PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCCLIX)
Cláuder Arcanjo*
(Estátua equestre de Marco Aurélio, em Roma)
Meditações acacianas
Encontrei Companheiro Acácio na última segunda-feira em uma mesa da minha cafeteria preferida. Da entrada, saudei-o:
— Salve, salve, velho amigo!
— Dia — falou, sem levantar os olhos da leitura que o absorvia.
Aproximei-me, meio sem jeito. Sentei-me, pedi um café e aguardei.
De repente, entre um virar de página e outro, Acácio proferiu:
— “Não fiques mais à deriva. Considera que, agora, já estás morrendo. És velho.”
— Vá de retro, Companheiro! Velho é você! — respondi, de pronto.
Ele fechou o tomo. Só nesse instante percebi que estava preso às Meditações, de Marco Aurélio.
Os seus olhos revelavam-me, no acento vesgo de fúria, o quanto ele me considerava um asno.
Conteve-se a custo. Em seguida, sorveu um gole do café já um tanto frio que restava na xícara, cofiou o bigode bem aparado e, com ar contido, declarou:
— Interrompe a minha manhã, atrapalha as minhas meditações e…
Cortei-o, abusado:
— Suas não, de um imperador romano, filósofo da escola do estoicismo.
Acácio quis levantar-se, mas o detive ao citar de cor uma passagem das Meditações:
— “Os humanos existem em razão uns dos outros. Então os ensina ou os tolera.”
Acácio, irritado, perde a compostura:
— Numa terra em que até os áulicos mais vis se apresentam como doutos filósofos, eu não tolerarei permanecer nesse chão. Eis-me aqui fugitivo para lugar não revelado.
O contraditório dá lugar, então, a um quebra-pau. Entre gritos e sopapos, Companheiro Acácio se entrega ao primado da sobrevivência física e… corre de rua afora, aos gritos:
— Socorro! Salvem-me deste falso Arcanjo.
— Volte aqui, seu Acácio desgraçado! Vou lhe mostrar com quantos paus se faz um caixão para o seu corpo meditar ad aeternum no fogo do inferno.
*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.