terça-feira , 25 de setembro de 2018
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Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o IV Domingo da Páscoa

Todos os anos, a liturgia do quarto domingo da páscoa se serve do capítulo décimo do Evangelho segundo João, no qual Jesus se auto apresenta como único, verdadeiro e bom pastor. Por isso, esse domingo foi batizado como o “domingo do bom pastor”. Nesse ano, o texto específico é Jo 10,11-18, versículos que contém, de fato, a apresentação de Jesus como pastor, uma vez que nos primeiros versículos ele tinha se apresentado simplesmente como a “porta das ovelhas” (cf. Jo 10,1-9).

A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça do cristianismo desde os seus primórdios. Tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem bonita, mas que não corresponde exatamente ao que Jesus fala de si no Quarto Evangelho. Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada “parábola da ovelha perdida” (cf. Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque o conhece verdadeiramente e se deixa conhecer.

É importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Desde o Antigo Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente. Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas. Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11).

Jesus atualiza a perspectiva do profeta: sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros. A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus após o seu discurso: uns diziam que ele estava endemoniado (cf. Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (cf. Jo 10,39). A mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e às suas economias, explorando o povo ao invés de protege-lo.

Ainda a nível de contexto, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo episódio, também polêmico, da cura do cego de nascença (cf. Jo 9,1-41). É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir do medo.

Após apresentar-se como porta das ovelhas, eis que ele se apresenta como pastor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (v. 11). Jesus fala de modo claro, associando o discurso à práxis; diz que é o pastor bom e porque o é: porque dá a vida por suas ovelhas. A tradução mais justa é “Eu sou o pastor belo”; o evangelista emprega aqui um adjetivo que corresponde mais a belo do que a bom; o belo (em grego: hó kalós) tem um sentido mais profundo: não se trata de uma qualidade, mas da sua própria essência. Significa que Jesus é o modelo único de pastor. Só há um critério para verificar a bondade-beleza do pastor: a capacidade de dar a vida por suas ovelhas. A vida, nos escritos joaninos, está intrinsecamente relacionada ao ato de amar. Portanto, dar a vida significa amar sem limites. Essa é a essência do pastor belo.

Após apresentar-se como pastor, Jesus apresenta a sua antítese: “O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa” (v. 12). O termo mercenário (em grego:  mistotós), que se tornou tão pejorativo, equivale simplesmente a empregado, assalariado. Enquanto o pastor cuida das ovelhas por amor, a ponto de dar a vida por elas, o mercenário cumpre suas funções por pagamento e não chega a arriscar a vida por elas. Em situação de perigo, ele deixa o rebanho a mercê, “pois ele é apenas um mercenário que não se importa com as ovelhas” (v. 13). Aqui, Jesus chega ao ponto alto de sua crítica à hierarquia religiosa de Jerusalém. Aos sacerdotes do templo, não importava a situação do povo, eles pensavam apenas nas ofertas que recebiam.

O lobo representa todas as forças de morte, exploração e injustiça que ameaçam a comunidade e a humanidade de um modo geral. Ao invés de combate-lo, a religião comandada por mercenários prefere aliar-se ou fugir dele. No caso da religião praticada no tempo de Jesus na Palestina, havia conivência e conveniência entre as autoridades religiosas e o império romano, de modo que mercenário e lobo conviviam muito bem, espoliando as pobres ovelhas de Israel. É importante lembrar que todas as denúncias feitas por Jesus às estruturas do seu tempo foram, ao mesmo tempo, alerta para que os seus seguidores não repetissem tais erros.

Na sequência, Jesus explicita como se dá sua relação de pastor com as ovelhas: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem” (v. 14). Esse conhecimento recíproco sempre foi desejado por Deus ao longo da história: conheceu a Israel e deixou-se conhecer por ele, mas Israel rejeitou o conhecimento (cf. Os 4,6), por isso perdeu o seu rumo. Conhecer, na linguagem bíblica, não se trata de um ato cognitivo, mas de uma relação íntima e recíproca, motivada pelo amor, semelhante à relação de Jesus com o próprio Pai: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas” (vv. 14-15). A intimidade de Jesus com os seus é atestada pela sua capacidade de amar até dar a vida.

Enquanto os sacerdotes do templo pensavam relacionar-se com Deus através do sangue de animais derramado em sacrifício, Jesus se relaciona através do conhecimento recíproco, ou seja, através do amor. E esse modelo de relação, ele quer universalizar: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir” (v. 16a). Aqui está a abertura de horizonte. Por necessidade, o seu pastoreio começa por Israel, libertando o povo dos mercenários (dirigentes religiosos) e enfrentando o lobo (império romano). Mas é necessário, através da comunidade cristã, estender essa missão a todo o universo.

Nenhuma religião pode delimitar o alcance do amor de Deus: também aqueles que não estão no redil pertence a Deus e são amados por ele. Como diz Jesus, também “elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (v. 16b). A voz inconfundível de Jesus deve ressoar em todo o universo, expressa na linguagem do amor, jamais através de proselitismos ou ritos. Sobre o “sonho da unidade”, fazemos a seguinte observação: ao invés de um “só rebanho e um só pastor”, a tradução correta seria “um só rebanho, um só pastor”, sem a conjunção aditiva, como no texto grego (mía poímne, eis poimén), ressaltando a unidade entre o pastor e o rebanho, a ponto de serem uma coisa só; o pastor é rebanho, o rebanho é pastor, é essa a relação ideal na comunidade cristã, cujo pastor único é Cristo, mas está tão unido aos seus como a videira aos ramos (cf. Jo 15,1-5). A tradução “um só rebanho e um só pastor” foi usada pela primeira vez por São Jerônimo, na Vulgata, e adotada pela Igreja para ajudar a fundamentar a autoridade papal.

Jesus volta a ressaltar sua unidade com o Pai: “É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente” (v. 17). Ora, é esse amor recíproco e incondicional que fundamenta e sustenta a relação entre Jesus e o Pai, e que é oferecido a toda a humanidade. Ao Pai, agrada a generosidade de Jesus: ele dá a sua vida livremente; a recebe novamente porque sabe que dar a vida por amor é, na verdade, estendê-la, torná-la eterna. A vida eternizada pelo amor se torna indestrutível, resiste até mesmo à morte. Por isso, de modo bastante categórico, Jesus declara: “Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo” (v. 18a). Não se trata de um mero entreguismo, nem de destino, nem de acidente; é consequência de suas escolhas, e sua grande escolha foi viver ilimitadamente o amor, e o amor incondicional não mede consequências.

A expressão “tenho o poder de entregá-la e de recebê-la novamente” (v. 18b) significa a plena consciência de estar amando com um amor igual ao do Pai. Inclusive, foi isso que o próprio Pai lhe pediu: “essa é a ordem que recebi do meu Pai” (v. 18c). Jesus recebeu do Pai a ordem de amar até dar a vida, obedeceu porque viviam uma relação de amor recíproco, a ponto de serem um só, como ele mesmo diz na continuação desse discurso: “Eu e o Pai somos um” (v. 30). É isso que ele pede aos seus seguidores de todos os tempos: viver em profundo amor entre si e com ele, de modo que a comunidade cristã seja “um só rebanho, um só pastor”, ou seja, uma comunidade de amor.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró- RN

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o III Domingo de Páscoa

Neste terceiro domingo do tempo pascal, a liturgia oferece um texto de Lucas para o evangelho, interrompendo uma sequência de leitura do Evangelho segundo João. O texto proposto para hoje é Lc 24,35-48, trecho que é a continuação e conclusão do episódio bastante conhecido dos “Discípulos de Emaús”. Esse dado é, por si, suficiente para nos situar já no seu contexto.

Cronologicamente, esse texto situa-se ainda naquele “primeiro dia da semana”, ou seja, o dia mesmo da ressurreição, marcado por tantas dúvidas, tensões e medos na comunidade, desde a visita das mulheres ao sepulcro, ainda de madrugada, até a caminhada triste dos dois discípulos para Emaús, e a manifestação do Senhor aos Onze, como mostra o relato lido hoje.

