PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXXVII) – Clauder Arcanjo

Registros tristonhos de uma segunda-feira comum

Foto “Velho homem em tristeza”, de Van Gogh.

Más testemunhas para os homens são olhos e ouvidos, se almas bárbaras eles têm.

(Heráclito)

 

Adauclécio Prístino acordou e levou mais de três minutos para acudir com o seu estado de homem desperto. Ao se ver diante do espelho, fez careta por sua imagem tristonha, arreganhando os beiços grossos a “sósia” tão melancólico.

— Acorda, homem de Deus! Ou você não quer encarar a nova semana? — indagou-se, com cara e voz de preguiçoso.

No trabalho, arrastou o dia. Este, no entanto, nem ligava para as suas procrastinações; o chefe enfiava-lhe despachos medonhos e as horas não andavam.

No meio da tarde, extenuado, Adauclécio fugiu em direção ao banheiro. Mal entrou, Gonzaguinha da Luz, puxa-saco maior da repartição, estava já no seu encalço:

— Seu Prístino, o chefão está à sua procura.

— Diga que não me viu?

— Não sou de mentiras.

— Fale, então, que eu morri e que se esqueceram de me enterrar. Mas ninguém precisa encomendar flores, infelizmente ressuscitei nesta maldita segunda.

 

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Adorava tanto seus sonhos que dava as costas à realidade. Certo dia, quando se viu diante do real, desmaiou, mergulhando de corpo e alma num sonhar profundo. Não mais acordou.

 

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Meleagro Cândido nunca acreditou nos seus dotes físicos, apesar da compleição, a olhos vistos, do fortíssimo corpo.

Numa noite alta, ao retornar ao lar, foi abordado por dois assaltantes:

— A carteira, seu filho da puta!

Meleagro não gostava dos maus modos.

— Se tivessem pedido simplesmente a minha carteira, seriam atendidos. Mas, como resolveram mexer com o passado da minha genitora, irão pagar caro pelo abuso.

E deu-lhes uma surra jamais vista pelos meliantes de Licânia.

 

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Cadmo sonhava com outras terras. Desde que nascera nunca se aquietara, sempre em busca de outros mundos.

Quando certa noite um circo chegou à cidade, ele percebeu que aquilo poderia lhe trazer coisas interessantes de muito longe.

Afoito, Cadmo entrou de lona adentro. Sem tomar nenhum cuidado, abriu, num rompante de loucura, a jaula do leão de Tebas; e foi devorado pela faminta atração, há dias sem ser alimentada.

 

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Registram os compêndios da história de Licânia que, lá se vão muitos anos, Chico da Dalgisa, logo depois de casado, passou a amar a filosofia. Noites e noites na companhia de Heráclito, Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Kant…

Quando Dinaura, sua queridíssima esposa, deu-lhe um herdeiro, ele correu ao cartório da província e registrou-o: Francisco Heráclito Sócrates Platão Aristóteles Descartes Kant.

O menino desistiu da escola logo na alfabetização, nunca conseguiu chegar ao Aristóteles quando desenhava o nome. Dizem que cresceu, viveu e morreu sob as sombras da ignorância. Mistérios da vã filosofia licaniense.

 

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O pregador primeiro ou é saudado como profeta ou é julgado como insano.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.