PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CLXXXIII)

Clauder Arcanjo*

(Pintura de Raisa Christina)

 

Diário de uma pretensa liberdade             

 

Para o escritor Dias da Silva

Pediram-lhe um depoimento acerca da liberdade. Mas, orientaram-lhe: ficasse restrito às coisas do cotidiano, nada de intrometer-se nas questões maiores, afeitas ao homem e ao mundo.

Voltou para casa, abriu a gaveta velha, armou-se de lápis, caderno e… deixou as ideias correrem livremente para o papel.

Ao concluir, sentiu-se satisfeito. Resolveu não revisitar o que escrevera. Do jeito que surgiram, ele encaminhou suas palavras ao Conselheiro.

No início da noite, recolheram-no ao presídio, sob a acusação de perigoso extremista.

 

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— Entre a vida e a liberdade, ficas com qual, Baltazar?

— E dá para escolher, senhor?

— Não me enroles, rapaz! Repito: entre a vida e a liberdade, qual a tua opção?

— O silêncio.

Com pouco, Baltazar ouviu um protesto. Todos deixaram o prédio para identificar de onde, e de quem, vinha.

Quando se viu sozinho, Baltazar levantou-se, juntou suas coisas e deixou o prédio pela porta da frente. Ao caminhar silente pelas ruas vazias, observou envergonhado que, no campanário da Matriz, os sinos estavam mudos.

 

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Menino, não dava bolas para a liberdade. Ela era a sua própria carne, viva em seus nervos, em seus risos.

Rapazote, a consciência primeira da sua falta. Estrebuchando dentro dele, pedindo espaço, clamando por novas luzes.

Hoje, tomado pelos anos, cada cabelo branco tem uma história de exílio para contar.

Assombrado com tantos fantasmas, ele resolveu raspar a cabeça e começar toda a luta de novo.

 

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Renunciou os seus projetos em nome dos filhos. “Não, com minha família, não!”

Hoje, com os filhos criados, cada qual com seus projetos e cercados por suas famílias, ele concluiu que renunciara a si mesmo.

Sentou-se à escrivaninha. Ao ver o seu retrato quando jovem e sonhador, disse-lhe “umas verdades”. Entre lágrimas e remorsos.

 

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— Minha liberdade pelo futuro! E não há futuro sem dinheiro — Jeremias defendia, entre arroubos e fanfarras.

Viveu bem e abastado durante décadas.

Ao visitar o neto, recolhido à prisão por protesto na universidade, Jeremias sentiu na boca do estômago um soco da vida. Ajoelhou-se perante a autoridade constituída, a suplicar:

— Liberte o meu neto, doutor! Não há juventude sem revolta!

 

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Rabiscou um poema no início da manhã.

Revisou-o, com o máximo cuidado, no meio da tarde.

Ao relê-lo, descartou-o, sem pena, na lata do lixo no final da noite.

 

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— Vamos fugir, querida?

— Para onde, meu bem? O mundo é nossa província. Não seria essa fuga uma covardia?

— Covardia?! Sinceramente, não. Covardes seríamos se renunciássemos aos nossos sonhos e nos entregássemos, bovinos, ao mando desses “poderosos”.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

 

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