O quarto cinza de Acácio

Clauder Arcanjo

O quarto cinza de Acácio

Quinze dias sem Acácio, juro por Deus e por todos os santos, para mim é uma eternidade.

O que é a eternidade?! Não, por favor, caro leitor, não me venha com inquirições filosóficas! Hoje eu não estou nem um pouco a fim de nenhuma questão profunda, e a metafísica me arrepia os nervos e os poucos cabelos.

Voltemos para a minha saudade acaciana. Pois bem, pois muito bem. Como antes relatava, há duas semanas se dera o meu último encontro com o Companheiro. Terminara de modo abrupto, quase à beira da ruptura entre nós. Porém, passados alguns dias, a tinta da saudade jogou o branco da reconciliação sobre o “sangue” do ocorrido. E, com pouco mais, o que antes fora motivo de zanga, ressurgia-me com a graça e o encanto da troça. E, relendo os meus poemas — é a mais pura verdade! —, achei-os chinfrins; dei razão ao Companheiro e até lamentei por eles terem sido causa da perda da sua última paixão.

Sem mencionar, leitor, que a quarentena à qual o coronavírus me submetia era por demais sacrificante. Deixando-me à beira de uma apoplexia. Preso ao hotel, a subir e a descer o elevador, seguidas vezes. Sem encontrar ninguém conhecido, uma pessoa sequer que pudesse entabular um dedo de prosa comigo. Nada. Poucos hóspedes, todos de máscaras, a fugirem uns dos outros. O medo a banir qualquer possibilidade de encontro.

De volta à cama. Pouco depois, ia à janela, a mirar as ruas vazias; a saudade de Acácio mais me angustiava. Se relia Lima Barreto, encontrava em todo ato de Policarpo Quaresma os modos do Companheiro. Se resolvia revisitar a prosa de Raul Pompéia, o Sérgio, d’O Ateneu, se revelava para mim com toda a rabugice e a revolta acacianas. Ao dormir, Companheiro invadia os meus pesadelos.

Ontem, decidi:

— Antes que eu enlouqueça, vou localizar Acácio!… — anunciei, de mim para mim.

Como estava no café da manhã, os outros hóspedes entreolharam-se. Na certa, julgando-me vítima da sandice.

E você, leitor, siga os meus passos. Vou ligeiro, a saudade nos torna ousados, ágeis e velozes.

Pus máscara dupla, luvas e um frasco de álcool gel em cada bolso da minha calça. Voltei, de início, à farmácia em que o havia encontrado.

— Vocês se lembram de um senhor com quem me encontrei aqui há duas semanas? Parecia um astronauta: portando uma máscara a proteger-lhe a cabeça proeminente…

— Um velhote de uma cabecinha grande como a do senhor? — inquiriu a balconista.

Não julguei no quesito da troça o ponto levantado pela senhorita. Mas marquei os seus lábios, para ver se despontava neles um quê de mofa ou de riso contido. Como nada identifiquei, bem como muito interessado em possíveis pistas para localizar o amigo, continuei, inocente:

— Sim, uma cabeça chata de cearense. Dizem até que nos parecemos. Coisa que não me orgulha…

— O que o senhor deseja? — ela inquiriu-me.

— Este amigo, jovem, está desaparecido. Ele mora sozinho, está recém-chegado a Vitória. Não usa celular, é um cidadão afeito às antiguidades. E com a pandemia, você sabe? A gente pensa o pior — confessei, ao final simulando cara de velório.

— Vou ver se ele preencheu algum cadastro aqui. O senhor sabe o CPF dele? — perguntou-me.

— Não, veja pelo nome: Acácio.

Assim, entre uma consulta e outra, remexendo no computador da farmácia, eis que a atendente me anunciou:

— Temos aqui três Acácios nas proximidades, todos clientes de nossa Unidade. Anote os endereços. É o máximo que posso fazer. E, pelo amor de Deus, e pelo meu emprego, não revele como o senhor teve acesso aos endereços. Estou até ferindo as normas da empresa; mas como se trata de questão de desaparecimento, e como estamos numa pandemia, você sabe…

Anotei e antes de sair, esquecendo-me das recomendações dos agentes de saúde, dei-lhe um abraço apertado. Quase a beijava, porém me contive a tempo.

— Deus lhe pague! — agradeci-lhe. Em seguida, meti-me pelas ruas, em direção ao primeiro endereço anotado.

Com estava tudo deserto, caminhava rápido, contudo não contava com nenhuma informação dos transeuntes. Como poderia ir a Roma, se a boca não me valia de nada? Lembrei-me, então, de inquirir aos recepcionistas dos edifícios. E, assim, localizei a residência do primeiro.

Quando cheguei diante do prédio, a terrível notícia, informação do porteiro:

— Você não soube?! A Covid-19 o levou para junto do Senhor há uma semana. Um bom homem, sabia? Deixou mulher, filhos e netos. Seu Acácio Bragantino Gomes de Alencar foi um cidadão digno… — O porteiro a despejar todas aquelas informações fúnebres, e eu querendo, sem feri-lo na corda do descaso, seguir caminhada em busca de localizar o próximo. Aquele não era o nosso Acácio; este, sim, um rematado solteirão.

No segundo prédio, logo na esquina seguinte, dei com o carro de uma funerária a sair do estacionamento. Nem foi necessário indagar ao porteiro, este foi logo despejando:

— Não suportou a notícia da morte da esposa, vitimada pelo coronavírus. Dormiu e não acordou. Dizem que seu Acácio Juventino Guimarães Bilac passou desta para melhor como um passarinho… Um ataque cardíaco fulminante. Também, com mais de cinquenta anos de matrimônio… Eram bem casados, feitos um para o outro…

Fiz o nome do pai, rezei silente uma ave-maria para a alma daquele Acácio, e segui em ritmo mais acelerado.

O último endereço que anotara dera num muro alto, de cor cinza. Toquei a campainha. Tempo depois, uma voz soturna:

— Quem é?

— Aqui é Clauder Arcanjo, amigo de Acácio. Ele está?

Minutos após, a tal voz gutural:

— Entre, a entrada foi liberada.

Empurrei o portão. Vi-me, então, num jardim bem cuidado. Junto ao muro, flores e rosas. No ar, o zumbido característico de abelhas e um leve trinado dos pássaros na copa das árvores.

Quando me dirigi à porta principal, fui surpreendido por um rosnado raivoso. Era um cachorro diminuto, mas com a boca repleta de dentes pontudos e afiados.

Tentei conquistar a confiança do cãozinho:

— Você é o maior amigo do Acácio, bichinho?

Numa revolta e fúria incomuns, o pequinês voou na minha canela, dando-me uma mordida de cachorrão grande.

Quando a dor é tamanha, aprendi após aquelas seguidas dentadas, não se chora, se uiva, feito um lobo condenado.

Uma eternidade depois (agora sei o que significa uma eternidade!) surgiu a figura impávida de Companheiro Acácio, secundado por outro senhor. Acácio, ao se aproximar, confessou-me:

— Você mais uma vez, Clauder Arcanjo, errou. O Hércules não é meu amigo. Aliás, esse cachorro me odeia.

Veio uma sequência de impropérios à minha mente, contudo a dor os engrolou na saída do cérebro. E eu uivava por ajuda. De repente, escapou um pedido meu de súplica:

— Afastem de mim este cachorro!…

O senhor, que ladeava Acácio, deu um silvo breve e dois longos. O Hércules soltou minha canela, não sem antes sacolejá-la várias vezes. Na passagem, com os olhos ladinos, rosnou diante de Acácio e, depois, resolveu sumir no fundo do muro.

Neste instante, desmaiei.

Horas depois, ao despertar, achei-me em um ambiente estranho. Ao correr os olhos, percebi que estava em um quarto fechado, de paredes cinza, sumariamente trancado:

— Onde estou?

Um senhor alto, com máscara, a portar uma viseira de plástico frente ao rosto, se aproximou de mim. Com pouco, pediu-me que abaixasse as calças.

Como eu não me mexia, ele virou-me na cama, aplicando uma injeção nas minhas nádegas chinfrins. O segundo uivo do dia.

— O que é isso, senhor? Mereço explicações.

Ele descartou o aparelho, subiu minhas calças e me informou, sem meias palavras:

— Isto é uma antirrábica. Você ficará neste quarto cinza, que foi gentilmente cedido por seu Companheiro Acácio, em quarentena. Seu amigo, muito preocupado com sua saúde, recomendou-me que cuidasse de você, pois desconfia que o cachorro Hércules, que o mordeu ainda há pouco, está com suspeita de raiva e deu positivo no exame de Covid-19. Logo, a sua quarentena será dobrada.

Eu enchi os pulmões, e dei o terceiro uivo do dia:

— Acácio!… Onde está você, seu filho da puta!…

O veterinário me pôs uma camisa de força, atribuindo a minha exaltada reação ao primeiro sintoma da peste.

Na sala ao lado, a voz “piedosa” do Companheiro:

— Meu Deus! O caso, então, é sério. Que Deus tenha pena da alma de Clauder Arcanjo!

— Acácio!… Onde está você, seu filho da puta!…

Não ria, não ria, caro leitor. Nem me venha pedir clemência, nem para eu fazer as pazes com este… canalha. O caso agora é de vida ou morte. O mundo ficou pequeno demais para nós dois.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

 

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