É importante recordar que a preocupação do evangelista não é apenas narrar fatos mas, através da sua narrativa, responder às perguntas da sua comunidade: se Jesus de Nazaré ressuscitou mesmo, onde e como encontrar-se com ele? Ora, a essência da pregação apostólica pós-pascal consistia nisso: “Jesus de Nazaré, morto crucificado, ressuscitou”; obviamente, muita gente questionava esse anúncio, pedindo provas, muitos queriam conhecê-lo e encontrar-se com ele.

Esses questionamentos continuam sendo feitos e os Evangelhos continuam dando as respostas. Lucas, de um modo particular, responde com mais precisão: o Ressuscitado pode ser encontrado em qualquer situação e espaço: ele está na estrada, caminhando com os peregrinos desiludidos (cf. 24,13-35), está na mesa durante as refeições e no meio da comunidade reunida. Porém, para reconhecê-lo, é necessário compreender as Escrituras e ter abertos os olhos e a mente para a fé.

Olhemos então para o texto: “os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão” (v. 35). O evangelista se refere aos dois discípulos de Emaús que retornaram a Jerusalém assim que reconheceram o Ressuscitado, após uma longa caminhada marcada pela tristeza e desilusão. Ao afirmar que o Ressuscitado foi reconhecido ao partir o pão, ensina o evangelista que ele está no cotidiano das pessoas, é alguém de casa, faz parte da família e é acessível.

No encontro com os Onze, os dois que tinham retornado de Emaús relataram toda a experiência e “ainda estavam falando quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco!” (v. 36). Ora, falar de Jesus é um modo de torná-lo presente; partilhar a experiência com ele é expandir a sua presença. Nesse sentido, a comunidade reunida, mesmo insegura, se torna o lugar privilegiado de encontro com o Ressuscitado, e o seu lugar é o centro; por isso, ele apareceu “no meio” deles. Ora, a comunidade não pode ter outro ponto de referência senão o Ressuscitado. A paz é oferecida como primeiro dom; não se trata de uma simples saudação ou um mero tranquilizante, mas de uma força reconciliadora e regeneradora.

Apesar das evidências da presença do Ressuscitado, o medo continuava, e isso impedia que os discípulos o reconhecessem: “imaginavam ver um fantasma” *(cf. v. 37). *O medo faz distorcer a imagem do Ressuscitado no meio da comunidade. De fantasma a juiz, o Ressuscitado pode ser confundido quando a comunidade não absorve a sua paz, nem compreende as Escrituras. Questionando a comunidade pelas dúvidas (cf. v. 38), Jesus ensina que só reconhece o Ressuscitado quem aceitar Jesus de Nazaré, crucificado e morto: “vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” (v. 39). Obviamente, com “mãos e pés”, ele faz referência às marcas da paixão; aqui, o relato lucano se aproxima do joanino (cf. Jo 20,24-27), refletido no domingo passado, reforçando que as dúvidas de Tomé são, na verdade, de todos os discípulos.

O evangelista alerta que tanto o medo quanto a euforia paralisam a comunidade e impedem sua experiência com o Ressuscitado: “Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos” (v. 41a); é preciso buscar um equilíbrio de modo que o Ressuscitado não passe despercebido com sua identidade. É ele mesmo quem quer ser encontrado e reconhecido pela comunidade; por isso, pede algo para comer (cf. v. 41b). Além de evidenciar ainda mais a sua identidade de ser vivente, comendo ele reforça a comunhão com os discípulos.

Tendo ele mesmo pedido, “deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles” (vv. 42-43). O Ressuscitado come o que lhe dão, e se solidariza com todos os famintos e necessitados de pão; esse é mais um dos significados oferecidos pelo evangelista, além da intenção de evidenciar que o Ressuscitado é uma pessoa viva e concreta. Além de querer provar a fé, Jesus quer também testar a capacidade de solidariedade para com os necessitados na sua comunidade. Mais tarde, quando começaram as perseguições, o cristianismo adotou o peixe também como um símbolo cristológico-eucarístico, pois do nome peixe em grego (ikthís) forma-se o acróstico: “Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador”, uma verdadeira profissão de fé.

No encontro com o Ressuscitado não podem faltar refeição e catequese, partilha do pão e da palavra; esses elementos são imprescindíveis na comunidade cristã. Nesse episódio, há uma inversão na ordem: enquanto na cena dos “Discípulos de Emaús” a catequese precedeu a partilha do pão, aqui acontece o contrário, ou seja, a catequese vem depois da refeição. Assim, podemos concluir que evangelista não preconiza um rito, mas oferece à comunidade quais são os seus elementos essenciais constitutivos: a partilha do pão e da Palavra.

A interpretação e compreensão adequadas das Escrituras são essenciais para a vida da comunidade. Essa é uma das principais preocupações de Lucas, ao longo das suas duas obras (Evangelho e Atos). Jesus é o intérprete e princípio interpretativo de toda a Bíblia. A Lucas, diferente de Mateus, por exemplo, não interessa colher citações avulsas, mas a Escritura em seu conjunto: Lei, Profetas e Salmos (v. 44). Desde o princípio, a Palavra de Deus revelada nas Escrituras aponta para o triunfo da vida e a derrocada de todos os projetos de morte. A ressurreição de Jesus é o ponto culminante dessa trajetória. Sem a Palavra, a comunidade perde o rumo da história.

Dos Discípulos de Emaús o evangelista diz que se abriram os olhos (cf. 24,31); dos Onze ele diz que “Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras” (v. 45). A tradução mais correta seria “abriu a mente”. Essa é também uma exigência para as comunidades de todos os tempos: as Escritura, se bem compreendidas, abre mentes, olhos e horizontes, faz parte do processo de conversão contínuo pelo qual deve passar toda comunidade cristã.

Um dos temas mais caros a Lucas, o universalismo da salvação, é evidenciado pelo próprio Ressuscitado: “no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (v. 46). Não apenas Israel, mas todos os povos são destinatários da paz e do amor do Ressuscitado. A reconciliação da humanidade com Deus é acessível a todas as pessoas, de todos os lugares e em todos os tempos; ninguém pode ser excluído dessa oferta de amor.

Surge, portanto, um novo tempo, uma nova etapa na história que começa por Jerusalém, mas não por privilégio, e sim por necessidade. Quanta reviravolta na história: a terra dos considerados justos é a mais necessitada de perdão! Foi Jerusalém com suas forças de poder que matou Jesus; o mal estava radicado lá e amparado pela religião. São as pessoas religiosas as primeiras necessitadas de conversão.

Dos discípulos e da comunidade cristã de todos os tempos, Jesus pede apenas uma coisa: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 48). Em Lucas, Jesus não confere uma doutrina nem uma regra; não envia os discípulos como pregadores e batizadores, como em Mateus, mas como testemunhas, o que é muito mais comprometedor e exigente. Ser testemunha (em grego: mártis) implica a coragem de dar a vida.

Somos, portanto, hoje e sempre, interpelados pelo evangelista Lucas a fazer um esforço constante para reconhecer o Ressuscitado em nosso meio, com disponibilidade para a partilha e mente aberta para o conhecimento das Escrituras. O critério de reconhecimento de uma comunidade que vive à luz do Ressuscitado é a disponibilidade dos seus membros para o testemunho.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o II Domingo de Páscoa

A liturgia do segundo domingo da páscoa oferece Jo 20,19-31 para o evangelho, texto que narra a continuidade dos acontecimentos envolvendo a comunidade dos discípulos no dia mesmo da ressurreição, e a quase repetição da mesma experiência uma semana depois, ou seja, no domingo seguinte. Esse texto é também a conclusão do Evangelho segundo João (v. 31). O capítulo seguinte (c. 21) é um acréscimo posterior da comunidade para melhorar a imagem de Simão Pedro, tão desgastada após sua oposição a Jesus no lava-pés e a negação durante o processo.

