Laíre Rosado: SOBRE TRISTEZA, SAUDADE E ALEGRIA

Hoje é um dia de alegria. Meu filho, Vingt Rosado Neto, completa 44 anos. Mesmo não estando entre nós, a alegria não se perdeu, até pelo que ele sempre representou para os pais e irmãos. É um esforço permanente para que a saudade seja substituída por lembrança de tudo de bom que vivemos, do nascimento, até a partida sem retorno.

Em nossa família, a dor é imensa. Tenho consciência que esse é um acontecimento diário, entre milhares de famílias. Por ser um sentimento estritamente pessoal, não pode ser compartilhado com outros. Há pessoas solidárias que se manifestam constantemente. Elas podem imaginar a dor, mas senti-la, é uma situação muito pessoal.

Lembro das palavras do amigo Lázaro Paiva, durante o velório. Alertou-me que a dor seria permanente e renovada a cada morte do filho de algum amigo. É o que realmente acontece. Aprendemos a apoiar emocionalmente os que sofrem quando passam pela mesma situação. Uma desconhecida me abraçou e fez uma advertência: meu filho morreu há quarenta anos e ainda choro todo dia.

Em minha “casa”, a morte do meu irmão Laírson Rosado, aos 29 anos, foi meu primeiro choque nessa área emocional. Além de irmão, nosso relacionamento era como entre pai e filho. Minha mãe não aceitava a perda do filho. Certa vez, Sandra me alertou: tia Francisca começou a morrer com a partida do filho.  E era verdade. Outra preocupação era o meu pai, calado, introvertido, sofrendo em silêncio, ao contrário de minha mãe, que chorava 24 horas, todos os dias, extrapolando seu sentimento.

Veio o inexplicável. Meu filho também partiu. Num instante em que vivíamos plena felicidade. Então, por que isso? São os desígnios de Deus, dirão os religiosos. Mesmo assim, por que com um dos meus, é a pergunta de todos que passam por essa situação.

Bom, 44 anos do nascimento, 20 anos da partida. Pode ser que alguma coisa mude, mas a saudade sempre será a mesma. Pior ainda, será eterna. O cantor Eric Clampton, que perdeu um filho com apenas 4 anos de idade, mudou totalmente sua vida, como acontece com a maioria dos que passam por essa situação. Compôs uma música que representa a grande dúvida de todos que perdem entes queridos, Tears in Heaven. Questiona se no dia em que morrer encontrará seu filho no paraíso. Em isso acontecendo, será que o filho o reconheceria?  Ainda saberia o seu nome?

Bem, eu não preciso chegar ao paraíso para encontrar meu filho, pois estou com ele todos os dias. Com Sandra, tenho um relacionamento onde um ajuda ao outro. Sem falar nos nossos filhos, que fazem de tudo para dizer, estamos aqui!

A presença física de Vingt entre nós, hoje, seria motivo de muita festa, de muita de alegria, de acordo com sua maneira de ser. Tinha facilidade de cativar a todos, sem exceção. E, mesmo de longe, continua a exercer essa influência, enchendo-nos de alegria. Seu riso largo, espontâneo parece estar sempre dizendo aos pais, sorriam, estou aqui com vocês. E eu sei que isso é verdade.