PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CLXXVIII) – Clauder Arcanjo

01

(O nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli)

 

A José Alcides Pinto

(in memoriam)

 

Se a Precisão é mãe da invenção, o Poeta dessa senhora não precisa. O melhor estímulo para o parto de um vate é sagrar-se, oferenda-coito de corpo e alma, escravo do labor da escrita.

 

&&&

 

Corri em desespero para o Romantismo — o Simbolismo antes me espantara —; quando entrei em seus verdes campos, o Realismo — lá montara campana — me abraçou. Quis resistir e recuar, mas logo desisti. E lá fiquei, calado, a ouvir o vagido sublime a anunciar o nascimento de um haicai. Helás! Helás!

 

&&&

 

Aquele que, vaidoso, muito propaga suas “divinas, e inéditas, criações literárias”, suspeito, pouco escreveu, nada (ou muito pouco) há o que publicar.

Quem produz, cauto, silencia.

 

&&&

 

Era tão apaixonado pela Dama Silêncio que resolveu construir sua alcova no berço do seu vazio.

De início, feliz. Com o tempo, descrente. Anos depois, concluiu:

— Poetas, o bulício do mundo (na dose certa!) é remédio para curar (e, a partir dele, se inspirar) alguns males da gente.

 

&&&

 

Torpe é todo aquele que tem prazer em menosprezar o que outro produziu. O filho torpe, o mundo bem sabe, só colhe em suas mãos áridas o fruto ázimo das sementes do vazio.

 

&&&

 

Ontem, ao acordar, percebi a presença de uma ave solitária na roseira do meu jardim.

Até então eu pensava que a rosa era o êxtase da jardinagem; mudei de ideia ao testemunhar a beleza do trinado daquele passarinho. Em louvor ao domingo, ao jardim… fazendo da minha morada a ribalta da sua singular sinfonia.

 

&&&

 

Meu reino por um poema! — clamo aos céus. Se paráfrase ou não, pouco importa.

Shakespeare e outros gênios da raça humana são, classicamente falando, uns benditos enxeridos.

 

&&&

 

Na luz da manhã, o sabor da noite, por antecipação.

Na escuridão da madrugada, a esperança no despontar do Sol. Este, apesar da alcunha de previsível, sempre surpreende ao despertar a luz no caos.

Luz e escuridão, faces da moeda da vida.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.