramos ao longo dos evangelhos, as bem-aventuranças são as mais interpelantes e revolucionárias, embora sejam as mais fáceis de serem deturpadas, passando de uma mensagem de transformação a uma de resignação. Infelizmente, isso tem acontecido com muita frequência. Na verdade, quem quer fazer da religião cristã o “ópio do povo”, começa pelas bem-aventuranças. Por isso, é necessário compreendê-las bem, para que sua mensagem seja sempre de encorajamento e transformação.
Na versão mateana, encontramos oito bem-aventuranças, embora alguns comentadores considerem nove, devido a ocorrência do termo grego “makárioi” por nove vezes. Não consideramos a nona ocorrência do termo (v. 11) como uma nova bem-aventurança, mas como uma recapitulação e síntese das oito para os discípulos, reforçando a exigência para que eles de fato vivessem intensamente todas elas.
Para compreendermos as bem-aventuranças em seu sentido original, é necessário fazer mais uma consideração semântica. Como já afirmamos anteriormente, o termo grego empregado no Evangelho é “makárioi”, o qual pode ser traduzido por benditos, felizes ou bem-aventurados; é uma fórmula que introduz uma mensagem de felicitação. É importante recordar que, embora escritos em gregos, os evangelhos foram construídos segundo uma mentalidade semítica, sobretudo o de Mateus. Por isso, é importante recordar o sentido da palavra na língua original de Jesus, o hebraico. Ora, o termo corresponde ao grego “makárioi” em hebraico é  “asherei”, o qual significa uma felicitação, mas é, ao mesmo tempo, uma forma imperativa do verbo caminhar, seguir em frente, avançar ou pôr-se em marcha. Acreditamos que o evangelista pensou nos dois sentidos ao formular o seu texto. Sem esse segundo sentido, as bem-aventuranças não passariam de conformismo ou resignação; com ele, passam a ser uma mensagem de transformação.
Olhemos, pois, para cada uma das situações contempladas por Jesus como necessitadas de transformação. Eis a primeira bem aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (v. 3). De todas, tem sido essa a bem-aventurança que tem recebido a pior interpretação ao longo da história, infelizmente. Longe de ser um convite ao conformismo, é um impulso à transformação. Na língua grega a palavra pobre (ptokós) deriva do verbo acocorar-se de medo, dobrar-se, abaixar-se, encurvar-se; designa, portanto, uma condição de humilhação extrema.
O convite de Jesus é para que não desanimem, mas sigam em frente, não desistam, coloquem-se em marcha para alcançarem o Reino que foi criado para eles, o Reino dos Céus, mas não no céu, aqui mesmo na terra, como sinônimo de vida digna e plena. Aqui o termo espírito (em grego: pneuma) é empregado como sinônimo de consciência da situação em que se encontram os pobres, encurvados de medo pela opressão do império romano e pela religião oficial da época. A esses, Jesus convida a perder o medo e, conscientemente, seguir em frente lutando pelo Reino. O pobre que se encontra encurvado pelo sistema, deve tomar consciência da sua situação insuportável e lutar, seguindo em busca de seus direitos de herdeiro do Reino.
A segunda bem-aventurança diz: “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados” (v. 4). Ora, jamais será consolado o aflito que se fecha em suas aflições, mas sim aquele que consegue mover-se, apesar do sofrimento. Ser consolado na mentalidade bíblica é ter o sofrimento eliminado por completo. A implantação do Reino dos Céus em um mundo tão hostil traz muitas aflições para os discípulos de Jesus. Mesmo assim, eles devem avançar, jamais recuar.
Na terceira bem-aventurança, Jesus diz: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (v. 5). O termo manso equivale a humilde, e significa a pessoa que reivindica alguma coisa sem violência. Nesse caso particular, equivale às pessoas que lutam pela terra sem fazer uso da violência. A luta sem violência se torna mais lenta e, aparentemente, mais difícil de conseguir o objetivo. Por isso, Jesus encoraja, pede paciência, determinação e ação; em outras palavras, é como se Ele dissesse: “não parem, continuem caminhando e lutando”. Era muito comum os pequenos camponeses perderem suas terras por dívidas, com possibilidade de resgate. À medida que o tempo passava, as esperanças de resgate diminuíam e muitos desanimavam. Por isso, Jesus os consola e os encoraja.
Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para os discípulos, conforme Ele mesmo o fizera, a justiça como uma busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão forte: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (v. 6). A fome e a sede são as necessidades que mais incomodam o ser humano. Assim como o alimento e a bebida são essenciais para a vida, também deve ser a luta por Jesus entre seus discípulos. A comunidade cristã não tem vida quando não se alimenta cotidianamente de justiça. Onde não há justiça, não há dignidade, não há paz. É preciso seguir em frente na luta por justiça.
