Um estado desconhecido e feito por desconhecidos

 

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Cassiano Arruda Câmara – Tribuna do Norte – 21/06/20

Por qualquer critério que se use para dimensionar os maiores empresários do Rio Grande do Norte, não existem dúvidas que Nevaldo Rocha, há pouco falecido, foi o maior de todos eles.
1 – Foi o mais rico, US$ 2 bilhões, segundo a revista Forbes;
2 – O que ofereceu maior número de empregos; 40 mil atualmente;
3 – Maior presença nacional, com 323 lojas em todos os Estados brasileiros.
Acompanhando os diferentes ciclos econômicos do RN (pastoreio, sal, minério, algodão, turismo) não houve empresa ou empresário que tenha conseguido reunir as posições conquistadas por Nevaldo Rocha.
E sem ter recebido qualquer tipo de herança.
Certamente que não estou propondo a realização de um campeonato de empresários bem sucedidos…
Mas, acho que a minha obrigação é tentar oferecer aos seus contemporâneos, elementos capazes de mostrar a dimensão alcançada e o que temos de fazer para que o seu nome – e seu exemplo – não desapareçam, por algum fato que venha a acontecer depois de sua morte, aos 91 anos, faltando pouco mais de 30 dias para completar 92, como o que estamos relatando.
Isso num Estado que tem como característica não cultuar a memória dos seus filhos. E onde se diz que tem gente disposta a gastar 200 para o vizinho não ganhar 20.
No ramo empresarial, hoje em dia, quem conhece João Câmara? E Tertuliano Fernandes? Jovino Barreto? Tomaz Salustino? – Nomes que, possivelmente conseguiram, no seu tempo, ultrapassar de alguma forma as nossas fronteiras.
ORGULHO DE SER POTIGUAR
E o problema não é, apenas, com os nossos empreendedores e empresários. O desinteresse do norte-rio-grandense pelos seus conterrâneos, é amplo, geral e irrestrito.
Começa na política, onde o conhecimento resiste ao tempo exato em que se faz lembrar em cima do palanque.
Mesmo com o funcionamento da universidade, pouco tem mudado esse panorama, até pela inexistência de qualquer estímulo para estudantes e pesquisadores estudarem o RN ou seus filhos.
E essa ignorância pode ser constatada na própria universidade, no geral, que tem importantes áreas do seu comando entregue a migrantes (muito bem vindos), mas que não podem manter a falta de conhecimento da terra ou da gente, e que não tem sido estimulados, até pela falta de um programa governamental que exerça esse papel, a se interessar pelo tema. Sem falar na nossa pobreza bibliográfica.
Forma-se um ciclo vicioso, os norte-rio-grandenses não são conhecidos pela falta de matéria capaz de se tornar fonte, e não tem fonte porque não são conhecidos.

LEGADO A SER PRESERVADO

Existe algum projeto para estimular os estudantes – de qualquer nível – a procurarem conhecer os grandes vultos estaduais?
Porque não aproveitar o momento de crise vivido, e se faz alguma coisa para começar preservando a vida e obra de Nevaldo Rocha. No caso, quem sabe as próprias empresas que ele criou demonstrem algum interesse e venham a patrocinar algum desses projetos
Nessa hora o importante é começar. Nevaldo Rocha encerrou sua missão, nas vésperas de uma batalha decisiva, quando todo o sistema produtivo construído ao longo de cinco séculos, depois da maior pandemia da história, vai precisar renascer, renovar, se reinventar. O que vai exigir algo mais além da presença de líderes, em cada empresa, independente do seu porte.
Esses líderes vão precisar, também, de exemplos.
O exemplo do maior empresário da história do Rio Grande do Norte, foi exposto num recado aos seus netos. Ele próprio resumiu em apenas cinco palavras o êxito do seu exemplo:
1 – Honestidade;
2 – Simplicidade;
3 – Foco;
4 – Transparência; e
5 – Meritocracia.
Vale a antiga lição comum a todos os povos que precisam conhecer e preservar o legado que tiveram e se repete num lugar comum: – Um povo que não tem história também não tem futuro.
História que precisa ser preservada quando está acontecendo. Como tivemos a ventura de testemunhá-la ao vivo.

Território Livre

21.06.20

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