Tomislav R. Femenick: Torcápio queria uma guerra

Em fins de janeiro de 1904, a divisa entre o Rio Grande do Norte e o Ceará era contestada pelos cearenses. A linha divisória era marcada pela barra do rio Mossoró, e ali se posicionaram tropas do Rio Grande do Norte. O governo do Ceará reagiu e nomeou um Tenente-coronel do Exército, Salustiano Padilha, para expulsar as tropas potiguares. No dia cinco de março, um contingente cearense, composto de 250 homens, tomou posição em Aracati, a oitenta quilômetros da zona disputada.
José Torcápio Salustiano de Albuquerque Padilha foi criado por um tio, que tinha sido voluntário da pátria na guerra do Paraguai. Quando dos problemas fronteiriços do Brasil com a Bolívia, na chamada questão do Acre, ele externou o desejo de “oferecer sua vida em holocausto pela pátria”. O tratado de Petrópolis de 1903, que resolveu a questão, frustrou seus sonhos de glória nos campos de batalha. Decepcionado, voltou para o Ceará e adotou outros inimigos: os norte-rio-grandenses. Torcápio tinha a “sua” guerra.
Os cearenses se deslocaram de Aracati até Grossos, aonde chegaram em 11 de março e ali estabeleceram seu quartel-general, porém não encontraram as forças potiguares, que tinham feito um recuo tático, cruzando a barra do rio Mossoró, para se reagruparem em Areia Branca. O comandante da expedição planejou atravessar de barcos a barra do rio e invadir a cidade de Areia Branca. Entretanto, alguns dos seus oficiais se anteciparam; cruzaram o rio, entenderam-se com as tropas opostas e telegrafaram ao Presidente da Província do Ceará, recebendo deste a ordem para evitar a invasão do Rio Grande do Norte (que eles já haviam invadido quando entraram em Grossos). Todavia, o Tenente-coronel Salustiano se negou a cumprir a ordem do seu governador e, às sete horas do dia 12 de março, com apenas poucos homens, fez a travessia do rio e ficou esperando pelos outros, que nunca chegaram. Sem apoio, teve que se retirar.
O Presidente da República interveio na questão e mandou que as tropas de ambos os lados recuassem para suas bases. A primeira tentativa de solução pacífica da disputa da região contestada deu-se via arbitragem. A decisão foi favorável ao Ceará. Nos Tribunais, o Rio Grande do Norte ganhou em três ocasiões diferentes: 30 de setembro de 1908; 02 de janeiro de 1915 e 17 de julho de 1920.
O problema ainda teve um outro desdobramento. Quando Aluísio Alves era governador, o Estado do Rio Grande do Norte fez a doação de glebas de terras devolutas aos antigos posseiros, expedindo o documento de posse e editando ato que autorizava que os beneficiados pudessem contrair empréstimos com bancos oficiais. Essa medida favoreceu os habitantes da região, dando-lhes possibilidades de melhorar seu nível de vida.
Em outubro de 1967, vários proprietários de terras de Baraúnas, então distrito do Município de Mossoró, foram vítimas de arbitrariedades por parte de supostos donos de suas terras: foram presos pela polícia cearense e levados para a cidade de Russas, onde um cidadão de nome José Louredo se declarou dono de toda a área doada pelo Governo do Rio Grande do Norte, além do mais sob a alegação de que todas aquelas terras fazem parte do estado do Ceará. Os proprietários se viram forçados a abandonar suas glebas e benfeitorias nelas existentes.
Tomislav R. Femenick
Historiador, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte ([IHGRN)
Publicado na Tribuna do Norte
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