Pílulas para o Silêncio (Parte CLXX)

Clauder Arcanjo*

 

 

 

 

 

 

 

 

(Alegoria do amor – detalhe: Insanidade, de Agnolo Bronzino)

 

Era tão lunático que acreditava na palavra proferida, no acordo parlamentar, na razão dos arrivistas, na confissão do burocrata, na previsão do aprendiz de xamã.

Quando, numa certa noite, deparou-se com a declaração da Verdade, disparou:

— Não me faça de besta, sua desgraçada! Para fora do meu mundo, senão não terei paz.

 

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— Como se deve ler literatura?

O discreto leitor fez de conta de que não era com ele, mergulhando ainda mais o nariz adunco nas páginas do romance.

— Por que, ao invés de literatura, tu não te entregas aos compêndios sociológicos? — indagou-o.

Pôs um olho para o canto da página, e o ledor deixou escapar uma leve sentença:

— Senhor, meu distinto senhor! A literatura não se explica, se vive. Há mais sociologia na prosa de Machado de Assis do que nos tomos acadêmicos.

Com receio de ser atrapalhado no seu estudo sócio-machadiano, resolveu distanciar-se.

 

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Nunca o silêncio causou tanto desconforto quanto agora. Os homens estão sendo forçados a um encontro, tantas vezes adiado, consigo próprios.

No tribunal do lar, sem testemunhas. Nem muito menos rábulas de defesa, nem de ataque.

 

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— Urge que você escreva um conto.

— Mas, eu…

— A short story provará o seu poder de síntese; numa cena, revela-se (e se sugere) um todo. Há de convir que o conto demonstrará o seu domínio da fabulação, tão necessário na construção do seu projeto de intelectual da província. Insisto, cuide em publicar um conto.

— Eu?…

— Não se contente com os artiguetes de jornal. Só os tolos não percebem que não passam de uma colcha de retalhos: copia-se um pedaço daqui, outro dali… Não tem nada de opinião própria. Por isso, mãos à ficção!

— Eu… não…

— Não vá me dizer que não concorda com meus argumentos. Se quiser afiar a pena, passarei para você alguns mestres: Tchekhov, Maupassant, Machado, Borges… Bebendo nessas fontes limpas e dadivosas, há de brotar um veio narrativo digno de dentro de você.

— Meu senhor, eu mal fui alfabetizado. O beabá ainda ressoa (e incomoda) nos meus ouvidos!

— Sendo assim, amigo, nada de saltar etapas; permaneça mais alguns anos nos artigos sociais. E muito cuidado!, não dê asas ao pensamento próprio, muito menos às invencionices!

 

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Cerziu os dedos no novelo da melancolia, melou os cílios com as lágrimas da saudade e se sentou, cabisbaixo, no alpendre da tristeza.

Quando a noite deu com ele, a lua — dadivosa — iluminou-lhe as faces lívidas com a alegria do quarto crescente.

E a madrugada toda sorriu.

 

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Venerava tanto os heróis de além-mar, sabendo de cor e salteado a história e os grandes feitos dos vencedores estrangeiros, que se esqueceu de conhecer os valores e a riqueza do seu povo.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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