Na quinta bem-aventurança, temos: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia” (v. 7). É importante recordar que misericórdia, na Bíblia, não é um sentimento, mas uma ação em favor dos necessitados. Com isso, Jesus pede que seus discípulos prossigam sempre no caminho do bem. A misericórdia é uma das principais características do Deus de Jesus, por isso, deve ser também para os seus seguidores. Seguir fazendo o bem ao próximo, sem distinção, é uma das principais exigências do discipulado.
Com a sexta bem-aventurança, Jesus se contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião judaica: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (v. 8). Os antigos ritos de purificação do judaísmo tinham escondido o rosto verdadeiro de Deus. Jesus proclama a nulidade daqueles ritos e pede para seus discípulos caminharem em outra direção, avançarem por outro caminho que não seja o da religião que divide, exclui e até mata. Só há um tipo de pureza: aquela interior, e essa não é proporcionada por nenhum rito, mas somente pela disposição do ser humano em seguir os propósitos de Deus. Vê a Deus quem olha para o próximo com os olhos de Deus. É nessa direção que o discípulo de Jesus deve marchar, avançar.
A sétima bem-aventurança diz: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (v. 9). Na marcha da comunidade formada por discípulos e discípulas de Jesus, a promoção da paz é requisito básico e essencial. Não se trata de uma falsa paz como aquela imposta por Roma, intitulada “pax romana”. A paz que Jesus propõe não é uma mera ausência de conflitos, mas um retorno ao ideal hebraico expresso pela palavra shalom: paz como bem-estar total do ser humano, harmonia com Deus, com o próximo e consigo mesmo. É por essa paz que a comunidade de discípulos e discípulas deve lutar enquanto caminha, fazendo dessa paz o rumo da caminhada. Não há prêmio para quem caminha promovendo a paz, mas há consequências: ser chamados filhos de Deus. Na tradição bíblica, ser filho é ser parecido com o pai. Quando alguém caminha promovendo a paz, se torna parecido com Deus, por isso, será chamado seu filho.
A oitava bem-aventurança funciona como uma espécie de credencial para o reconhecimento do discípulo e sua pertença ao Reino: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (v. 10). A justiça, por excelência, é a prática das bem-aventuranças anteriores. A quem adere plenamente à lógica do Reino, não há outra consequência a não ser a perseguição. Mas, mesmo diante da perseguição, a palavra de Jesus continua sendo de ânimo e encorajamento: continuai caminhando, avançando, marchando em busca do Reino que é vosso!
Viver as bem-aventuranças é, portanto, abraçar um projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entra em conflito com os sistemas dominantes baseados na exploração, no lucro e na sobreposição de uns sobre os demais. Mas é diante de tudo isso, ou seja, no conflito, que a comunidade cristã deve avançar, seguir em frente sem jamais desanimar. Por isso, Jesus reforçou todo o ensinamento anterior, direcionando diretamente para os discípulos a conclusão com as consequências do abraçar o seu projeto: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (vv. 11-12a). Não consideramos essa afirmação como uma nova bem-aventurança, mas como um reforço e síntese das oito anteriormente apresentadas. Aquelas oito são inseparáveis. Jesus não as apresenta como sugestões para os discípulos escolherem uma ou outra. É preciso viver todas elas para ser discípulo de Jesus, pois nelas ele traça o seu próprio retrato, diz como Ele mesmo viveu, caminhou ou avançou; e o discípulo deve, inevitavelmente, viver como Ele.
Assim, recordando que Paulo e os demais cristãos de suas comunidades chamavam-se mutuamente de santos, e eram cristãos porque levavam a sério as bem-aventuranças, podemos compreender que celebrar todos os santos é recordar todos os que não aceitam as coisas como são impostas, mas sabem mover-se, avançar e seguir um outro caminho; não para fugir da realidade, mas para transformá-la.
Para seguir Jesus é preciso estar em estado permanente de marcha, caminhando contra tudo o que impede a realização do Reino já aqui na terra. A comunidade cristã não pode mais aceitar que uma mensagem tão encorajante e transformadora se transforme em sinal de resignação e aceitação passiva diante de tudo o que impede o advento do Reino. A mensagem das bem-aventuranças é libertadora porque convida o discípulo e a discípula a sair de si, colocar-se em movimento rumo a um mundo melhor, mais justo e mais fraterno.

