Murilo Melo Filho, Lacerda e crédito educativo

Ney Lopes*

Faleceu o jornalista, advogado e escritor Murilo Melo Filho. Conterrâneo do RN, que merece homenagens póstumas, pela sua vida ilibada, competência no jornalismo e letras nacionais.

Murilo foi “um repórter nato”, qualificação imprescindível para o exercício do jornalismo. Sempre o tive como Mestre, desde quando, aos 14 anos, iniciei-me na redação do jornal Tribuna do Norte, em Natal.

Depois, tornei-me seu amigo, através do irmão Hênio Melo, de quem fui aluno em curso de “iniciação a economia” nos anos 60 e também figura humana extraordinária. Já acadêmico de Direito, em plena efervescência do governo de João Goulart, fui ao Rio de Janeiro participar de Congresso Nacional da UNE.

Soube que Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, daria entrevista coletiva. O instinto do repórter excitou-se. Liguei para Murilo na redação da Tribuna da Imprensa e pedi que facilitasse o meu acesso à entrevista, como repórter do jornal A Ordem, de Natal.

Ele, com humildade e costumeira presteza, logo me orientou. No Palácio Guanabara, após quatro horas de espera e a sala cheia de jornalistas da grande imprensa nacional, surge a figura carismática de Carlos Lacerda, com óculos graúdos e olhar sisudo. Tive a audácia de sentar-me ao lado do governador, sob os olhares de repreensão dos “colegas”, munido de um gravador portátil, para divulgação na Rádio Rural, de Natal.

Lacerda colocou-se à disposição dos repórteres. Audaciosamente, apresentei-me como repórter de jornal católico, dirigido pelo bispo D. Eugênio Sales, que desenvolvia no Nordeste trabalho baseado na Doutrina Social da Igreja. Disparei a pergunta: “o que Sr. acha da ação da Igreja no plano social, inclusive fundando sindicato rurais?

Lacerda olhou-me fixamente e não hesitou em tentar nocautear-me, dizendo: “Jovem: a missão da Igreja seria a pescar almas. Porém, a Igreja está colocando “iscas sociais” na ponta do anzol e tem se preocupado mais com as “iscas”, do que com os peixes”.

Todos riram, mas não me perturbei e fiz outras perguntas. O “furo” (com foto) saiu na primeira página da “Ordem” e a gravação divulgada na Emissora de Educação Rural. Uma vitória, que devo a ajuda recebida de Murilo Melo, com quem estive depois e ele riu muito, da forma como me comportei na entrevista.
Novo encontro com Murilo foi em Brasília, já quando exercia o mandato de deputado federal.

Em 15 de abril de 1975 propus o projeto de lei nº 274/75, a origem no Brasil do “crédito educativo”, que favoreceu milhares de estudantes carentes das Universidades públicas e privadas, atendendo as despesas básicas de sobrevivência, como lazer, livros, alimentação, vestuário, habitação, transporte.

Murilo me procurou espontaneamente e disse que lhe mantivesse informado, pois desejaria divulgar a minha proposta, por considerá-la inovadora e de alcance social Assim o fez na sua conceituada coluna nacional da revista Manchete (“Posto de escuta”),

Dias depois, recebi telefonema do então ministro da Educação, senador Ney Braga, que declarou: “li na coluna de Murilo Melo informação sobre a sua proposta. Venha ao Ministério, que vamos implantá-la a “quatro mãos”.

Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal e advogado – @blogdoneylopes.com.br

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