OS ESQUECIDOS

Clauder Arcanjo*

Para minha amiga Eline T. Antunes de Souza Paes

— Onde está o meu carro, gente?
— Beline, você deixou ele mesmo aqui? Tem certeza?
— Bom, certeza, certeza, Clauder, eu não tenho. Mas sempre estaciono
nesta vaga, porque eu sei o quanto eu sou… esquecida.
— E qual a cor?
— Sou lesada, Antonieta, porém nem tanto. Assim você me trata como
uma desmiolada.
— A cor, Beline?
— Branca. Um jipe branco.
— E você veio no seu? Ou saiu com o do seu esposo?
— Bom, é. Pois é, meu querido Arcanjo, você acabou de me ajudar.
— Em quê, amiga?!
— Vim com o carro do Mário. E ele é este aqui: cor preta. E eu,
prevenida, o estacionei no lugar de costume. Justamente para não me
confundir. Mulher prevenida vale por duas. Vamos almoçar!
— Qual o restaurante que nós combinamos com a turma do setor?
— …
— Beline, pare no acostamento.
— Por quê? Assim vamos nos atrasar. Só temos uma hora para o
almoço; o evento recomeça à uma da tarde, meu povo!
— Não podemos ir sem rumo. Como seguiremos, se não sabemos para
onde?! Eu não queria ter saído com vocês: um esquecido não anda com outro.
No caso, com outras duas.
— Assim você nos ofende, Clauder Arcanjo!
— Tudo bem, tudo bem. Não fiz por mal. Então vejamos: Antonieta, você
sabe qual foi a pessoa que conversou com Beline na saída há pouco?
— Não consigo me recordar do nome dela. Sei que é da empresa. Uma
mulher assim, sabe. Com pouco mais de quarenta.

— Antonieta! Pela alma do profeta. O evento é da nossa empresa, a
maioria do público é feminina. E a grande parte delas já passou dos quarenta
anos. Assim você não está cooperando em nada. Puxa vida!
— Muito bonito, Arcanjo! Você cobra da Antonieta, no entanto quem saiu
comigo do encontro foi você. Você é que deveria apontar com quem eu
conversei.
— …
— Uma ideia: vamos para a avenida que tem mais movimento. Vou
dirigindo devagar, enquanto vocês dois observam para identificar a turma
sentada. Nesta cidade, os principais restaurantes estão na beira-mar e são
abertos, geralmente com janelas de vidro.
— Toque em frente, Beline. Você é dez!
— Lá estão eles. O nome do restaurante: Brasa & Vino.
— Claro, não poderia ser outro.
— Vamos descendo, cuidado ao atravessar a rua. Olha o ciclista!
— Onde, onde?
— Já passou, Beline. Cuidado, mulher, não se pode dar bobeira: o
trânsito está uma loucura.
— Antonieta, a moto!
— Ai! Que susto!
— Meu Deus do Céu, entrem logo, antes que se acidentem.
— O que vão querer almoçar? Sirvam-se na frente, eu guardarei lugar
na mesa.

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— Querem café, meninas?
— Excelente ideia, Clauder. Um cafezinho para aguçar ainda mais a
minha memória. Sabiam que ficou comprovado que a cafeína previne o
Alzheimer?
— Sei… No meu caso… Bom, deixa pra lá.
— Garçom, a conta por favor.
— Cartão ou dinheiro, senhor?
— Todos pagaremos no cartão?

— Sim.
— Minha carteira?!
— Minha bolsa?!
— Não acredito!
— Vamos lá no carro, Beline. Pode ser que nós deixamos lá.
— A chave do carro?!
— Está na sua mão, Beline!
— Vão lá as duas. Eu espero vocês aqui. Lembram onde o carro ficou
estacionado?
— Claro que sim. Clauder, você vem se revelando um grosso.

&&&

— Senhor, está havendo uma confusão com aquelas duas senhoras que
estavam aqui. Acho que é briga de trânsito.
— Debite a despesa total no meu cartão. Grato, vou até lá.
— O que houve, meninas?
— Este senhor está discutindo que este carro branco aqui não é o meu.
— Senhora, claro que não é o seu. O seu controle não abre as portas.
— Deve ser defeito. Já vou ligar para o meu esposo, e pedir que ele me
traga a chave reserva.
— Beline, você veio com o carro do seu esposo: o carro dele é preto.
— Vou passar mal. Clauder, você resolve tudo.
— Só um detalhe: depois vou levar as duas de volta para casa. Não
podem andar pela rua desse jeito. Depois vou para o meu hotel.
— …
— Aqui para nós: alguma das duas sabe o nome do hotel onde eu estou
hospedado.

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-
grandense de Letras.

Observação: Artigo para publicação no dia 27.10.24

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