Como Mudar Mentes

Joao Antônio Pagliosa

Eis aí uma tarefa assaz difícil, e de extrema complexidade, e que
requer habilidade se ambicionamos êxito na empreitada. Mudar mentes
depende exclusivamente de quem assume e se conscientiza que pensa e,
portanto, age de maneira incorreta.

O primeiro entrave: Ninguém gosta de admitir erros. Vergonha,
autoestima ferida, decepção consigo próprio, mágoas, fazem a pessoa
procrastinar mudanças, e por isso, sofrem coisas que não precisariam
sofrer.

Houve tempos em que eu considerava mudar mentes uma batalha perdida, e
dezenove anos atrás escrevi um artigo comentando sobre a imutabilidade
da cabeça do homem.

Raciocinava, outrora, que pau que nasce torto morre torto, as mudanças
eram superficiais e no cerne, nas suas essências, o homem não mudava.
Embora esteja cercado de provas de que pessoas não mudam suas cabeças,
atualmente não penso mais assim. Hoje compreendo que as pessoas podem
mudar radicalmente as suas vidas, mas elas precisam se convencer
disso, e precisam, principalmente, querer isso. Por quê? No livro de
Atos 6 : 6, conhecemos a figura de Estevão, um homem cheio de fé e
cheio de Espírito Santo, que fazia prodígios e grandes sinais,
(milagres), entre o povo judeu.

Você, leitor, sempre levantará a ira de seus adversários quando
mostrar habilidades, sabedoria e sucesso. E estes adversários vão
aprontar armadilhas para derrubá-lo. Isso aconteceu também com
Estevão.

Os sumo sacerdotes do Sinédrio, (o S.T.F. da época), não conseguiam
resistir a sabedoria e ao Espírito pelo qual Estevão falava, e então,
subornaram pessoas, as quais testemunharam assim: “Temos ouvido este
homem blasfemar contra Moisés e contra Deus.”

Pronto, estava armada a armadilha. Estevão foi julgado e todos que
estavam no Sinédrio, fitando os olhos naquele apóstolo de Jesus, viram
o rosto de Estevão, como se fosse rosto de anjo.

Era, prezado leitor, a presença de Deus, naquele fiel servidor.
Sempre menciono que Deus nunca abandona aliados. Ele atravessa os
desertos conosco, Ele permanece ao nosso lado quando adoecemos, quando
estamos carentes e famintos de tudo e de todos. Ele é fiel, não muda e
não quebra os princípios que Ele próprio instituiu.

No transcorrer do julgamento, Estevão demonstra toda a sua sabedoria,
e confronta os sacerdotes e o povo judeu. Isso está em Atos 7 : 51 e
52, e Estevão diz : “Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração
e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo, assim como
fizeram os vossos pais, assim também vós o fazeis. Qual dos profetas
vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente
anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores
e assassinos, vós que recebestes a lei por ministério de anjos e não a
guardaste.”

Ouvindo estas palavras, enfureceram-se os judeus e rilhavam-se seus
dentes e arremeteram-se contra Estevão, que pleno do Espírito Santo,
levantou os olhos para o céu e viu a glória de Deus, e viu Jesus, que
estava a direita do Pai, e disse; “Eis que vejo os céus abertos, e o
Filho do Homem, em pé a destra de Deus.”

