Minha Amiga Angélica Timbó

Gutenberg Costa – Escritor e folclorista.

Gutenberg Costa, Angélica e Celso da Silveira, no IHGRN. Arquivo: Gutenberg Costa.

A linda canção ‘Contra Senso’ de Martinha e Milton Carlos, cantores e compositores do meu tempo, diz tudo sobre uma grande amizade: “Se quiser uma palavra amiga, eu vou… se é pra falar de coisas boas, eu vou… só não quero que me faça lembrar, coisas que eu quero esquecer…”. Isto para dizer que amizade boa não precisa mandar todos os dias aquele ‘bom dia, boa tarde e boa noite’ já fabricado e pronto do Zap e Face. Um encontro alegre de vez em quando para um bate papo regado a café e risadas resolve até anos de desencontros e ausências. Uma lembrança trazida com carinho de uma viagem, vale mais do que mil ‘bom dia’. Sou mesmo retrógado e saudosista com os afetos do passado. Das velhas cartas. Dos encontros nos bares, nas feiras e mercados. Das conversas de calçadas e alpendres sertanejos.

Hoje, são pouquíssimos os que perguntam como vai sua saúde e sua paz? Sua mente, seu espírito e o seu bolso? Mesmo sem ter automóvel (até porque nunca quis dirigir) e casa de praia com piscina, ainda tenho boas amizades que já ultrapassam meio século. Bem antes dos dois citados Face e Zap. Amigos ainda do tempo saudoso do Grupo Escolar Professor Clementino Câmara, o qual ficava entre meu Alecrim e Barro Vermelho. Eita, que saudades!

Gosto muito de uma frase da grande Cora Coralina, a quem outro grande, o poeta Drummond, a chamou de a maior riqueza de Goiás: “Os olhos enxergam toda a beleza de uma pessoa, mas é no coração que está o valor de cada uma delas!”. Há pessoas que a generosidade e a amizade duradoura são as marcas principais do coração. Quando partem e se encantam deixam-nos muitas saudades! E o resto é resto!

E por falar em coração, quem me conhece não sugere temas para meus escritos. Nunca escreverei forçado. Mas, hoje, venho prestar minha gratidão a antiga amizade que tive com a amiga escritora Angélica Timbó. Ainda perdurará o que nos era agradável. Coisas e amizades boas ultrapassam o tempo! Principalmente, os amigos e amigas que estejam ‘encantados’ ou ‘encantadas’ e têm presença diária com seus livros em minha biblioteca. São fiéis ‘habitantes’ de meu mundo, como diria o saudoso escritor Américo de Oliveira Costa. Sempre estou a abri-los, relê-los e conversar com os mesmos. Não importando o tempo em que partiram desta. Continuam vivíssimos e vivíssimas em suas gentis dedicatórias livrescas a mim dirigidas. A um ditado judaico que afirma uma pura verdade: “Os únicos mortos de verdade, são os que foram esquecidos!”.

Conheci Angélica na redação do finado semanário jornal De Natal da Alexandrino de Alencar. Ali, eu tinha uma coluna semanal e ela sempre colaborava com o mesmo e aparecia por lá com seu sorriso fácil, franco e amigo. Os anos foram se passando e costumeiramente a encontrava nas solenidades do nosso Instituto Histórico e Geográfico do RN. Eu como sócio efetivo desde 1997 e depois diretor das administrações de Enélio Petrovich e Jurandir Navarro. Ela, sócia benemérita, com toda justiça, pois fizera um gesto muitíssimo raro no RN: doara um histórico casarão a citada entidade. Espaço que bem poderia ter seu nome de agora em diante. Um dia lhe perguntei o porquê dessa doação e, sorrindo, resumiu sua resposta: “Gutenberg, eu vi muitas doações no passado as entidades culturais e históricas quando morei nos Estados Unidos e Europa!”.

Infelizmente, o nosso Brasil e o Rio Grande do Norte, são ainda exemplos maldosos de ‘demolição’ ou ‘venda’ de históricos imóveis por parte de seus herdeiros. Depois da missa de trigésimo dia, é exceção permanecer o deixado pelos que se vão. Que desgraça cultural deixaremos como legado aos nossos netos!

Angélica, foi a primeira amiga a me falar da cidade de Nísia Floresta com alegria e afeto. Abriu-me sua casa para cafés e conversas. Nunca se referiu a alguém que não o fosse para falar de bem. Nada de inimigos ou queixas com ninguém. Sua morada ficava bem próxima a Igreja de Nossa Senhora do Ó, nossa padroeira. Quando me viu perto do velho Baobá e soube por mim que eu já havia comprado duas casas na sua Nísia Floresta, ficou muito contente. Traçou inúmeros planos culturais para o futuro, mas a desgraceira da pandemia logo nos atrapalharia. Ficamos enfurnado em nossas casas.

Vez por outra, nos encontrávamos no centro de Nísia ou nos ônibus com destino a Natal. Já ambos mascarados, mas nada que impedisse rápidas conversas. Nunca me falou em doenças ou tristezas. E é assim que a quero lembrar sempre. Com seus olhos azuis e seu sorriso franco e amigo. Acho que a verdadeira amizade tem que ter gosto de um bom café coado no pano e conversas com risadas. De alegrias nas festas e solidariedade nos momentos difíceis. Digo as minhas filhas e netos que aprendi com minha mãe, dona Estela, a transferir a grata amizade aos filhos e netos dessas.

Sabemos que o que é verdadeiro e bom se perpetua e o que é ruim, logo se dissolve feito gelo ao calor do sol. Um dos meus preferidos cronistas, também um já ‘encantado’, Rubem Alves, em sua crônica intitulada ‘A ética angelical’, diz que aprendeu em seu catecismo aos sete anos a seguinte oração: “Eu quero ser um anjo, um anjo do bom Deus, e imitar na terra os anjos lá dos céus…”. O citado Rubem, quando velho e perdendo muitos amigos e amigas do coração, começou a plantar em seu sítio para homenagear a cada um desses, uma árvore. Vou imitar o referido espiritualista escritor mineiro e começar agora com uma roseira bem simples e de flores azuis bem sorridentes, para lembrar sempre que for ver meu jardim dos sorrisos da grande amiga Angélica!

A amiga Ana Angélica Timbó, a qual só veio fazer o bem entre nós e imitar os anjos das antigas e fraternas amizades, chegou em 23 de outubro de 1959 e partiu recentemente em 23 de agosto de 2021. Ela foi dessas poucas que, com sua alegria e simplicidade, nos transbordou com angélicos gestos, tão exemplares, de bondade e amizade para os dias de hoje!

E como nas saudosas cartas escritas as amigas que estavam longe de nós, eu encerro essa missiva emocional assim para você aonde quer que estejas: ‘tá aqui um pouco de minha gratidão a sua antiga amizade, minha amiga. Nem deu tempo para as despedidas. Como diz o Rolando Boldrin, ‘você partiu fora do combinado’. E por todos os sonhadores e sonhadoras culturais do RN, iremos continuar a sua luta! Saudades!

 

Setembro. Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.