No evangelho do domingo passado, contemplamos as reações da comunidade de discípulos logo no início daquele primeiro dia da semana, no qual fora constatado o sepulcro vazio (cf. Jo 20,1-9), inicialmente por Maria Madalena, e logo em seguida por Pedro e o Discípulo Amado. Dos três, somente o discípulo Amado acreditou na ressurreição diante do primeiro sinal, o sepulcro vazio (cf. 20,8). Maria Madalena foi a segunda a acreditar (cf. Jo,11-18), após confundir o Ressuscitado com o jardineiro, mas esse episódio já não constou no texto da liturgia do domingo passado.

Da madrugada do primeiro dia, passamos para o anoitecer, como diz o texto: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco” (v. 19). Não obstante as frustrações e decepções com o final trágico de seu líder, condenado e morto na cruz, a reunião dos discípulos mostra que a comunidade está se recompondo, após uma natural dispersão. Embora se recompondo, essa comunidade continua em crise, o que se evidencia pela situação de medo informada pelo evangelista. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das autoridades religiosas que condenaram Jesus em parceria com o império romano, e não todo o povo. É típico de João usar o termo “judeus” em referência às autoridades.

O medo é preocupante, é um impedimento à missão; é fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns; significa a ausência do Senhor. Sem a presença do Ressuscitado toda a comunidade perece e sua mensagem é bloqueada; as portas fechadas impedem a boa nova de ecoar.

Manifestando-se no meio dos discípulos, o Ressuscitado inicia neles o processo de transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada. Jesus comunica a sua paz e, ao mesmo tempo, reforça o modelo de comunidade sonhado e praticado durante toda a sua vida: uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. É esse o significado do seu colocar-se no meio deles. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que ao centro do seu existir esteja o Ressuscitado.

Na continuidade da experiência, Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado” (v. 20a), ou seja, as marcas do sofrimento, do flagelo e da cruz, garantindo a continuidade entre o Crucificado e o Ressuscitado. Com isso ele diz que a cruz não foi o fim e, assim, leva os discípulos à restituição da fé, uma vez que o principal motivo da desilusão e decepção deles foi o escândalo de um messias crucificado. É importante recordar que é João o único evangelista que se preocupa com esse detalhe: o Ressuscitado tem as marcas do Crucificado. Ora, a cruz não foi um acidente na vida de Jesus, e não pode ser esquecida pela comunidade; pelo contrário, foi consequência de suas opções e do seu jeito de viver, e as opções da comunidade devem ser as mesmas. Portanto, é necessário que os discípulos estejam sempre, em todos os momentos da história, familiarizados com a cruz, não como símbolo ou adorno, mas como disposição de dar a vida por amor, como fez Jesus.

A presença do Ressuscitado transforma a comunidade: “Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor” (v. 20b). A alegria é o primeiro fruto da paz que faz superar o medo, e uma das características fundamentais da comunidade que sabe contemplar o Ressuscitado em seu meio.

Já estabelecido como centro da comunidade, “novamente Jesus disse: A paz esteja convosco” (v. 21a). A paz como bem-estar do ser humano em sua totalidade é novamente oferecida. A passagem do medo à alegria poderia tornar-se uma simples euforia, por isso a paz é doada novamente para equilibrar a comunidade. Só é possível acolher os dons pascais estando realmente em paz. Aqui, a paz não significa alívio ou tranquilidade, mas sinal de liberdade e vida plena; é a capacidade de assumir livremente as consequências das opções feitas.

Tendo plenamente comunicado a paz como seu primeiro dom, o Ressuscitado os envia, como fora ele mesmo enviado pelo Pai: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”(v. 21b). Ao contrário de Mateus e Lucas que determinam as nações e até os confins da terra como destinos da missão (cf. Mt 28,19; Lc 24,47; At 1,8), em João isso não é determinado: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Jesus simplesmente envia. Sem diminuir a importância da missão em sua dimensão universal, o mais importante para o Quarto Evangelho é a comunidade. É essa a primeira instância da missão, porque é nessa onde estão as situações de medo, de desconfiança, de falta de entusiasmo, por isso é a primeira a necessitar da paz do Ressuscitado.

O texto mostra, como sempre, a coerência entre a prática e as palavras de Jesus: “E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo”(v. 22). Jesus tinha prometido o Espírito Santo aos discípulos na última ceia (cf. Jo 14,16.26; 15,26). Ao soprar sobre eles, a promessa é cumprida, o Espírito é comunicado. O evangelista usa o mesmo verbo empregado no relato da criação do ser humano: “O Senhor modelou o ser humano com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano tornou-se vivente”(Gn 2,7). O verbo soprar significa doação de vida. Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira. Ao receber o Espírito Santo, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. É o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro.

O Espírito Santo garante responsabilidade à comunidade, jamais poder. Por isso, devemos prestar muita atenção à afirmação de Jesus: “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos”(v. 23). Por muito tempo, esse trecho foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do Ressuscitado a todas as pessoas, de todos os lugares em todos os tempos. A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o Ressuscitado com a sua paz. Não se trata, portanto, de poder para determinar se um pecado pode ou não pode ser perdoado. É a responsabilidade da obrigatoriedade da presença cristã para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus.

O Espírito Santo, doado pelo Ressuscitado, recria e renova a humanidade. A comunidade tem a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja definitivamente tirado do mundo (cf. Jo 1,29). João, o batista, apontou para Jesus como o responsável por fazer o pecado desaparecer do mundo. Agora, é Jesus quem confia à comunidade essa responsabilidade.

Os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo. O que perdoa mesmo é o amor de Jesus; logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de amar como Ele amou. Em outras palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade.

É importante considerar ainda, como diz o próprio texto, que comunidade não estava completa naquele primeiro dia: assim como Judas não fazia mais parte do grupo, também “Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio”(v. 24). É necessário destacar algumas características desse discípulo, considerando que o mesmo foi, injustamente, rotulado negativamente pela tradição.

O motivo pelo qual os discípulos estavam reunidos à portas fechadas foi o medo; ora, se Tomé não estava com eles é porque não tinha medo e, portanto, circulava livremente e sem temor algum; era, portanto, um discípulo corajoso, ao contrário dos demais. A evidência maior da coragem de Tomé aparece no episódio da reanimação de Lázaro. Jesus já tinha sido alvo de diversas ameaças e tentativas de assassinato pelas autoridades dos judeus; quando decidiu ir à Galileia, onde ficava Betânia, Tomé foi o único a dispor-se a ir para morrer com ele: “Tomé, chamado Dídimo, disse então aos condiscípulos: Vamos também nós, para morrermos com ele!”(Jo 11,16). Por isso, ele não tinha nenhum motivo para esconder-se dos judeus. Essa sua coragem foi ofuscada pelo rótulo inadequado de incrédulo.

Quanto à fé no Ressuscitado, a diferença de Tomé para os outros dez deve-se apenas ao intervalo de uma semana. Não estava reunido no primeiro dia e não acreditou no testemunho da comunidade. Não dar credibilidade à comunidade foi, sem dúvidas, o seu grande erro, mas ao exigir evidências da ressurreição, ele agiu como os demais. Ora, à exceção do Discípulo amado, o qual viu e acreditou logo ao contemplar o sepulcro vazio (cf. Jo 20,8), os demais também só acreditaram após a manifestação do Senhor em seu meio. Nenhum deles acreditou no testemunho de Maria Madalena; esperaram o Senhor aparecer.