Queridos, Deus não abandona seus aliados, e por isso Jesus está de pé
e não sentado. E o povo enfurecido, lança Estevão fora da cidade e o
apedrejam. As testemunhas deste massacre insano deixam as vestes de
Estevão aos pés de Saulo, o cirineu. (o qual se tornaria o apóstolo
Paulo).

Enquanto o apedrejavam, Estevão invocava e dizia: “ Senhor Jesus,
recebe o meu espírito!” E ajoelhando-se, enquanto as pedras o matavam,
ele clamou em alta voz: “Senhor, não lhes imputes este pecado.” E com
estas palavras, Estevão, adormeceu. Morreu, e cumpriu brilhantemente a
sua tarefa. Tornou-se o primeiro mártir da Igreja de Jesus Cristo,
após a descida do Espírito Santo.

Prezado, deixe-me dizer-lhe algo: Quando aceitamos Jesus de verdade,
nós somos completamente transformados, nós não nos importamos mais com
nós mesmos. O nosso próximo é nossa prioridade. O nosso desejo carnal,
nós o sufocamos, a nossa alma que é a origem de nossos pecados, nós a
dominamos, e alinhamos o nosso querer com o querer de Jesus.

As angústias, as depressões, os pânicos, e todas as confusões
psíquicas que atormentam pessoas deste mundo, mundo que
lamentavelmente jaz no maligno, são resultados de preocupações com
nosso próprio umbigo, com o nosso próprio eu. Cristão que sofre as
agruras de mente fragilizada, necessita urgentemente se ajoelhar
perante Jesus e clamar pelo seu socorro. Esta é a terapia que
funciona! Mudança de mente somente acontecerá quando nos voltarmos
para Deus, quando entendermos a nossa pequenez sem a sua presença. E,
concomitantemente, a nossa real soberania e extrema competência em
tudo que é bom, útil e agradável, acontecerá com a presença de Deus.

Aliança com Deus, eis aí, a chave para mudar mentes.

Curitiba, 04 de novembro de 2017

João Antonio Pagliosa
Engenheiro Agrônomo
www.palestrantejoaopagliosa.blogspot.com.br

500 anos da Reforma Protestante – 2

500 ANOS DA PRESENÇA PROTESTANTE NO MUNDO

– 31 de outubro de 1517 a 31 de outubro de 2017 –
por Jorge Henrique Barro

Parte 2 – A Reforma e Pós-Reforma

Certamente a Reforma Protestante do século XVI acontece por causa de todo esse processo preparatório. Desprezar esses eventos precursores é ignorar e desrespeitar o agir de Deus na história. Não importa para quem Deus dá uma visão, mas sim para que! Se a ênfase for no quem faz pode-se roubar a glória de Deus e passar a valorizar a pessoa e não os propósitos de Deus em usá-la.

A oposição ao falso ensinamento da Igreja Católica Romana não surgiu no século XVI, mas sim foi intensificada especialmente quando Lutero, um monge católico romano, desafiou a autoridade do papa e, em particular, a venda de indulgências. Ao invés de atender ao chamado a reformar-se, a Igreja Católica Romana procurou silenciar e abafar os Reformadores. Consequentemente, surgiram novas igrejas que nasceram da Reforma, formando os grandes ramos do Protestantismo mundial:

Os seguidores de Martinho Lutero (1483-1546) iniciaram a Igreja Luterana
Os seguidores de João Calvino (1509-1564) iniciaram a Igreja Reformada
Os seguidores de Menno Simon (1496-1561) iniciaram a Igreja Menonita e Anabatista
Os seguidores de John Knox (1513-1572) iniciaram a Igreja Presbiteriana na Escócia (usando a doutrina calvinista)
Os seguidores de Jacobus Arminius (1560-1609) iniciaram a Igreja Batista, tendo influencia também nos Metodistas e Congregacionais.

