PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCLXV)

                                                                                      Clauder Arcanjo*

(Pintura “Moça lendo uma carta à janela”, de Johannes Vermeer)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Entre cartas e silêncio

“Se amais vossos mortos, confiai neles a ponto de amar seu silêncio.”
(Amélie Nothomb, em Sede)

Teve tanta saudade dela que pensou em lhe escrever uma carta.
Tomou do papel, rabiscou uma sentença, riscou-a, revisou-a, a reescrevê-la seguidas vezes.
Após a sétima leitura do início da missiva, concluiu: “O melhor é respeitar o seu silêncio”.

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Errava quando calava, enganava-se quando bradava. Resolveu desistir de tudo, sumindo sem deixar rastos nem bilhete de despedida.
Pouco depois, Licânia se dividia: metade dos moradores a assacar-lhe a pecha de covarde, a outra metade a imputar-lhe a glória de desbravador das províncias d’além rio.

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“Tolo é aquele que confia em outro tolo”, professava João Américo, ladeado pelo gato Nabuco. Este a expiar, faminto, a porta de entrada, a miar com saudade do pragmatismo do Companheiro Acácio.
À meia-noite deu-se o retorno daqueles que haviam saído em busca da boia. Quando João Américo quis fazer uso da palavra, expondo os fundamentos basilares da teoria da hermenêutica do feijão dividido, Nabuco armou-se com as suas garras afiadas e pôs por terra qualquer arroubo filosófico. Jantaram em silêncio, apesar dos arrotos metafísicos do descontente proto-filósofo das ribeiras do Acaraú.
“Tolo é aquele que filosofa, com fome, perante um prato de comida”.

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Saiu antes que dessem o veredicto.
— A justiça não é para este mundo!
— A justiça é filha dileta desta nação!
Falou tais máximas quase simultaneamente, deixando para quem as ouvisse o crédito de escolher uma delas, quando da promulgação da sentença.

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Havia uma desconfiança tão patente em seus modos, que cada palavra sua já trazia em seu bojo um batalhão de suspeitas.

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Nobreza no sertão é o império da barriga cheia. E sabido, para os ribeirinhos de Licânia, é tido e havido como primo-irmão do mais reles salafrário.

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Sentia que o tempo o julgava eterno, até os dezoito anos. Quando chegou aos cinquenta, passou a desconfiar da eternidade prometida. Aos noventa, entre achaques e quizilas mil, rezava todos os dias para que a sua existência chegasse ao fim.

Navego
a caneta pelo rio
das palavras.
Alcanço a foz do poema.
(Hildeberto Barbosa Filho, em “Coisas”)

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.
Clauder Arcanjo*

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