O drama e a comédia

Alex Medeiros
@alexmedeiros1959

Algumas semanas antes da cerimônia do Globo de Ouro, as atrizes Fernanda Torres e Demi Moore tiveram sentimentos semelhantes expressados no pessimismo mútuo quanto ao futuro das suas respectivas candidaturas ao prêmio da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood. Se naqueles dias a brasileira tivesse lido a revista francesa Paris Match e a americana tivesse feito o mesmo com o jornal inglês The Independent, a coisa mudaria.

Na primeira semana de dezembro, uma matéria na Paris Match analisando as indicações femininas citou o nome de Fernanda Torres, não como um grande favorito, mas com uma “especial chance” de conquistar a estatueta. E o Independent afirmou que Demi Moore havia subido na disputa de melhor atriz no fato do filme A Substância ter se tornado um grande sucesso de bilheteri. Elas duas foram premiadas numa espécie de resultado refletido num espelho.

Fernanda melhor atriz de drama e Demi melhor atriz de comédia é, sem dúvida, um resultado de inversão de papéis e de carreiras. Já que a brasileira se consagrou fazendo comédia, enquanto a americana se firmou no drama.

Mulheres de uma mesma geração, nasceram no começo da década de 1960 e iniciaram carreira bem jovens, mas se estabelecendo profissionalmente nos anos 1990, Fernanda arrebentando na comédia e Demi encantando no drama.

Filha de um casal estrelado, Fernanda Torres entrou cedo no universo dos pais e logo estava atuando no teatro, cinema e televisão. E a partir dos anos 1990 ela acumulou trabalhos de humor que lhes deram uma enorme popularidade.

Criada pela mãe e o padrasto, no Novo México, e também pela avó, Demi Moore foi morar na Califórnia quando tinha 15 anos, sendo estuprada pelo patrão da mãe, um distribuidor das revistas onde ela via os artistas de cinema.

Ainda menina, Fernanda pisou no teatro e logo estava nas novelas da TV e no cinema. Até ganhou prêmios internacionais, mas o Brasil a descobriu estrela nas gargalhadas que ela provocou em diversas atuações como atriz de humor.

Numa sequência de dramas, Demi começou a década de 90 com o arrasa quarteirão Ghost e seguiu com Pensamentos Mortais, Questão de Honra, Proposta Indecente, Assédio Sexual, A Letra Escarlate, A Jurada e Striptease.

Dos anos 90 para os anos zero do novo milênio, Fernanda foi acumulando um sucesso atrás do outro com A Comédia da Vida Privada, Vida ao Vivo Show, As Filhas da Mãe, Os Normais, Sitcom.br, Casseta e Planeta Urgente e outros.

Um corte no tempo e estamos na festa do Globo de Ouro vendo Demi Moore e Fernanda Torres galardoadas pelas atuações no cinema; a primeira numa comédia de temática futurista e a segunda num drama de apelo retroativo.

A cobertura comemorativa da imprensa brasileira, que chegou a comparar a premiação de Torres a uma copa de futebol, impediu que muitas mulheres brasileiras percebessem a força feminista e feminina do discurso de Moore.

Dizendo-se chocada, lembrou que a chamaram de “atriz pipoca”, alusão aos êxitos de bilheteria e logo emplacou uma fala de pura resiliência, sentenciando que as mulheres nunca devem se deixar medir; “quebrei minha régua”, disse.

Já o discurso de Fernanda foi a incorporação do perfil da personagem real, mãe do escritor Marcelo Rubens Paiva que fez da carreira literária um trauma panfletário pelo sumiço do pai há quase 60 anos durante o governo militar.

Violentada na adolescência e ridicularizada na profissão (ganhou várias vezes o Framboesa de Ouro de pior atriz), Demi Moore aos 62 anos se reergueu enfrentando o mercado e expondo as feridas do tempo com uma comédia.

Prestigiada em seu país, adotada afetiva e ideologicamente pelo atual governo, Fernanda, 59, encarnou a mãe do autor da obra que inspirou o filme e fez um discurso emotivo (pela mãe), político (pelo passado) e antigo (pelo drama).

 

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