Quando, assim como os demais, Tomé teve certeza da ressurreição, superou a todos na intensidade e convicção da fé: “Meu Senhor e meu Deus!”(v. 28); essa é a mais profunda profissão de fé de todos os evangelhos. Jesus já tinha sido reconhecido como Mestre, como Senhor, como Messias, Filho de Davi, Filho do Homem e Filho de Deus, mas como Deus mesmo, essa foi a primeira vez. Com isso, o evangelista ensina que não importa o tempo em que alguém adere à fé; o que importa é a intensidade e a convicção dessa fé.

A propósito, chamamos a atenção para mais um detalhe que não pode passar despercebido: diz o evangelista que Tomé era chamado Dídimo, cujo significado é gêmeo. No entanto, o evangelista não apresenta o irmão gêmeo de Tomé, mas deixa no anonimato, e os personagens anônimos do Quarto Evangelho têm a função de paradigmas para a comunidade e os leitores. Isso significa um convite aos leitores e discípulos de todos os tempos a tomarem Tomé como irmão gêmeo: questionador, corajoso, atento, perspicaz e convicto.

É claro que se Tomé estivesse com a comunidade logo no primeiro dia, ele teria antecipado a sua profissão de fé. Mas é importante ser prudente e esperar, principalmente nos tempos atuais, com tantas visões, aparições e falsas certezas imediatas. Se muitos e muitas videntes dos tempos atuais, assumissem a sua consanguinidade com Tomé, ou seja, se o reconhecessem como gêmeo, teríamos um cristianismo mais evangélico e autêntico.

A bem-aventurança proclamada por Jesus: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto”(v. 28), reflete a preocupação do evangelista com as novas gerações de discípulos, após a morte da maioria dos apóstolos. Os novos cristãos da comunidade joanina eram muito questionadores e chegavam a duvidar do anúncio, exigindo provas concretas da ressurreição. Por isso, o evangelista quis responder a essa realidade, mostrando que não há necessidade de visões e aparições; basta integrar-se a uma comunidade de fé para experimentar a presença do Ressuscitado. A comunidade reunida é o lugar por excelência de manifestação do Ressuscitado. Não importa o tempo e o lugar da adesão à fé; o que importa é acolher a paz que o Ressuscitado oferece e viver animado pelo Espírito que ele transmite.

Como afirmamos no início, esse texto marca a conclusão original do Evangelho segundo João: “Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome”(vv. 30-31).  O capítulo seguinte (c. 21) é um acréscimo posterior da comunidade para responder a uma outra necessidade: o resgate da imagem de Simão Pedro, questionada pela comunidade devido à negação e outras incoerências; e também para mostrar que sempre há a possibilidade de reabilitação e admissão à comunidade, não obstante os momentos de infidelidade e incoerência. O Senhor Ressuscitado insiste incansavelmente para recuperar um amor perdido.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

O potencial subaproveitado das frutas do Vale do Açu – Joacir Rufino

O Vale do Açu é uma microrregião conhecida em todo o país pelo dinamismo de sua fruticultura irrigada. No Rio Grande do Norte (RN), segundo dados do IBGE, a área é destaque na produção de banana, manga, melancia, mamão, entre outras variedades. Além disso, frutos nativos como o umbu e a cajá vicejam nos campos. Entretanto, prevalece no presente um subaproveitamento do potencial de nossas saborosas frutas, que são majoritariamente comercializadas “in natura” sem qualquer agregação de valor e/ou são pouco valorizadas como meio para garantir a segurança alimentar e nutricional da população local. Tal situação é incompreensível do ponto de vista econômico e chega até a causar surpresa entre observadores externos.

No começo do mês passado (março/2018), por exemplo, tive a oportunidade de recepcionar uma pequena comitiva de pesquisadores de diferentes universidades do Brasil e do exterior, entre eles o professor Walter Belik da UNICAMP, os quais estão estudando as relações de trabalho no setor agrícola exportador em várias partes do mundo. Após o encerramento do nosso almoço, em um dos restaurantes da cidade de Assú, alguns dos referidos pesquisadores ficaram decepcionados com a sobremesa. Isso porque, depois de observarem a riqueza da agricultura irrigada regional, eles esperavam saborear algum doce feito a partir das frutas locais e só encontraram um punhado de sorvetes e picolés de marcas tradicionais no contexto nacional.

Na verdade, essa é uma situação que tem frustrado muita gente e não apenas os nossos visitantes ilustres. De fato, nos bares e restaurantes das cidades da região é raro encontrar no cardápio um doce típico preparado com as bananas produzidas em Ipanguaçu ou com as goiabas colhidas nos pomares localizados no Distrito Irrigado Baixo Açu (DIBA) e nas centenas de quintais produtivos familiares espalhados nas comunidades rurais da microrregião. Cabe registrar que o Vale do Açu não possui atualmente em seu território nenhuma fábrica de doce que processe e agregue valor às frutas da terra. Ao mesmo tempo, a pouco incentivo para o incremento de pequenas agroindústrias caseiras de doce ou de fabricação de polpas de frutas, que existem em localidades isoladas e poderiam ser expandidas para abastecer o mercado local e estadual.

Outra questão que incomodou uma parte da mencionada comitiva de pesquisadores foi a informação sobre o baixíssimo consumo de nossas frutas na alimentação escolar. Por incrível que pareça, a merenda das crianças na maioria das escolas do Vale do Açu não conta “de maneira regular” com frutas no cardápio. No dia-a-dia, elas não comem banana, manga, mamão, goiaba e melancia e nem bebem sucos feitos a partir da polpa de algumas dessas preciosidades citadas. Talvez haja exceção nos municípios onde o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA/Compra Direta) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) são bem operacionalizados e as compras institucionais conseguem abrir espaço para os agricultores familiares e assentados da reforma agrária escoarem sua colheita. Mas o fato é que não há uma estratégia deliberada das prefeituras ou do governo potiguar para inserir as frutas da microrregião na dieta dos estudantes, que continuam consumindo, em muitos casos, alimentos industrializados produzidos em outros estados do país.

O cenário brevemente apresentado indica, portanto, a necessidade de repensar ações e seguir novos caminhos. Naturalmente, os produtores locais têm sobrevivido vendendo sua produção para atravessadores e canais de comercialização variados, inclusive exportando. Mesmo assim, não resta dúvida de que há grandes oportunidades para a expansão do mercado local da fruticultura do Vale do Açu. Uma política bem planejada de apoio à agroindústria processadora (de micro, pequeno e médio porte), assim como a inserção permanente de nossas frutas nos cardápios de todas as escolas públicas da região, proporcionaria um poderoso incentivo à atividade. O resultado disso seria mais empregos e renda no meio rural e, o que é mais importante, a formação de uma geração de pessoas com menos problemas de saúde e com hábitos alimentares mais saudáveis do que o atual padrão baseado principalmente nos refrigerantes, nos sucos de caixinha e nos biscoitos cream-cracker.

Joacir Rufino de Aquino – Economista, professor e pesquisador da UERN.

 

 

Foto: DoDesign-s.

Autismo e desafios da inclusão – Paiva Netto

Para ampliar a conscientização de todos, alguns temas devem estar sempre em pauta. Um deles é o autismo, que atinge mais de dois milhões de brasileiros e representa 70 milhões de pessoas no mundo, cerca de 1% da população mundial, conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

O diagnóstico precoce pode fazer enorme diferença no desenvolvimento do indivíduo. Este, ainda que seja portador de limitação física ou psíquica, possui a extraordinária capacidade para se adaptar e alcançar importantes objetivos de vida. O mundo está repleto de exemplos. O que falta às vezes é o devido investimento no Capital de Deus, ou seja, na própria criatura humana

Sintomas e cuidados

Alguns autistas apresentam determinadas habilidades que superam as da média da população. “Eles têm bastante facilidade para números, decorar, resolver expressões matemáticas e para várias questões diferenciadas da vida. Mas não conseguem dar funcionalidade a isso”, explica a assistente social Simone Bruschi.

