Pílulas para o Silêncio (PARTE CLXXXV)

Clauder Arcanjo*

(Pintura sem título (1964), de Chico da Silva)

 

Diário da Quarentena II

 

Para a escritora Lilia Souza

 

O bem-te-vi cantava, enquanto ela escandia versos com seus dedos gentis.

A alvorada se apresentava tímida nos céus da cidade. Nas esquinas, os homens pastoravam o tempo, com receio do tráfego ter perdido os ponteiros na noite fria.

De repente um deles se deu conta do cântico mavioso. Imaginavam que houvesse saído do bico de um pássaro, mas era a sinfonia da poetisa, intercalada, de vez em quando, com o soprano que bem te viu, Lilia.

E o dia amanheceu, menos cinza que de costume.

 

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Na cumeeira do dia alguém espanava a tristeza da tarde.

De início, com vassouras de risos. Nenhum resultado.

Pouco depois, com o rodo das piadas de ocasião. Nenhuma melhoria se viu.

Horas depois, cansado, ele desceu e se pôs a imitar os modos e os trejeitos de um garoto feliz, a dançar saudando o ocaso vespertino.

A noite cobriu-se com o riso das estrelas; festiva, enfim.

 

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Dobre a esquina e veja se você encontra a Dona Felicidade a conversar com a vizinha Dona Tristeza. Se não encontrar as duas, fique sabendo que já carrega as duas dentro de si.

Um leve conselho: dê voz à que você preferir como a padroeira dos seus dias.

 

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Chorei tão depressa que me esqueci de gravar o motivo da melancolia que me invadira.

Refeito do susto das lágrimas — como sou traquinas! —, passei o restante do dia a zombar de mim.

Quando me recolhi ao sono, percebi a presença de uma dama tristonha na cabeceira do meu leito. Seria a Dona Nostalgia a me esperar?

Dormi tão depressa que me esqueci de lhe dar ouvidos.

 

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— Meu diário claudica nesta quarentena — eu reclamava.

— Mas tua palavra nunca foi de brotar fácil, provinciano!

— Eu sei. E você também sabe; mas, se não reclamo do lento brotar das palavras, a inspiração, por birra e teimosia, é que se afasta cada vez mais. Você me entende?

— Vou lhe dizer algo: como são esquisitos os escritores. Até mais, por hoje chega!

— Não se vá! Preciso de alguém para ouvir os meus protestos. Sem testemunha, acredite, a coisa fica sem lustro, sem brilho.

Depois de muito espernear, eis que o parto da página se dá; rubro de emoção, pleno de vida.

 

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Na gaveta restavam cacos de ideias. Farrapos de crônicas.

Sobre a mesa, inúmeras folhas rasgadas. Abortos de contos, capítulos de romances abandonados.

Na prateleira, altivo, o seu último livro, como a espetá-lo:

— Pioras, dia a dia… Que tal te recolheres ao asilo dos escribas?

E brotou, dentro dele, o cerne de uma nova obra.

 

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O silêncio pôs seu manto sobre o ombro da noite, e ela ganhou uma fidalguia incomum.

— Que noite horrível! Parece um túmulo!

E a noite lhe negou eco, engolindo, em definitivo, tamanha heresia.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.