Na Inglaterra, as raízes da Reforma eram políticas e religiosas. O rei Henrique VIII (1491–1547), indignado com a recusa do Papa Clemente VII em conceder-lhe anulação de seu casamento, repudiou a autoridade papal e em 1534 estabeleceu a Igreja Anglicana tendo o rei como chefe espiritual da igreja. Logo após, buscando uma reforma mais efetiva e rigorosa, surge o movimento Puritano, propondo reformar outros aspectos não plenamente alcançados pela Igreja Anglicana, tais como, uma vida cristã de mais santidade e espiritualidade mais regrada.

No coração da Reforma Protestante, quatro questões básicas surgiram:
1. Como é que uma pessoa é salva?
2. Onde está a autoridade religiosa?
3. O que é a igreja?

Ao responder a essas perguntas, os Reformadores Protestantes desenvolveram o que seria conhecido como Cinco Solas (sola sendo a palavra latina para somente). Estes cinco pontos essenciais da doutrina bíblica separam claramente o protestantismo do catolicismo romano. Os Reformadores resistiram às exigências impostas a eles para estabelecer essas doutrinas, até diante da morte.

A Pós-Reforma

Outro grupo de reformadores (embora não totalmente reconhecido como parte dos Reformadores Magisteriais), chamados Anabatistas, insistiu que o batismo fosse realizado não em crianças, mas em adultos que professassem sua fé em Jesus.
Menno Simons (nascido na Holanda, em Witmarsum – 1496-1561) foi um teólogo originário da Frísia, ordenado padre católico em março de 1524. É considerado um dos reformadores radicais ligado aos anabatistas. Simons se converteu ao Anabatismo em 1536 e sua influência sobre o movimento foi tão forte que o grupo anabatista no norte da Europa foi chamado de Menonita (por causa de seu nome Menno).

Os anabatistas permaneceram um fenômeno marginal no século XVI, mas sobreviveram, apesar da perseguição feroz. Anabatista que significa “um que é rebatizado”, do grego anabaptizein = ana – de novo / baptizein = batizar, ou seja, “batizar novamente”. O batismo era praticado nos infantes. Passaram a pregar que o batismo deveria ser exercido apenas em adultos crentes. Daí seus inimigos passaram a chama-los de “anabatistas” – os “re-batizadores”. Ser rotulado de anabaptista não era algo seguro. De fato, por um momento foi uma sentença de morte segura.

As diferenças entre os Anabatistas e os chamados Reformadores Magisteriais vão de qualquer sinal externo, como o batismo. Queriam a restituição da igreja verdadeira em um modelo apostólico. Os anabatistas consideravam as igrejas estatais além da reforma.
Consideraram a confissão pública de pecado e fé, selada pelo batismo adulto, como sendo o único batismo apropriado. Após o reformador suíço Huldrych Zwingli, eles consideraram que os bebês não eram puníveis com o pecado até que tomem consciência do bem e do mal e podem exercer sua própria vontade, arrepender-se e aceitar o batismo.

Tal crença lhes conferiu o título de hereges e subversivos por todos. Assim, os anabatistas foram acusados de crime religioso e civil. As cortes eclesiásticas e as civis tinham jurisdição para punir quem se atrevesse a repetir o batismo, e também a quem se negasse a apresentar os filhos pequenos para receber o batismo.

Tal tema – o batismo – está intrinsicamente relacionado à questão da Igreja versus Estado. A separação da Igreja e Estado foi um dos temas centrais na visão anabatista. Por que os dois (batismo e Igreja/Estado) estão relacionados? Porque todas as pessoas nascidas na Igreja/Estado eram automaticamente consideradas cristãs.

Como os Anabatistas defendiam a separação da Igreja/Estado, não aceitavam a participação na igreja como sendo uma imposição estatal, mas sim uma decisão pessoal para que uma pessoa fizesse parte da Igreja (separada do Estado) e, havendo tal decisão pessoal, deveria ser rebatizada. Isso é fruto de uma compreensão de que a Igreja era uma comunidade voluntária e não fruto da imposição estatal. Especialmente (não exclusivamente) por isso que o batismo infantil foi rechaçado pelos anabatistas. Isso provocou consequências drásticas fruto da indignação e revolta geral de católicos e protestantes. Quais consequências?

