PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CLXXXVIII)

Clauder Arcanjo*

 

(Pintura “São Sebastião” (1960), de Guignard)

 

Diário da Quarentena V

 

Dava gosto ouvir suas reclamações contra o mau jeito da lua:

— Te apresenta mais plena, ó dadivosa!

E os bêbados, plenos de tristeza e de esperança, ecoavam com ele:

— Muito bem, seu Dalmir. Chame ela aos costumes, exija-lhe o brilho de lua cheia!

E ele caprichava ainda mais nos rezingues, ciceroneado pelo brilho tímido das estrelas.

 

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Desceu da montaria com ares de singeleza; mas quando ela deu seus primeiros passos na terra batizada pelo sereno da madrugada, todos concluíram: estavam diante de uma princesa.

E foi tanto cavaleiro jogando ao chão seu gibão de couro que, disseram os mais atentos, ela nunca mais colocaria seus lindos pés no solo.

Uma dama, ao pisar nas vestes de um cabra do sertão, faz dele eterno escravo.

 

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Adorava saber das desgraças dos outros. Há mancos que oram para a quebra das pernas alheias.

 

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Nobre é aquele que labora na simplicidade, constrói no terreno da singeleza e oferta tudo aos ávidos por elogios.

 

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— Que venham novos dogmas! — clamou às divindades o pretenso patriarca da província.

A assistência, cansada de tantas restrições, aguardava o silêncio dos céus.

Quando anunciaram a morte do velho patriarca, uma chuva de hosanas invadiu a noite da pequena vila.

 

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“Risada para defunto é choro” — filosofavam, entre uma pinga e outra, os risonhos pinguços no velório da velha carpideira.

 

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Quando a pressa impera, todo vagabundo se apresenta como veloz maratonista.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.