UMA POTIGUAR ILUMINADA

Nilo Emerenciano - Arquiteto e escritor

Ali, onde a Avenida Rio Branco começa a sua descida em direção ao bairro da Ribeira, havia uma casa com uma placa de metal fixada na fachada que indicava ter sido a residência de Auta de Souza. Eu era garoto e fiquei curioso por saber quem havia sido a pessoa a merecer tal registro. Meu pai me falou um pouco, esclarecendo que era uma poetisa que havia morrido muito jovem e que havia deixado um livro de extrema beleza chamado Horto. Além disso, para exemplificar, cantarolou versos de uma modinha que nunca esqueci: “O céu parece uma igrejinha antiga/que a lua branca vai alumiando/e essas estrelas muito além dispersas/são rosas brancas no infinito imersas/monjas benditas ao luar chorando”. Essa descrição do céu como uma igrejinha antiga e monjas chorando ao luar calaram fundo em meu coração de garoto.

Em minhas andanças pela biblioteca pública da cidade, consegui, enfim, ter o livro em mãos. E foi um deslumbre. Tanto pela vida dramática da poetisa, contada na apresentação, como pela beleza trágica dos seus versos. Além disso, impressionou-me a carga mística e a fé religiosa que a jovem descrevia em seus poemas. Fiquei a imaginar a jovem solitária no seu quarto, sentindo a presença de anjos e a aproximação da morte, a escrever aquelas páginas como quem registra um doloroso diário. Além disso, a sua foto me revelou uma pessoa de aspecto frágil, porém de olhar firme e boca decidida.

Auta de Souza perdeu o pai e a mãe muito cedo, antes dos quatro anos de idade, e logo depois o seu irmão mais novo, Irineu, também teve uma morte trágica, queimado pela explosão de um candeeiro. Como se dor pouca fosse bobagem ela se descobre tuberculosa e com prognóstico de uma existência breve além de limitada pela doença. E aí sua vida se torna uma constante romaria, sempre mudando de morada em busca de melhores ares para a sua saúde combalida. A literatura, então, passa a ser confidência, preces, ligação com Deus e a Mãe de Jesus, manifestação de fé e esperança. E pouco antes de morrer escreve como quem conclui um inventário da própria vida:

Lá vai a pomba voando

Livre, através dos espaços…

Sacode as asas cantando:

“Quebrei meus laços!”

Aqui, n’amplidão liberta,

Quem pode deter-me os passos?

Deixei a prisão deserta,

“Quebrei meus laços!”

Jesus, este voo infindo,

Há de amparar-me nos braços,

Enquanto eu direi sorrindo:

“Quebrei meus laços!”.

Nos seus momentos finais, solicitou a presença do vigário que é até hoje amado e respeitado por todos os potiguares, o Padre João Maria, anjo da cidade. Que belo encontro de almas igualmente cândidas!

Mas não acaba aí. Alguns anos depois de desencarnada, Auta de Souza volta a escrever belas páginas, agora em espírito e através da sensibilidade do médium mineiro Francisco Cândido Xavier. Sua produção aparece no livro “Parnaso de Além Túmulo”, de 1932, junto a muitos outros poetas ditos mortos, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Guerra Junqueira, Cassimiro de Abreu, Raimundo Correia. Em dezesseis poemas, a potiguar retoma os temas de sua obra, renovados por um sopro de alegria:

“Adeus, Terra das minhas desventuras”…

“Adeus, amados meus…” – diz nas alturas,

A alma liberta, o azul do céu singrando…

– Adeus… – choram as rosas desfolhadas,

– Adeus… – clamam as vozes desoladas

“De quem ficou no exílio soluçando…”.

Chico Xavier descreveria seu primeiro encontro com a nossa poetisa quando perguntado se teria especial lembrança de algum poema: “Recordo-me de um soneto intitulado “Nossa Senhora da Amargura” (…). Eu estava em oração, certa noite, quando se aproximou de mim, o espírito de uma jovem, irradiando intensa luz. Pediu papel e lápis e escreveu o soneto a que me referi. Chorou tanto ao escrevê-lo que eu também comecei a chorar de emoção, sem saber, naquele momento, se meus olhos eram os dela ou se os olhos dela eram os meus. Mais tarde, soube, por nosso caro Emmanuel, que se tratava de Auta de Souza, a admirável poetisa do Rio Grande do Norte”.

Em 1976, ainda psicografados por Chico Xavier, a poetisa teria 83 poemas de sua produção póstuma reunidos em livro intitulado simplesmente “Auta de Souza”. “São poemas de amor e de beleza, de espiritualidade e de esperança, em mundividência mais ampla, porque nascidos nas mais extensas dimensões da Eternidade”, declara Clovis Tavares no prefácio.

A cantora Glorinha de Oliveira, recentemente falecida, gravou em CD alguns de seus poemas sob forma de modinhas que eram cantadas em serestas e preservadas pela tradição oral. Assim também, a professora Ana Laudelina, da UFRN, realizou em 2008 um belo documentário sobre a sua vida, “Noite Auta, Céu Risonho”.  O pesquisador e músico Carlos Santa Rosa, por sua vez, musicou e gravou em um CD chamado Presença do Amor, onze sonetos da chamada produção psicográfica de Auta de Souza.

É pouco. Muito mais poderia ser feito.   Deveria haver uma ação mais efetiva dos nossos gestores, no sentido de promoverem concursos literários, adoção do “Horto” nas escolas, eventos de todo tipo, principalmente em tempos de “empoderamento” feminino. Que tal, por exemplo, a implantação de um memorial na casa onde ela nasceu em Macaíba? Acho que é mais do que merecido. Afinal, não é a toa que Olavo Bilac, o nosso maior poeta à época, prefaciou seu livro. E também não foi a toa que Câmara Cascudo afirmou: “É a maior poetisa mística do Brasil”.

Quanto ao poema a que Chico Xavier se referiu, “Senhora da Amargura”, segue para nós todos, como amostra da grandeza da eterna Cotovia do Horto, pois como nos fala Clóvis Tavares: “Auta aqui está, pelo pensamento e pelo coração. Mais viva que outrora, quando peregrinava, entre saudades e lágrimas, pelos áridos caminhos do Agreste e do Sertão de sua terra natal…”.

Mãe das Dores, Senhora da Amargura,
Eu vos contemplo o peito lacerado
Pelas mágoas do filho muito amado,
Nas estradas da vida ingrata e dura.

Existe em vosso olhar tanta ternura,
Tanto afeto e amor divinizado,
Que do vosso semblante torturado
Irradia-se a luz formosa e pura;

Luz que ilumina a senda mais trevosa,
Excelsa luz, sublime e esplendorosa
Que clareia e conduz, ampara e guia.

Senhora, vossas lágrimas tão belas
Assemelham-se a fúlgidas estrelas:
Gotas de luz nas trevas da agonia.

Sei que é um poema e não uma prece, mas me sinto inclinado a concluir dizendo amém.

NATAL/RN