Foram condenados a pena de morte em 1525, especialmente nas regiões católicas da Suíça. Para se ter uma ideia, a Confissão de Augsburgo não incluía os anabatistas aos reformadores, marginalizando-os à Reforma. O Conselho do governo de Zurique decretou também a pena de morte, em 1526, para quem rebatizasse qualquer pessoa. Isso foi replicando nos territórios protestantes na Suíça, passando a ter a mesma postura. Na Alemanha eram aplicadas aos anabatistas as mesmas leis contra os hereges.

Em 1528, Carlos V decretou a pena de morte aos anabatistas – baseada numa antiga lei romana criada para combater o Donatismo (os donatistas eram rigorosos, sustentavam que a Igreja não devia perdoar e admitir pecadores, e que os sacramentos, como o batismo, administrados pelos traditores – cristãos que negaram sua fé durante a perseguição de Diocleciano em 303 d.C.-305 d.C. e posteriormente foram perdoados e readmitidos na Igreja – eram inválidos. A Dieta de Espira de 1529, que condenava a todos os chamados “protestantes” incluía os anabatistas.

Mas, isso não intimidou os anabatistas que, mesmo tendo sido considerados membros de um movimento marginal ou radical da Reforma Protestante, geraram os movimentos dos Batistas, Menonitas e Quakers. Fala-se inclusive que, posteriormente, em virtude de tanta perseguição sofrida, parte do movimento anabatista ganhou outros formatos e tornou-se mais radical e não pacifista, empunhando as armas e desenvolvendo revoltas populares e armadas violentas.

500 anos da Reforma Protestante – parte 1

por Jorge Henrique Barro

Parte 1 – Introdução e Pré-Reforma

O evento precipitante da Reforma Protestante é geralmente considerado a partir da publicação de Lutero e suas 95 Teses na porta da Igreja de Wittenberg (Alemanha), em 31 de outubro de 1517.

Nenhuma ação humana é realizada no vácuo! O ser humano é um ser em sociedade e os movimentos se dão em função das realidades existentes em cada época. Como exemplo, recentemente milhares de pessoas foram às ruas no Brasil protestar contra o governo e suas práticas. Foi uma reação as ações tomadas pelo estado.

Para entender essas ações-reações dos movimentos é fundamental entender os acontecimentos e fatos geradores e provocadores. Assim, não se pode, por exemplo, estudar os chamados CINCO SOLAS da Reforma Protestante de forma isolada e separada das circunstâncias daquela época. Por que não? Porque eles são respostas às práticas da igreja que estavam em desacordo com a Palavra de Deus.

Quando os Reformadores se levantaram para afirmar os CINCO SOLAS, o que cada um deles estava confrontando? Estavam confrontando uma teologia não bíblica e buscando resgatar a Palavra de Deus que era negligenciada e adulterada. São eles:

• Sola Scriptura (“somente a Escritura”)
• Sola Fide (“somente a Fé”)

• Sola Gratia (“somente a Graça”)

• Solus Christus (“somente Cristo”)

• Soli Deo gloria (“somente a Gloria de Deus”)

Por isso, é necessário se ter um mínimo de entendimento histórico do que estava acontecendo para compreender o que justificou o surgimento da Reforma naquela época. Certamente sua compreensão será outra ao discernir tais fatores. É o que veremos agora!

A Pré-Reforma

O século XVI na Europa foi um grande século de mudanças em muitas frentes. Os humanistas e artistas do Renascimento ajudaram a caracterizar como sendo a era do individualismo e autocriatividade. Humanistas buscaram restaurar a dignidade da humanidade enquanto homens como Maquiavel injetaram o humanismo na política. O Renascimento ajudou a secularizar a sociedade europeia. O ser humano agora era o criador de seu próprio destino.

O Renascimento desencadeou a noção muito poderosa de que o ser humano faz sua própria história.

Temos que perguntar: – Por que a Reforma ocorreu? Em geral, a insatisfação com a igreja podia ser encontrada em todos os níveis da sociedade europeia. Primeiro, pode-se dizer que muitos cristãos devotos encontraram a crescente ênfase da Igreja em rituais inúteis na busca pela salvação pessoal. Houve a mudança da salvação de grupos inteiros para algo mais pessoal e individual. Os sacramentos tornaram-se formas de comportamento ritualizado que já não faziam sentido. Tornaram-se desprovidos de significado. E quanto mais e mais pessoas passavam a viver em cidades, mais podiam discutir suas preocupações com os outros. Em segundo lugar, o papado perdeu grande parte de sua influência espiritual sobre o povo devido à crescente tendência da secularização. Em outras palavras, papas e bispos agiam mais como reis e príncipes do que como guias espirituais.

