Ney Lopes de Souza: Tudo ou nada, às vezes dá em nada

A indagação de como será o Brasil pós-coronavírus, envolve o rumo das relações entre chineses e americanos, na “guerra” pelo domínio da tecnologia 5G,

Neste jogo comercial, indaga-se o que ganhará o governo com as hostilidades do deputado Eduardo Bolsonaro, acusando as empresas chinesas de praticarem “espionagem cibernética”, sem nenhuma prova objetiva.

Sabe-se que o objetivo é atender o desejo do ex-presidente Trump, que “assusta” o Brasil, ao insistir com o afastamento da China do leilão brasileiro da 5G.

O trumpismo assemelha-se a velha estratégia do comandante-chefe da Alemanha Nazista, Hermann Göring, que “assustava” as pessoas e países para escravizá-los. O germânico confessou no Tribunal de Nuremberg: “Se consegues descobrir uma maneira de assustar, podes fazer o que tu quiseres”.

O vice-presidente Mourão, com sensatez, chamou atenção para o fato de que a China é inegável “potência global”, praticante de capitalismo de Estado e que suas empresas têm condições de participar do leilão do 5G.

Curiosamente, foi “escanteado” pelo presidente Bolsonaro, que em evento público, o desautorizou de alto e bom som, ao dizer que o assunto só pode ser debatido com ele e o seu ministro das Comunicações, Fábio Faria. Mais ninguém.  (Estado de 08.12.20).

A propósito, o presidente Bolsonaro repete Dilma Rousseff e Fernando Collor, ao afastar-se abertamente do seu vice Hamilton Mourão.

Não se trata de defender a China, mas não podemos “comprar briga desnecessária”. A solução é deixar o “livre mercado” resolver, ganhe quem ganhar. Em 2020, as nossas exportações para a China atingem US$ 101,7 bi de dólares. É história “para boi dormir” admitir que os chineses dependem das importações brasileiras de soja, carne, minério de ferro, açúcar e celulose.

Os chineses financiam projetos agrícolas na África e aumentam a produção de soja na Rússia e Ucrânia. Poderão “descartar” o Brasil a qualquer momento, que precisa colocar “as barbas de molho”.

O precedente é a Austrália, que após acusar Pequim de ter dado origem ao “coronavírus”, sofreu reação imediata, com a suspenção das vendas de cevada da sua maior exportadora de grãos, além de taxação em 200% do vinho australiano, que tem na China o seu principal mercado.

A “Conexis Brasil Digital”, que reúne as nossas maiores empresas em operação, pede “transparência” no processo de implantação do 5G, respeitado o princípio da “livre iniciativa”.

Advertem, que metade da infraestrutura das operações de 4G e o 3G, atualmente no país, é fabricação da Huawei, empresa chinesa presente em 170 nações. Caso prevaleça a exclusão dos asiáticos, os atuais equipamentos seriam jogados no lixo, elevando as tarifas finais para o usuário.

A chegada da 5G será negócio trilionário, chamado da “galinha dos ovos de ouro”, por envolver uma das maiores disputas geopolíticas e comerciais no mundo (EEUU e China). Somente no Brasil significa potencial de investimentos na ordem de US$ 1,2 trilhão de dólares, nos próximos anos.

Em matéria de relações comerciais, aplica-se o refrão “amigos, amigos; negócios à parte”. Trump não levou em conta a “amizade” com Bolsonaro, ao aumentar de 15% para 145% as taxas das empresas brasileiras exportadoras de alumínio.

O nosso governo, ao contrário, concedeu isenção de tarifas para 187 milhões de litros do etanol americano, que chegam ao Brasil. Cada dez litros desse combustível importado, nove vêm dos EUA.

O curioso é Trump estimular o Brasil no confronto com a China, enquanto dobrou a venda da soja americana para os chineses. Aliás, Fareed Zakaria, indiano, professor de Harvard, tem razão ao declarar que não acredita no agravamento das relações entre americanos e chineses.

Ele indaga: “Imagine se a China começar a vender os títulos do tesouro americano. O que vai acontecer? A economia americana vai decair, e quem vai comprar os produtos chineses? Ninguém. Então, a economia chinesa também entraria em colapso”.

A posição do deputado Eduardo Bolsonaro e seguidores poderá conduzir o nosso agronegócio ao colapso com a retração das exportações para a China.

Nunca é demais lembrar, que o “tudo ou nada, às vezes dá em nada”.

Sobretudo, diante de “indícios” e “suspeitas”, de que possa existir “algo por baixo do pano”, nesta disputa global pela 5G.

Olho aberto” é a recomendação!

Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal, professor de direito constitucional da UFRN e advogado