Um ponto que prejudica o acompanhamento especializado do autista é, num primeiro momento, a negação do problema, situação frequente no seio familiar. Simone, integrante da Associação Brasileira de Assistência e Desenvolvimento Social (Abads), em entrevista ao programa Sociedade Solidária, da Boa Vontade TV (Oi TV — Canal 212 — e Net Brasil/Claro TV — Canais 196 e 696), comenta: “Quando falamos do autismo, abordamos algo que não se pode identificar por exame de sangue, eletroencefalograma, tomografia. E o diagnóstico é muito difícil de ser aceito pela família. Existe a avaliação clínica — que é muito rica —, porém, os familiares sempre questionam: ‘Ah, não. Acho que pode ser algo diferente’”.

Nesses casos, de acordo com Simone, devem-se buscar outros profissionais, inclusive para que também eles se envolvam na vida dessa família, dessa criança ou desse adolescente.

É fundamental procurar um especialista ao perceber na criança qualquer indício constante de preferir ficar sozinha, de apatia diante dos brinquedos, de não reclamar por ser deixada no berço, em vez do colo dos pais. “Existem famílias que só começam a levar para o tratamento na idade escolar, quando o professor sinaliza: ‘Olha, o seu filho precisa de auxílio’. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as possibilidades de tratamento.”

Simone ressalta que “algumas pessoas com autismo podem apresentar uma deficiência intelectual, mas não é necessariamente uma regra”.

E aí entra um desafio, o de inserir no mercado de trabalho portadores de deficiência intelectual. “É mais fácil — não sei se posso usar essa expressão — contratar um jovem com deficiência física, por conta das acessibilidades existentes, do que alguém com deficiência intelectual, para o que não temos ainda a tecnologia assistiva. Por isso, é um desafio para o consultor de emprego apoiado. Ele tem de ir à empresa e provar que a pessoa com transtorno é capaz. É necessário um trabalho de sensibilização tanto com os empregados e colaboradores quanto com os empregadores e a família”.

É preciso ampliar as condições para a inclusão social dos portadores de qualquer deficiência, seja física, seja intelectual.

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

Contato: [email protected]www.boavontade.com

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o Domingo da Ressurreição (Páscoa)

O evangelho que a liturgia propõe neste Domingo de Páscoa é João 20,1-9. Ao invés de ser um relato da ressurreição, esse é na verdade um relato do “sepulcro encontrado vazio”, pois a ressurreição é indescritível. Ao contrário da paixão e da morte de Jesus, as quais são descritas minuciosamente pelos evangelhos, nenhuma descrição da ressurreição é feita, o que pode parecer estranho, considerando que é a ressurreição o evento fundante do cristianismo e, por isso, o centro da fé cristã. Foi exatamente em função da ressurreição que os evangelhos foram escritos e, mesmo assim, seus autores não conseguiram descrevê-la.

O texto que a liturgia propõe para hoje, Jo 20,1-9, é apenas a introdução daquilo que o Quarto Evangelho dedica à ressurreição, sem no entanto descrevê-la: a descoberta do sepulcro vazio, o que pode significar muita coisa ou quase nada, a depender de quem faz a constatação. Três personagens entram em cena nesse texto: Maria Madalena, Simão Pedro e o Discípulo amado. O número três já é, por si, um grande e significativo sinal; se trata de um indicativo teológico: significa uma comunidade, a qual encontra-se profundamente abalada, devido ao final trágico de seu líder, mas que vai, aos poucos, sendo recomposta, à medida em que a esperança é recuperada.

O primeiro versículo é bastante significativo, pois apresenta o verdadeiro retrato da comunidade antes de vivenciar a experiência da ressurreição: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (v. 1). O “primeiro dia” é o dia seguinte ao sábado, último dia; isso quer dizer que a comunidade ainda estava apegada à lei, cumprindo o repouso sabático. A observância da lei atrasa a experiência da ressurreição que é, na verdade, a nova criação que se instaura, por isso, a ênfase ao primeiro dia. Isso não significa que a ressurreição se deu exatamente no domingo, o primeiro dia da semana, mas foi nesse dia que a comunidade começou a despertar e a fazer a experiência de encontro com o Ressuscitado.

Após cumprir a lei do repouso sabático, em observância à lei, “Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro” (v. 1). Embora o texto de João registre apenas a ida de Maria Madalena ao sepulcro, é mais provável que tenha sido um grupo de mulheres, como consta nos evangelhos sinóticos (cf. Mt 28,1; Mc 16,1; Lc 24,1); João cita somente a Madalena para compor o número três com os dois discípulos (Pedro e o Discípulo Amado), dando uma ênfase teológica maior ao fato. Ir ao túmulo é a atitude de quem acredita que a morte triunfou, pois o túmulo é a morada dos mortos, é um depósito de cadáver. A comunidade vai ao túmulo por reverência a Jesus e para chorar a sua morte, sem nenhuma esperança na ressurreição.

O indicativo temporal “bem de madrugada” e seu complemento enfático “quando ainda estava escuro” significam muito mais que um dado cronológico; é na verdade o indício da mentalidade da comunidade naquelas circunstâncias. A ausência de Jesus e a procura pelo seu corpo na morada dos mortos reflete uma realidade de trevas na comunidade. Essa situação de trevas não se deve à ausência da luz física, mas significa que a vida não está triunfando na comunidade, ou seja, a morte está prevalecendo. Trevas é ausência de vida e de esperança.

Enquanto observa a lei, como o repouso sabático, a comunidade permanece cega e incapaz de perceber os sinais do ressuscitado. A cultura da morte está tão presente na mente dos discípulos que nem mesmo a pedra do túmulo removida é suficiente para animá-la. De fato, a remoção da pedra e a suposta ausência do corpo de Jesus causa, inicialmente, preocupação e espanto, ao invés de alegria e esperança. Por isso, Maria Madalena, certamente preocupada, correu para comunicar a Pedro e ao Discípulo Amado: “Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram” (v. 2b). Nessa fala da Madalena vem expressa a completa falência da comunidade: sentem a falta de um cadáver; querem saber onde está o corpo morto para reverenciá-lo, provavelmente com os perfumes, e chorar junto dele.

Com o aviso de Maria Madalena, também Pedro e o Discípulo Amado tomam a iniciativa de ir ao túmulo para conferir a veracidade da informação (v. 3), uma vez que a palavra da mulher não era digna de credibilidade naquela sociedade. Afirma o texto que “Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo” (v. 4), o que revela o grau de desânimo de Pedro após ter sido tão incoerente com o Mestre na fase final de sua vida: opôs-se a ele na ceia, no momento do lava-pés (cf. 13,6-8), e o negara durante o processo (cf. 18,15-27). A falta de motivação de Pedro foi, certamente, marcada pelo remorso da negação e outras incoerências, o que será recuperado quando experimentar o Ressuscitado em sua vida.

A pressa do Discípulo Amado revela sua fidelidade, testada e comprovada aos pés da cruz (cf. 19,25-27), característica da pessoa amada; somente quem fez uma autêntica e profunda experiência de amor com o Senhor é capaz de opor-se ao clima de morte reinante na comunidade, por isso, esse discípulo é anônimo; o evangelista não lhe dá um nome, mas apenas um adjetivo: amado. Os personagens anônimos no Evangelho segundo João tem a função de paradigmas para a comunidade e os leitores; assim, todo aquele que ler esse evangelho deve tornar-se um “discípulo amado” também. Ele, o Discípulo Amado chegou primeiro e comprovou que a informação da Madalena era verídica: “viu as faixas de linho no chão, mas não entrou” (v. 5).

O Discípulo Amado, embora tenha chegado primeiro, espera que Pedro também chegue e faça ele mesmo a sua experiência: “Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho no chão” (v. 6). Tendo entrado no túmulo, Pedro comprova a ausência do corpo de Jesus e, certamente, faz uma longa reflexão a respeito de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Embora a tradução litúrgica diga que ele “viu” as faixas de linho, o evangelista emprega um verbo de significado muito mais profundo: “contemplar” (em grego: teorêo), o que significa mais que simplesmente ver; desse verbo grego deriva a palavra teoria, como consequência de uma observação profunda: um olhar contemplativo, processado na mente e no coração.