E, novamente, pelo fato de tantas pessoas se aglomerarem nas cidades, as luxuosas casas e palácios da igreja eram percebidos por mais pessoas de todos os setores. Os pobres ressentiam a riqueza do papado e os muito ricos estavam com ciúmes dessa riqueza. Ao mesmo tempo, os papas compravam e vendiam os altos ofícios (para ascensão aos altos escalões do clero), e também vendiam indulgências. Tudo isso levou à crescente riqueza da igreja, bem como criou novos caminhos para abusos de todo tipo. Finalmente, no nível local da cidade e aldeia, onde os abusos eram contínuos, alguns oficiais da igreja ocuparam vários cargos ao mesmo tempo em que viviam de seus rendimentos fora da igreja. O clero tornou-se negligente, corrupto e imoral. As pessoas começaram a notar que os sacramentos estavam envoltos em complacência e indiferença. Algo estava terrivelmente errado.
Esses abusos exigiram respostas. Por um lado, havia uma tendência geral para o anticlericalismo, isto é, uma desconfiança geral e distinta e despreocupação com o clero. Algumas pessoas começaram a argumentar que o leigo era tão bom quanto o sacerdote, um argumento já avançado pelos Valdenses do século 12. Por outro lado, houve pedidos de reforma. Essas duas respostas criaram um terreno fértil para conflitos de todos os tipos, pessoal e social.

A fonte mais profunda de conflito era pessoal e espiritual. A igreja havia se tornado mais formal em sua organização, sem surpresa alguma, já que tinha dezesseis séculos de idade. A igreja tinha seu próprio direito canônico elaborado, bem como uma teologia dogmática. Tudo isso foi criado no Quarto Concílio de Latrão de 1215. Esse Conselho também estabeleceu a importância dos sacramentos, bem como o papel do sacerdote na administração dos sacramentos. 1215 também marca o ano em que a igreja elaborou ainda mais sua posição sobre o Purgatório. Acima de tudo, o Quarto Concílio Lateranense de 1215 estabeleceu a doutrina de que a salvação só poderia ser conquistada através de boas obras, jejum, castidade, abstinência e ascetismo.

Enquanto isso, as pessoas comuns buscavam uma religião mais pessoal, espiritual e imediata – algo que as tocaria diretamente no coração. Os rituais da igreja agora significavam muito pouco para elas. Precisavam de algum tipo de garantia de que elas estavam fazendo a coisa certa, de que realmente seriam salvas. A igreja pensou pouco em se reformar. As pessoas desejavam algo mais, mas enquanto isso a igreja, burocratizada e clericalizada, parecia prometer menos. O que parecia ser necessário era uma reforma geral do próprio cristianismo. Apenas uma transformação tão importante poderia afetar as mudanças refletidas nos desejos espirituais das pessoas.

A igreja enfrentou inúmeros desafios diretos ao longo dos séculos XIV e XV. Vejamos:

• Os hereges agrediam a igreja desde o século 12. Os hereges eram cristãos que se desviaram do dogma cristão. Muitos não acreditavam no batismo cristão – a maioria se sentia fora da igreja;
• Havia também numerosos místicos que desejavam uma iluminação divina direta e emocional. Eles alegaram que tinham sido iluminados por uma luz interior que lhes assegurava a salvação;
• Havia um influente movimento filosófico chamado nominalismo que enfatizava a realidade de qualquer coisa concreta e real, duvidando assim da fé;
• O humanismo do Renascimento rejeitou quase completamente a matriz cristã e voltou-se ao Mundo Clássico, a verdadeira fonte de virtude e sabedoria;
• A ruptura do feudalismo e a descoberta e exploração do Novo Mundo deram lugar ao comércio e ao mercado (troca), bem como uma tendência crescente de ver a vida no aqui e agora como algo bom;
• A igreja também foi desafiada por uma consciência cada vez maior de etnia e nacionalismo – exemplo: Joana d’Arc e a Guerra dos 100 anos;
• Comerciantes e trabalhadores qualificados que viviam em cidades estavam crescendo e se tornando influentes, pois começaram a fornecer à Europa mais e mais produtos;
• Os reis europeus consolidavam seu poder sobre sua nobreza;
• Havia uma consciência, graças à idade da descoberta, que havia um mundo pagão fora do mundo da Europa que precisava ser domesticado.

