PÍLULAS PARA O SILÊNCIO – Clauder Arcanjo

 

(Alforria, de Audifax Rios)

 

Na madrugada, em meio às lembranças das recentes brigas, ela via-se resoluta a quebrar os grilhões que a prendiam a ele.

Na manhã, ao lhe preparar o café, caprichou nas pitadas de sal sobre os ovos mexidos. “Que este sal te ofenda, condenado!”

Ele se serviu, repetiu; e, ao final, ainda lambeu os beiços.

Antes de sair, beijou-a com os lábios ovados, elogiando-lhe o sal e o tempero:

— Tudo uma beleza, querida! Esses ovos mexidos estavam no ponto! Só você, só você…

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— O que tu relembras com esse olhar tão vago?

Não gostou de se ver interrompida. Girou o rosto em direção à parede da sala, e lá ficou.

— Por que tu te voltas para o passado? — indagou-a.

Ergueu-se, pôs nele dois olhos túrgidos. Dentro deles, a resposta passada a limpo: clara, dura e direta.

— Tudo bem, querida! Já não está mais aqui quem perguntou!

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Quando o passado vale mais do que o presente, é porque o futuro já não se encontra afiançado.

Na vida, só as ações do presente rendem dividendos.

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— Não está escutando? Que bela sinfonia!

— Mas…, se…nhor, eu…

— A sua vida é uma canção. Vamos, cante!

— Eu… eu… não…

— Não se faça de tímido. Por favor!

— Eu… so… sou… ga… ga.. gago.

— Tudo isso apenas para mais se valorizar. Cante mesmo assim!

— “Detalhes tão pequenos de nós dois…”

— Se você treinasse mais, e fosse menos introvertido, confesse-me, você desbancaria o Rei. Amanhã, amigo, daremos prosseguimento à nossa segunda aula de autoajuda. Repita comigo: se eu quero, tudo posso! E continue cantando!

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No sertão mais distante, a faca assumia foros de espada, um boi gordo valia mais do que diploma, e uma cabocla bonita e assanhada virava mote para tragédias de ferro e sangue.

Quando o tempo passava, os cantadores de viola apresentavam tudo entre glosas de dores. Nos alpendres das fazendas do sertão mais distante.

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Ninguém sabia da sua origem. Chegou montado num cavalo baio; apenas com a roupa do corpo e uma cicatriz funda na face esquerda.

— Ô, de casa!

— Ô, de fora! De onde vem, meu senhor?

— Venho de uma ribeira afastada. Posso me arranchar?

— Com a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, aqui não falta serviço!

Desceu, amarrou a montaria no mourão da frente. Quando andou, reparei, ele fazia um gingado diferente.

No outro dia, correu a catinga comigo, tangendo os zebuínos mais ariscos. Levava jeito no manejo do gado; na boca, um aboio bem forte e sofrido.

Duas noites depois, ele conheceu Das Dores, a única filha da comadre Gumercinda. Notei que a sua cicatriz se avermelhava quanto mais ele botava os olhos na menina.

Na madrugada seguinte, ele sumiu, levando na garupa Das Dores, a cabocla da Gumercinda.

No oitão da fazenda, quando a lua cheia rasga o céu estrelado, comadre Gumercinda chora e chora; diz ela que condenada a ouvir o aboio sofrido daquele vaqueiro ladrão.

 

  *Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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