Depois de Pedro, entra também o Discípulo Amado no túmulo. Tendo chegado primeiro, poderia ter entrado logo, mas preferiu esperar que Pedro chegasse e entrasse logo. Não se trata de preeminência, uma vez que na comunidade joanina não havia espaço para hierarquia, o que Jesus deixou claro no lava-pés; era na verdade uma questão de necessidade: quem, de fato, necessitava de uma experiência mais forte era Pedro, pois, depois de Judas, foi aquele que mais fracassou. Já o Discípulo Amado tinha feito uma experiência autêntica com o Senhor durante toda a sua vida, por isso, “viu e acreditou” (v. 8); não se deixou vencer pelos sinais de morte vistos dentro do túmulo, mas reforçou ali a sua fé.

Para Pedro, foi necessário um pouco mais de tempo, pelo menos algumas horas, para convencer-se de que o Senhor ressuscitou e vive. Mas, os sinais estão apontando para isso: interiormente, ele já estava “teorizando” sua fé, reconstruindo-a lentamente, uma vez que os acontecimentos do lava-pés ao julgamento de Jesus foram muito fortes e deixaram suas expectativas bastante comprometidas.

É o conhecimento da Escritura que, gradativamente, vai habilitando a comunidade a crer na ressurreição (v. 9). A fé de Pedro, de Maria Madalena e dos demais será reformulada aos poucos, a cada “primeiro dia” quando reunirem-se para a comunhão fraterna. Só crê num primeiro momento quem ama e sente-se amado, como aquele Discípulo sem nome, ao qual o evangelista quer que todos os seus leitores se assemelhem! Assim, concluímos voltando para o nosso início: a ressurreição não pode ser descrita, pode apenas ser experimentada. Para isso, é necessário fazer a experiência do amor profundo!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Morte e Ressurreição – Paiva Netto

Pelos milênios, a celebração da Semana Santa demonstra-nos o inigualável suplício vivenciado por Jesus, o Cristo Ecumênico, o Celeste Estadista, na Sua dedicação extremada em prol da Humanidade, como no drama do Getsêmani. Sendo Espírito sem mácula, o Ungido de Deus voluntariamente carregou nossos erros sobre Seus ombros, a fim de nos livrar da ignorância que origina a Dor.

Pouco antes de ser preso pelos beleguins do poder da época, de conformidade com a narrativa de Lucas (22:39 a 46), o Divino Crucificado reitera para todos nós:

Jesus no Getsêmani

“E, saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e também os Seus discípulos O seguiram. E, quando Jesus chegou àquele lugar, disse-lhes: Orai, para que não entreis em tentação! E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai, se queres, afasta de mim este cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas a Tua.

Então, Lhe apareceu um Anjo do Céu, que O confortava. E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o Seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.

“Levantando-se da oração, foi ter com os discípulos e os achou como que dormindo de tristeza. E disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos, e orai, para que não entreis em tentação”.

Jesus, o Senhor do Apocalipse, o Pão que desceu do Céu, doa a Sua própria vida

De que modo o ser humano pode manter-se acordado dignamente, perante Jesus e a Sua Política Eterna, a ponto de compreender o significado divino da Dor, que fez com que Deus O abençoasse com Poder e Autoridade? Alimentando-se do Pão que desceu do Céu, porquanto, antes da definitiva reforma social, necessário se faz realizar a do Espírito, mas com Amor, Fraternidade, Solidariedade e Generosidade. Afinal, as palavras e os exemplos do Sublime Ser, que derramou Seu sangue para o nosso resgate, constituem esse alimento eterno, consoante lemos nas Escrituras:

I — “Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Se alguém comer desse Pão, viverá eternamente” (Evangelho de Jesus, segundo João, 6:51); e

II — “(…) pelo Seu sangue [Jesus] nos libertou dos nossos pecados (Apocalipse, 1:5).

Não há Política sem Amor Solidário

Como?! É o seguinte: dizer que Jesus nos libertou dos nossos pecados significa asseverar também que o Divino Mestre nos deixou um roteiro doutrinário excelente para nossa vitória. Ao seguirmos esse Sagrado Estatuto com verdadeiro espírito de Caridade e de Justiça, nos transformaremos no esteio de nossos semelhantes na Terra. Porquanto não há pecado maior do que a ausência de Amor solidário para com os cidadãos (ou cidadãs) de cada país.

E nós ressuscitamos com Ele

Prossigamos, pois, aprendendo com Jesus que, superando os dramas do Getsêmani e do Gólgota, ressuscitou dentre os mortos para conforto e esclarecimento dos corações terrenos. E repetiremos, então, o que bradamos em 1997, no Rio de Janeiro/RJ, no dia 31 de dezembro, na passagem do ano-novo: Jesus ressuscitou, e nós, com Ele. Graças a Deus!

A morte é apenas a abertura de novas experiências de vida. Todavia, que ninguém considere o violento ato do suicídio e suas trágicas consequências como uma escolha libertadora. Tudo, até a morte, tem leis disciplinantes.

Esses e outros modestos comentários fazem parte de meu livro Jesus, a Dor e a origem de Sua Autoridade (2014), que, para meu gáudio, tem comovido muitos corações.

 

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o Domingo de Ramos

O texto evangélico que a liturgia propõe para este domingo de ramos é a versão de Marcos da narrativa da paixão e morte de Jesus: Mc 14,1 – 15,47. São dois capítulos inteiros que narram os últimos momentos de Jesus com a comunidade de discípulos, a sua condenação, o flagelo, a morte e o sepultamento. A grande extensão do texto nos impede de construir uma reflexão mais detalhada e pontual; por isso, consideraremos apenas alguns aspectos específicos do longo relato, procurando colher a mensagem global do texto.

Como sempre, consideramos essencial o conhecimento do contexto para uma compreensão adequada do texto em si. Os relatos da paixão e morte de Jesus constituem o ápice dos evangelhos. É claro que o nosso foco nesse ano é especificamente o relato de Marcos, mas muitos aspectos introdutórios valem também para os demais evangelhos. Ora, as primeiras páginas escritas dos livros que hoje conhecemos como evangelhos, foi exatamente as narrativas da paixão e morte de Jesus e, por sinal, foi Marcos o primeiro evangelho.

Como a catequese e a vida litúrgica das primeiras comunidades priorizava a ressurreição, logo muitas dúvidas surgiram a respeito, tipo: como viveu e como morreu aquele que ressuscitou? A primeira necessidade, então, diante de tais questionamentos, foi contar como se deu a morte de Jesus, até porque as comunidades começavam a sofrer perseguições tanto da parte do poder político romano quanto da religião judaica. Inclusive a morte começava a se tornar uma realidade também para aqueles que insistiam em anunciar o Cristo Ressuscitado. Para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez difícil acreditar no seu nome. Para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada melhor que reconstruir a memória da perseguição e morte de Jesus, priorizando sua fidelidade aos propósitos do Pai e sua resistência. Os evangelhos surgem, portanto, como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades.

É claro que toda a vida de Jesus, desde o início com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Embora seja o mais breve e sóbrio, o relato da paixão em Marcos pode ser considerado, paradoxalmente, o mais completo dos quatro. Não se trata de um anexo do Evangelho, como alguns consideram, mas de uma conclusão preciosa de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a vida de Jesus foi uma alternativa a todos os sistemas vigentes, político e religioso. Logo, seu desfecho final foi o rechaço da parte desses sistemas.

Durante toda a sua trajetória terrena Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não aceitavam: o amor ao próximo, a justiça, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces. É importante perceber que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi opção nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema.

Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, nem um religioso fiel. Foi nessa perspectiva que Marcos construiu o seu relato da paixão e morte de Jesus, evidenciado, melhor que qualquer outro evangelista, a humanidade de Jesus e o fracasso de uma comunidade quando não persevera ao lado do mestre, mesmo no sofrimento. Dito isto, procuremos destacar alguns elementos pontuais do texto, considerados essenciais.

Um primeiro aspecto que destacamos, por sinal negativo, é a dispersão da comunidade: “Então todos o abandonaram e fugiram” (14,50). Os discípulos, também sedentos por mudanças, sentem-se frustrados à medida em que percebem que o projeto de Jesus não corresponde às suas expectativas. No início do evangelho, Marcos tinha afirmado que, diante do chamado de Jesus ao seguimento, “os discípulos abandonaram tudo e seguiram Jesus” (1,18.20). Agora, é a Jesus que eles abandonam. Judas tinha acabado entregá-lo, Jesus está sendo preso, e os discípulos lhe faltam com a mínima solidariedade. O mais resistente, o último a fugir, é um jovem anônimo (cf. 14,51-52) que não fazia parte do seleto grupo dos doze. A fuga dos discípulos é sinônimo de medo e covardia, mas também de decepção com o pretenso messias.

Além da traição de Judas e da fuga dos demais, outros aspectos negativos dos discípulos também são evidenciados por Marcos. Tendo já denunciado a falta de perseverança na oração (cf. 14,32-42), o evangelista denuncia também a superficialidade no seguimento: “Pedro seguiu Jesus de longe” (14,54a). Seguir de longe é não comprometer-se. Embora os demais nem de longe estivessem mais seguindo, não é admissível na comunidade um discipulado superficial. Quem segue de longe não suporta a pressão nem a perseguição, por isso está fadado à renegação, como de fato aconteceu com Pedro: “Nem conheço esse homem de quem estais falando” (14,71b). O evangelista deixa claro, com isso, que não pretende denunciar com seu relato somente as forças externas que perseguem a comunidade; também de dentro da comunidade podem surgir muitas forças tão danosas ao seu crescimento quanto os poderes externos.

O duplo julgamento de Jesus, um político e outro religioso, ou seja, diante do sinédrio e de Pilatos (cf. 14,53-65; 15,1-15), mostra a união das forças hostis, pois judeus e romanos não se suportavam, quando tem um inimigo em comum. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, o acusa de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei (15,2). Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável.

A cruz é decretada como pena exemplar para Jesus. Em plena páscoa, sua festa máxima, a religião judaica não hesita em condenar quem lhe ameaça. Não obstante tanto sofrimento, Jesus manteve-se firme em seus propósitos e na confiança no Pai. Não hesitou, mesmo não escondendo sua humanidade. Gritou de dor, lamentou-se, mas não abriu mão de suas convicções. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia ser escondido.

A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, nele, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Na cruz ele foi escarnecido e humilhado, mas também reconhecido em sua mais profunda identidade: “Na verdade, este homem era Filho de Deus!” (15,9c). Surpreende que essa declaração não saiu de nenhum discípulo, mas de um soldado romano. Isso é significativo em dois aspectos, principalmente: primeiro, porque é na morte de cruz que a identidade de Jesus é plenamente revelada; segundo, porque daquele momento em diante, todos, independentemente da etnia e da religião, podem conhecer o rosto verdadeiro de Deus revelado no seu filho amado.

O reconhecimento do centurião é mencionado após o evangelista dizer que “a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes” (15,38). Esse dado simbólico significa a falência completa da religião que tinha acabado de matar Jesus. A cortina ou véu do santuário marcava a divisória do espaço sagrado do templo. Jesus, mesmo morrendo, mostra sua força; consegue abolir as divisões e rótulos impostos pela religião. De agora em diante, conhece a Deus quem segue o seu filho até as últimas consequências, quem vê na cruz instrumento de libertação e não mais quem frequenta o templo e pratica a lei.

A comunidade de Marcos foi edificada e fortalecida a partir deste relato. Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. A presença do Ressuscitado se tornou certeza na comunidade porque percebeu-se que Deus não abandona jamais um projeto quando esse é conduzido pelo amor. Também as comunidades de hoje são chamadas a fazer experiência semelhante àquela de Marcos: perseverar com os crucificados de hoje, todos os que lutam por um mundo de justiça, igualdade e amor, para que o Ressuscitado de ontem continue a ressuscitar em cada coração hoje e sempre.

Roma, 25/03/2018, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

80 reféns de um ato arbitrário – Wilson Bezerra de Moura

A cidade de Mossoró, empregados ou não da UERN, vinha numa expectativa muito grande com a ameaça de demissão de oitenta funcionários que trabalhavam na Uern com dedicação integral no cumprimento de seus deveres.

Pais ou mães de família, irmãos e irmãs, sobrinhos ou tios de alguém, já pelo tempo de serviços prestados, a maioria com 25 anos, com uma vida adaptada às normas e princípios naturais de sobrevivência, ou melhor, dizendo, estabelecidos na comunidade como agente participativo de seu desenvolvimento, isto é, trabalhando   honestamente para sustentar seus familiares, que este sim, é um dever constitucional.

Que tenham entrado para trabalhar através de um ato ilícito, até que pode acontecer, embora esse tal ato ilícito não tenha sua responsabilidade, pois nesse caso quem responde perante a justiça por tal irregularidade é, por direito, a repartição, que os admitiu e deixou como empregado durante pouco mais de vinte anos, quando estas pessoas passaram a ter uma vida arrumada, e de sua família, perante a sociedade.

Segundo um princípio de uma Lei, salvo engano da década de 50, não sei se ainda está em vigor, se não me foge a memória, que hipoteca o direito adquirido exatamente por qualquer ato ilícito dessa natureza, erro da repartição, não penalizando um servidor que durante mais de vinte anos presta serviços a uma repartição que lhe admitiu como empregado e o manteve à sua disposição por todo um tempo, até se construir uma raiz de vida própria e de sua família.

A lei, quando aplicada fora de uma época correta e legítima em favor de sua preservação, se torna ineficaz e arbitrária quando transforma a sua aplicação em  consequências de ordem social, política e econômica na sociedade.

Já pensou esses oitenta desempregados sem condições de arranjar trabalho, muito menos recursos para sobreviver, não tivessem boa índole pessoal, iriam, com quase certeza, procurar qualquer um desses grupos de assaltantes, a eles unidos, olhe lá que seria mais um bando para efervescer a sociedade quanto à segurança que todos almejam.

Para corrigir, embora tardiamente, o erro cometido pela repartição, no caso a UERN e o Governo, teria que se procurar uma alternativa onde a lei fosse cumprida sem trazer constrangimento de ordem social para muitas famílias que terão, de agora por diante, de dar uma explicação aos filhos e parentes sobre o por que da mudança do comportamento de vida.

A Justiça, para ser justa, tem que preservar os valores humanos de toda e qualquer natureza.

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o V Domingo da Quaresma

Neste quinto domingo da quaresma, a liturgia propõe novamente um texto do Quarto Evangelho: João,12,20-33. Se trata de um trecho bastante longo, o que nos impede de comentá-lo versículo por versículo, além de muito rico e complexo, tanto do ponto de vista teológico quanto literário. Procuraremos, em nossa reflexão, colher a mensagem central, destacando alguns versículos específicos, após uma indispensável contextualização.

O nosso texto está inserido em uma posição privilegiada do Quarto Evangelho: entre o final da vida pública de Jesus e o início da narrativa da sua paixão, ou seja, entre o “livro dos sinais” e o “livro da glória” como os estudiosos costumam dividir o Evangelho segundo João. O importante é que se trata de um episódio de transição entre as duas fases da vida de Jesus.

