Pílulas Para o Silêncio (Parte CLXXVI)

Clauder Arcanjo*

 

A Ronaldo Costa Fernandes

 

Minha província nunca teve rodoviária. Meu chão não queria montar ponto de partida para os seus filhos.

O ponto de saída do ônibus da Redenção (que nome traiçoeiro da viação que te atendia, Licânia!) ficava em frente à Praça do Poeta. Como se fosse imprescindível ler o soneto “O Palhaço”, antes de se ganhar a esteira (e a poeira) do exílio. “Ontem viu-se-lhe em casa a esposa morta…”

Todo santanense que parte leva uma cidade morta no seio da memória.

 

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Preciso ler Drummond ainda hoje, antes de dormir; reaprender que sempre fica um pouco, até mesmo da saudade, até mesmo da dor, do isolamento maldito. Este que nos priva do abraço neste Dia do Amigo: 20 de julho.

Mal raiou o dia, eu liguei para o mestre Manoel Onofre Júnior. Saudei-o pelo natalício e pelo Dia do Amigo:

— Se estivéssemos em Licânia ou em Martins, Onofre, tudo seria celebrado com Banda de Música e foguetes. Numa alvorada festiva.

Rimos, como se abraçados pela ternura e pelos valores provincianos que sempre nos unem (e irmanam).

 

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Naquele sábado, quando abri a janela do quarto, a madrugada se despedia cobrindo o horizonte com um luar de saudades.

— Acorde, minha Biscuí!

— O que houve, meu filho? Algum problema? Está sentindo alguma dor? — inquiriu-me, enquanto eu a conduzia pela mão até a varanda.

Beijei-a nos lábios grossos e sonolentos, antes de responder-lhe:

— Só se for de dor de admirar tamanha beleza!

Apontei em direção à Rainha dos Céus. Agora, já com a ponta dos pés banhados pelo dourado do alvorecer.

 

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Levou muito tempo pensando no título do seu novo romance. “Tem que ser algo de muito impacto. Uma chamada que faça com que os leitores comprem-no na sofreguidão de quem se encontra perante um clássico.”

Mais um mês se passou, nem uma página sequer fora escrita. Consumia-se na imaginação do título. “Não, este não. Muito banal. Esse outro, nem pensar!…”

Anos depois, encontraram-no preso ao vazio da ideia com a qual encimaria a capa da sua obra.

Um amigo mais próximo, intrigado com tamanha demora, vituperou: “Vazio!”

Eureka! Grato, eis-me: Vazio.

E entregou-se, com fúria incomum, às águas revoltas da ficção. A nadar de braçada, imperioso.

 

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Lia os jornais na pressa dos desinteressados. Frente às páginas policiais, nem se dava conta dos inumeráveis crimes. Diante do Caderno de Esportes, nenhum interesse pelos resultados dos embates futebolísticos.

Nos Classificados, porém, corria os olhos atentos e esbugalhados pelo setor de venda das casas antigas.

Dizem que tinha um prazer inconfesso por tais “negócios”, desde que o banco tomara-lhe a residência por não honrar um empréstimo vultuoso.

— A alegria deste desgraçado é descobrir, e acompanhar, a desgraça alheia — brandia, furioso, o vizinho da frente.

 

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Subirei no pau de sebo, dormirei com a dama mais desejada, ouvirei as estrelas, montarei em burro brabo, viverei minha Odisseia… Enfim, farei tudo que a Poesia me ofertar.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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