A resistência de Mossoró se limitou a conter Lampião?

Márcio Costa – What’s poha is Lampião?

Márcio Costa – What’s poha is Lampião?

Outro dia me vi injuriado.  Uma amiga “super da moda”, e antenada, ouviu falar sobre a cantora Cindy Lauper e perguntou de quem se tratava. Quê? Como? Hein? Em que mundo você vive? Não estamos falando de Solange Almeida, mas de uma das hitmakers mais importantes e conhecidas da história da música mundial.

Dominado por uma ira típica de quem não aceita retrocesso na visão da sociedade sobre as “evoluções” do quilate de Aldair Playboy, adentrei a redação do jornal chutando o vento.

Então diretor, Cid Augusto com sua paciência de monge que medita no lombo de uma jumenta desembestada, indagou o porque da minha insatisfação extrema. “Amigo, eu pensava como você, até meu avô dizer que eu não era obrigado a saber quem era Nelson Gonçalves. Cada época tem seus ritmos, e ídolos. Está é a realidade”.

Tem momentos que o óbvio não é visto a um palmo das ventas. Mas a colocação de Cid fazia sentido. Minha amiga “super antenada” podia até gostar de Cindy Lauper, mas nada obrigava saber quem era, muito menos gostar.

Isso não significa que este cenário seja o ideal. Esta semana me vi a refletir sobre os fatos que cercam nossa pobre cidade. Onde diabo nos metemos? No fim da década de 1990 presenciei pela brecha da janela da minha casa uma guerra de gangues numa rara noite marcada por chuva e frio em Mossoró.

A guerra travada por facções inimigas ocorreu no fim da rua Delfim Moreira, no Abolição I. Mesmo com os joelhos se lascando de bater um no outro e escondido como um coelho dentro de uma cartola mágica, não perdi a oportunidade de acompanhar o confronto campal que tinha como arsenal: pedras, pedaços de pau, e a arma mais moderna, uma corrente de bicicleta.

Não se passou muito tempo, ainda assisto Simpsons e jogo Video Game, mas no último sábado nos deparamos com a informação de que um baile funk havia sido interrompido com tiros de pistola, fuzis e escopetas que de longe lembram os cheichos de pedra que cruzaram a rua Delfim Moreira numa noite da década de 1990.

Semanas atrás a inteligência da polícia descobriu que bandidos invadiriam Mossoró para limpar os cofres dos bancos que efetuariam o pagamento do salário antecipado aos servidores do município na véspera do carnaval.

A ameaça não se concretizou, mas nada livra a cidade de passar por um vexame desta ordem em pleno ano de 2017, onde carros deveriam voar, e homens deveriam se alimentar exclusivamente de cápsulas nutritivas.

Valhei-me Padre Motta, “Vixe Maria”, Rodolfo Fernandes, vão invadir Mossoró!  A cidade onde cidadão de bem é chamado de vagabundo por bandidos, e carros fortes viraram carros fracos num cenário que leva a reflexão? Até quando? Até onde?

Mossoró que se vangloria, e tem como principal marca cultural, e social, o episódio que resultou na expulsão do bando do Lampião na base da bala, começa a ter a certeza de que em pouco tempo a história que cerca o cangaceiro será apenas mais uma Cindy Lauper da vida.

Num tempo onde crianças andam armadas com escopetas e acertam suas diferenças explodindo cabeças, qual a importância será dada a um episódio que marcou época pela resistência de uma sociedade que de longe lembra o atual momento de desmoralização e terror coletivo em que vivemos?

Estamos perdidos, e cada dia mais perdidos. Afinal de contas, o que impedirá de escutarmos com a banalidade que equipara o preço de uma vida ao custo de uma pedra de crack, uma frase emblemática que colocará por baixo o peso de uma sociedade que parecer ter esquecido as glórias do seu passado.

A resistência de Mossoró se limitou a conter Lampião?

Afinal de contas, diante da realidade que vivemos, What’s poha is Lampião?