Junto com seus discípulos, Jesus já se encontra em Jerusalém para participar de mais uma “páscoa dos judeus” (cf. 11,55), a última. Como sabemos, com a expressão “páscoa dos judeus” o evangelista denuncia que aquela festa já não pertencia mais a Deus, uma vez que, ao invés de ser celebração de libertação, transformou-se em instrumento de exploração, com o templo sendo transformado em “casa de comércio” (cf. Jo 2,13-22). É importante perceber a relação entre o evangelho de hoje com aquele da denúncia dos vendedores no templo, refletido no terceiro domingo.

Ao denunciar a mercantilização de Deus, Jesus propôs a destruição do templo-edifício de pedras e se auto-apresentou como o novo, verdadeiro e definitivo templo, decretando a completa falência da instituição religiosa judaica. Do primeiro versículo do evangelho de hoje, percebemos o início da realização daquela proposta profética: “Havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa” (v. 20). Com a expressão “alguns gregos” o evangelista se refere  aos prosélitos ou simpatizantes do judaísmo, mas de origem não judaica, os estrangeiros; participavam da vida religiosa judaica, observavam a lei e sentiam-se atraídos pelo Deus de Israel, por isso iam a Jerusalém para adorá-lo, mesmo não sendo admitidos oficialmente na religião.

Com o templo transformado em casa de comércio, a adoração a Deus tinha se tornado algo impossível naquela estrutura. Por isso, os gregos “Aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e disseram: ‘Senhor, gostaríamos de ver Jesus’” (v. 21). O desejo dos gregos de ver Jesus significa que a religião do templo já não favorecia mais o encontro das pessoas com Deus. Ver, aqui, significa conhecer, contemplar, ver em profundidade. Os gregos não queriam conhecer os traços físicos de Jesus, mas fazer uma experiência de vida com ele. Os pagãos são os primeiros a reconhecer Jesus como o templo verdadeiro, antes mesmo da destruição do edifício (cf. Jo 2,19-22); esse é um dado de grande importância. Além da falência da instituição religiosa, o evangelista apresenta, ao mesmo tempo, o alcance universal da mensagem de Jesus: não estando preso a uma estrutura fixa e rígida, ele se torna acessível as pessoas de todos os povos e culturas.

Os gregos que queriam ver Jesus procuraram um discípulo, Filipe, esse por sua vez, procurou outro discípulo: “Filipe combinou com André, e os dois foram falar com Jesus” (v. 22). O evangelista não está “burocratizando” Jesus, mas enfatizando o papel essencial da comunidade cristã de favorecer o encontro com o Senhor. É na comunidade que se conhece e se faz verdadeiramente encontro com Jesus. E quem já o conheceu, obviamente, não mede esforços para que outras pessoas também o conheçam. Na comunidade, todos devem ser acolhidos, independente da origem, das características ou da identidade; a comunidade cristã não pode negar a ninguém o direito de encontrar-se com Jesus.

A princípio, a resposta de Jesus aos discípulos que lhe levaram o pleito dos gregos parece não atender às expectativas: “Jesus respondeu-lhes: ‘Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado” (v. 23). Porém, não só atende, como vai além: a glorificação de Jesus é o alcance universal da sua mensagem, até então muito concentrada e destinada a um pequeno grupo. A “chegada da hora” é um tema central do Evangelho segundo João; tudo o que Jesus vivenciou até então, foi preparação para a sua “hora”: hora de entregar-se definitivamente, mas sobretudo, hora de demonstrar que os sistemas vigentes, político e religioso, não toleram que alguém viva somente para o amor! Foi por causa do seu excesso de amor que lhe levaram para o tribunal e, em seguida, para a cruz. Essa glorificação não significa uma entronização ou coroamento; é a explosão do amor que se torna acessível a todos, sendo capaz de contagiar o mundo inteiro. Esse amor não pode mais ser contido, será revelado plenamente e todos poderão acolhê-lo: gregos e judeus, bons e maus, justos e pecadores.

Como uma declaração solene, e fazendo uso da imagem do grão de trigo, Jesus anuncia sua morte e, ao mesmo tempo, o seu efeito: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto” (v. 24). “Em verdade, em verdade” é uma expressão que sempre introduz um ensinamento solene e irrenunciável; significa a importância do que está sendo proclamado. A entrega, a capacidade de morrer por amor é irrenunciável para a comunidade cristã. Não se trata de uma simples entrega passiva, mas é a coragem de lutar pela vida até as últimas consequências; essa luta não pode ser feita, senão movida pelo amor. Uma morte assim será sempre sinal de vida e de frutos abundantes, à semelhança do grão de trigo enterrado no chão.

Recordando que todo esse discurso faz parte de uma resposta ou apresentação de Jesus aos gregos que queriam vê-lo, podemos perceber a preocupação do evangelista com a sua comunidade e com as comunidades de todos tempos: ver ou conhecer Jesus é envolver-se com o seu projeto de vida. E esse projeto exige renúncias, decisões e tomadas de posição. A primeira e decisiva posição diz respeito à própria vida! Para seguir Jesus é necessário compreender e aceitar que o sentido da vida está na capacidade de doá-la por amor, torná-la fecunda, como ele mesmo diz: “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna” (v. 25). Jesus não está convidando seus seguidores a menosprezarem suas vidas ou suas existências terrenas; pede que lhe dêem sentido; esse sentido passa pela capacidade de não apegar-se tanto a ela, para que dela outras vidas também venham a ter sentido.

O convite ao seguimento é reforçado: “Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará” (v. 26). Muitos querem ver Jesus ou receber explicações a seu respeito. Mas o próprio Jesus deixa claro que ele é inexplicável; para conhecê-lo e servi-lo é indispensável o seu seguimento. É importante essa responsabilidade: deve haver uma simbiose entre a comunidade e Jesus. Aqui o evangelista faz uma advertência muito séria: a comunidade tem a missão de, onde ela estiver, tornar presente Jesus e o Pai. Isso só é possível onde o servir e o seguir são de fato prioridades, tendo o amor por motivação.

Como o nosso texto antecede de imediato a narrativa da paixão, é muito oportuno que o evangelista ressalte a humanidade de Jesus: “Agora sinto-me angustiado! E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora!’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim” (v. 27). Dar a própria vida custa dor e sangue. Porém, mais forte que a dor e angústia foi a confiança no Pai e a certeza de que, daquele amor transbordante, muitas vidas novas surgiriam, muitos frutos brotariam. Foi de fato, para “esta hora” que ele veio; não para morrer tragicamente como aconteceu, mas para testemunhar o amor até as últimas consequências. Como o(s) príncipe(s) deste mundo (cf. v. 31) não o suportaram a irradiação do seu amor em demasia, eis que a “hora” se transformou em dor. O(s) príncipe(s) deste mundo: todas as forças de morte, toda oposição ao amor e à justiça; tudo o que se opõe ao Reino de Deus. Porém, o Pai deu a resposta definitiva: na mesma cruz em que morreu um corpo, dela irradiou-se amor como nunca antes visto.

No momento da angústia, a esperança e a confiança no Pai são reforçados: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (v. 32). É claro que “ser elevado” diz respeito à crucifixão; àquela hora, já estava clara qual seria a sua pena: a cruz, como era para quem ousava desmascarar o sistema da época, comandado pelo(s) príncipe(s) deste mundo, na época os chefes religiosos e políticos, hoje em dia com muitas outras formas de expressão. Jesus sabia que o seu elevar-se na cruz seria tão frutífero quanto o enterrar um grão de trigo no chão: sementes haveriam de germinar; sementes de amor, justiça, solidariedade, inconformismo e fé.

Não obstante a dor e angústia, assim como Jesus, o cristão é convidado a crer que o sangue derramado por amor faz germinar; o amor tem uma força de atração indescritível. Como comunidade cristã, somos convidados a tornar Jesus conhecido e acessível através do nosso modo de viver, pelas nossas atitudes e pelo amor partilhamos. Só vê Jesus quem o segue e vive verdadeiramente o mandamento do amor.

Roma, 18/03/2018, Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues