O FANTÁSTICO MUNDO DOS LIVROS

Nilo Emerenciano - Arquiteto e escritor.

Em visita a casa/museu/biblioteca do meu amigo Gutenberg Costa fui induzido a algumas reflexões. Não sei vocês, mas a leitura foi, para mim, descoberta e libertação. Garoto insone e propenso à solidão, os livros foram o caminho, a verdade, a vida. Nem lembro o que veio primeiro. As HQs tem importância nisso e tenho dívida de gratidão para com Pato Donald e Zé Carioca, os Sobrinhos do Capitão, Jerônimo, o Herói do sertão, Tarzan, Zorro, Fantasma, a turma do Pererê e tantos outros. Além de Bolinha e Luluzinha, de Marge, que guardo até hoje, e sempre que releio dou boas risadas. Daí pros livros foi um pulo.

No capítulo livros o genial Monteiro Lobato veio em primeiro lugar, junto com a sua turma do Sítio do Pica-pau amarelo. Havia também a turma do Taquara-Póca, de Francisco Marins, que nos levava ao interior do Brasil e me apresentou o mito do Curupira, ser de pés para trás e defensor das matas, inimigo dos devastadores e de gente como Ricardo Salles. Não posso esquecer os livros de bolso editados pela editora Monterrey. O Coyote, Gisele, a espiã nua, que só muito depois descobri ter sido escrito por David Nasser. O sucesso de Gisele trouxe a espiã Baby, da CIA com as maravilhosas capas desenhadas por Benício. Eram lançados títulos para todos os gostos. Histórias de guerra, de cowboys, de espionagem, policiais. Eram baratos, tinham belas capas, e por serem pequenos eram levados a qualquer lugar, inclusive na escola, disfarçados dentro dos livros. Quem nunca leu Marcial Lafuente Estefania me atire uma Delta-Larousse na cabeça.

Papai um dia trouxe a série completa dos livros de Sherlock Holmes. Foi um deslumbre. A literatura dita séria me pegou como o Covid-19. Agatha Christie, Ellery Queen, Maurice Leblanc (muito fraca a série Lupin, da Netflix, por falar nisso). Chester Himes, Chandler, Hammet.

No sebo de Cazuza, pioneiro dos sebos em Natal, eu comprava revistas que traziam contos policiais – a X-9 e outra chamada Detetive. Descobri depois que eram a versão brasileira da pulp-fiction americana. Acreditem, as revistas traziam contos de Edgar Wallace, Sax Rohmer, H.G.Wells, Jack London, Walter Scott, Edgar Allan Poe e até King Shelter, vejam só, pseudônimo da nossa Pagu – Patrícia Galvão.

E aí o gosto pela leitura se estabelece e a gente empreende voos mais altos, frequentando bibliotecas e livrarias. A Biblioteca Pública me permitiu acesso a um vasto acervo, e lá li os russos e os franceses. Dostoievsky, Thecov, Gorki, Hugo, Maupassant, Zola, Mérimée, Flaubert (Emma Bovary é um desses personagens inesquecíveis). O prefeito Djalma Maranhão, nosso melhor gestor, espalhara pela cidade pequenas bibliotecas móveis, além de telefone público, quadra de esportes e parquinhos. Frequentei a que ficava na Praça André de Albuquerque, embaixo da Concha Acústica.

Três grandes impactos para o adolescente que eu era: Grande Sertão, de Guimarães Rosa, Vidas Secas, de Graciliano e os Sertões, do trágico Euclides da Cunha. Aos que badalam Joyce, Faulkner ou Borges, me desculpem, fico com os nossos.

Enfim, nossa terrinha também tem seus autores. Lembro José Bezerra Gomes, Homero Homem, Eulício Farias de Lacerda, Fernando Sobreira, Nei Leandro, Tarcísio Gurgel. Os Mortos são Estrangeiros, de Newton Navarro, é leitura obrigatória, sem dúvida. E há os mais novos, assunto para outra crônica.

Reitero a minha admiração por Luís da Câmara Cascudo. Daquela casa da Junqueira Aires ele construiu uma obra magnífica, confirmando a frase de Tolstoi: “Se queres ser universal, cante a sua aldeia”.

Somos um povo que lê pouco – e mal. E aí algum gênio da economia fala em taxar os livros, no momento em que as livrarias, que já eram poucas, fecham as portas. E mais: quando o Brasil volta ao mapa da fome da ONU devido ao descaso dos governantes e a um auxílio emergencial insuficiente. O Papa Francisco disse que não temos jeito por que temos muita cachaça e pouca reza. Eu diria: e poucos livros, Santidade, muito poucos livros.

Na entrada da livraria Universitária, na Av. Rio Branco, um trecho de Espumas Flutuantes alertava: “Oh! Bendito o que semeia/Livros à mão cheia/E manda o povo pensar!/O livro, caindo n’alma/ É germe – que faz a palma,/É chuva – que faz o mar!” Castro Alves sabia perfeitamente o que dizia.

NATAL/RN