Muitos judeus acendem a chanukiá, o candelabro da festa de Chanucá, de forma crescente: no primeiro dia, apenas uma vela. No segundo, duas, e assim por diante, até a oitava noite.
Mas, como quase tudo entre judeus, não há consenso sobre a forma de acender o candelabro. Contam as fontes judaicas que havia um debate entre dois grande sábios judeus, Hillel e Shammai, sobre o método adequado. A forma mais comum, com uma vela a mais a cada dia, era defendida por Hillel.
Shammai argumentava que a forma de acender as velas deveria ser decrescente. No primeiro dia, a chanukiá tem oito velas e, a cada dia, há uma a menos.
Hoje, quando chega a época de Chanucá, há famílias judias que optam por acender dois candelabros, uma da forma de Hillel, outra da forma de Shammai. É uma maneira de representar a diversidade que há dentro do povo judeu.
Nos dias atuais, em meio à polarização e à intolerância, celebrar a diversidade é, sem dúvida, uma forma de resistência – palavra que está na essência de Chanucá.
Conhecida como a festa das luzes, essa data relembra a história de quando, no século II AEC, sob domínio helenista, os judeus foram impedidos de professar a própria fé. Sob a liderança dos Macabeus, o povo judeu resistiu e conseguiu recuperar Jerusalém e libertar o Grande Templo. A festa simboliza a vitória sobre a opressão.
Em um ano tão desafiador quanto 2024, é muito necessário falar sobre as luzes que devem iluminar nosso caminho. Mas, em um momento em que o cansaço e a inércia tendem a prevalecer, evocamos a resistência dos Macabeus como forma de inspiração.
A princípio, a ideia de “resistir”, quando olhada no sentido físico, remete a ficar parado, não aceitando a ação de outro corpo, que resultaria em movimento. Mas, na existência diária de cada um, resistir é também mostrar-se convicto dos próprios valores, em vez de simplesmente ser levado pela maré. Resistir é não ceder, nem sucumbir.
O filósofo Michel Foucault diz que “a partir do momento em que há uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência”. Aqui, é claro, resistir não é ficar parado, mas impedir que haja um movimento em função do outro, e não de si mesmo.
“Chanucá carrega a ideia inicial da resistência da identidade judaica. De lutar pelos meus valores, mesmo sabendo que a cultura dominante me puxa para um outro lado – no caso, a cultura helenizada, que proibia ler a Torá, comer kasher, fazer brit-milá. E a nossa luta era para manter a nossa identidade”, explica o rabino Uri Lam, da Congregação Israelita Beth-El, em entrevista à jornalista Leila Sterenberg.
“Esse é o elemento mais tradicional. Mas, agora, Chanucá pode trazer outros aspectos de resistência, como a resistência a manter uma sociedade democrática, uma sociedade que celebra a diversidade. Tanto o judaísmo quanto o cristianismo pregam a ideia de ‘ame ao próximo como a ti mesmo’, mas é preciso amar o outro ainda que ele seja diferente de você mesmo”, afirma.
Que neste Chanucá sejamos inspirados pelos Macabeus a resistir e sempre lutarmos pelo que acreditamos.