PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXXV) – Clauder Arcanjo

Foto: “O dono do pedaço”, de Marcelo Visentin.

Cantando de galo em terras devastadas

 

Quem garante que os juízes de hoje não serão os traidores de amanhã, atirados, do alto de seu tribunal, para as masmorras de cimento em que agonizam os malditos da história?

(Albert Camus, em O homem revoltado)

 

Na soleira de casa, José Matias abriu a bocarra fétida e anunciou:

— Ô vontade de dar uma surra num cretino!

Maria Terra, ao ouvir o brado do companheiro, cuidou de aquietá-lo:

— Passe logo pra dentro, seu cabra frouxo!

Nesse exato instante o galo Florisvaldo, rei do terreiro, anunciou novamente a manhã.

 

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Pelejaram tanto por achar uma novidade naquelas terras ermas, que cuidaram de incentivar a mentira para dar cabo de tamanha consumição.

 

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Belmiro Pancreôncio fora criado com água de cacimba alta, Biotônico Fontoura e óleo de rícino. Este para purgar os intestinos.

Quando rapaz, seu pai alistou-o para servir ao Exército. Foi devolvido ao seio familiar, motivo oficial: excesso de contingente.

A vizinhança, no entanto, assevera que o rapagão não aguentou a primeira prova, desmaiando frente ao mastro da Bandeira Nacional.

 

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Costume de orador é enfiar as palavras em qualquer acontecimento. Com Cleverino Antério não era diferente:

— Minha filha, me faculte a palavra!

Ao se ver atendido, Cleverino campeava solto, o palavreado brotando livre, leve e solto.

— Enfim, caríssimos presentes, trata-se de um homem digno de nosso respeito. Conhecedor dos direitos, mas muito mais do que tudo: senhor dos seus direitos de cidadão honrado desta terra de Licânia…

Nisso o bêbado Bartílio Venâncio sapecou-lhe uma risada, seguida por um alerta:

— O professor Antério entrou no velório errado, minha gente. O corpo velado é o da velha Cândida. Que Deus a receba!

— Tenho dito.

 

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A natureza acordou preguiçosa. As flores não se abriram, o sol não despontou, nem as galinhas desceram do poleiro.

Quando o padre Araquento não viu as pias filhas de Maria na missa das seis, ele fez o nome do pai e indagou-se:

— Será o fim do mundo, meu Senhor?

 

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Toda vez que Dagmar Varela ganhava as ruas, a criançada rezava para uma lufada de vento. Tudo na intenção de flagrar uma brecha daquelas pernas tentadoras.

Ao passar pelo beco do seu Antenor, a saia de Dagmar ganhou altura, mostrando tão formosas coxas:

— Ah, meu Deus! — proferiu o velho Antenor.

— O que é isso, homem? Você não é mais de nada! — tripudiou o vizinho Gibraltar.

— Meu amigo Gibraltar, Deus tira a “sustança”, mas não tira a lembrança. Isso é muito bom!

 

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Embarcação de pessimista não passa da condição de canoa para riacho seco.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.