E, um tema muito caro que acelerou a Reforma Protestante, foi indulgência que particularmente atraiu a atenção de Lutero que foi vendida em toda a Alemanha por Johann Tetzel (1465 – 1519), um frade dominicano. A tarefa de Tetzel era arrecadar dinheiro para pagar a construção da nova igreja – Basílica de São Pedro – em Roma. Em geral, uma indulgência libertava o pecador do castigo no Purgatório antes de ir ao céu. O sistema foi permitido pela igreja (desde 1215), mas que agora tomava força maior e sendo abusado pelo clero e seus agentes, como Tetzel.

A Reforma Protestante foi uma revolta teológica generalizada na Europa contra os abusos e o controle totalitário da prática da igreja daquela época. Reformadores como Martinho Lutero na Alemanha, Ulrich Zwingli na Suíça e João Calvino na França protestaram contra várias práticas antibíblicas da Igreja Católica e promoveram o retorno à doutrina bíblica. Como já visto, o evento precipitante da Reforma Protestante é geralmente considerado como a publicação de Lutero de suas 95 Teses na porta da Igreja de Wittenberg (Alemanha) em 31 de outubro de 1517.

Mesmo antes da Reforma Protestante, havia atitudes de resistência a algumas das práticas não bíblicas da Igreja Católica Romana, mas eram relativamente pequenas e isoladas. Os Lollardos, os Waldenses e os Petrobrussianos (seguidores de Pedro de Bruys, da cidade de Bruis, no sudeste da França) protestaram contra certas doutrinas católicas. Antes que Lutero jamais pegasse um martelo e se dirigisse para a Igreja Wittenberg, já havia alguns defensores da necessidade de uma reforma e a volta ao verdadeiro evangelho. Entre eles estavam John Wycliffe (1330–1384), um teólogo inglês e professor de Oxford que foi condenado como herege em 1415. Wycliffe atacou o que viu como corrupção dentro da igreja, incluindo a venda de indulgências, peregrinações, a veneração excessiva de santos e os baixos padrões morais e intelectuais dos sacerdotes ordenados. Wycliffe também repudiou a doutrina da transubstanciação, sustentou que a Bíblia era o único padrão da doutrina cristã e argumentava que a autoridade do Papa não estava fundamentada nas Escrituras. Alguns dos primeiros seguidores de Wycliffe traduziram a Bíblia para o inglês, enquanto outros seguidores, conhecidos como Lollardos, consideravam que a Bíblia era a única autoridade e que os cristãos eram chamados a interpretar a Bíblia por si mesmos. Os Lollardos também argumentaram contra celibato clerical, transubstanciação, confissão oral obrigatória, peregrinações e indulgências.

Outro foi John Huss (1369-1415), um padre da Bohemia que foi excomungado em 1410 e queimado na estaca em 1415 por sua oposição à Igreja de Roma; e também Girolamo Savonarola, um frade italiano que foi enforcado e queimado em 1498. Sua morte levou às Guerras Hussitas na Boêmia. Huss seguiu os ensinamentos de Wycliffe de perto, traduzindo o Triálogo de Wycliffe em tchecoslovaco e modelando os primeiros dez capítulos de sua própria De Ecclesia. Ele considerava a Bíblia como a última autoridade religiosa e argumentava que Cristo, em vez de qualquer oficial eclesiástico, é o verdadeiro chefe da igreja.

Jorge Henrique Barro – É doutor em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Pasadena. Califórnia – USA). Fundador e professor da Faculdade Teológica Sul Americana de Londrina e avaliador do MEC para Teologia.