Invisibilidade social: o que falta para o poder público enxergar?
Quantos Eduardos são mandados embora?
A crueldade de quem não consegue enxergar o ser humano e foca apenas em seus próprios interesses é uma das realidades mais dolorosas que enfrentamos. Essas pessoas passam por cima de outras como se fossem obstáculos insignificantes, desprovidos de qualquer empatia. As vítimas são, muitas vezes, pessoas simples, que vivem à mercê da sorte e da misericórdia daqueles que conseguem enxergá-las.
Semana passada, refleti sobre a invisibilidade social ao escrever em meu Instagram sobre Eduardo, que estava fazendo morada às margens da BR 304, perto do Hotel Thermas. Sem teto, mas com um sorriso que irradiava uma alegria de viver, ele seguia em sua jornada a pé rumo à Guiana Francesa. Sua resiliência me fez reconsiderar as dificuldades que achei que já tinha vivido. Hoje, porém, fui surpreendida por uma cena devastadora: Eduardo e as poucas coisas que ele havia reunido para construir sua “casa” estavam reduzidos a cinzas. As pessoas que deveriam ter compaixão ordenaram que ele saísse dali e, como se não bastasse, queimaram seus pertences, deixando apenas uma mala com algumas roupas.
Perguntei a Eduardo como ele se sentia diante de tanta crueldade, e sua resposta, com o mesmo sorriso de sempre, me surpreendeu profundamente: “Vou seguir viagem mais cedo. Minha esposa teve um bebê anteontem e agora tenho mais um motivo para apressar o passo. Quem pensou que estava me fazendo um mal talvez tenha me feito um bem. Deus não falha”.
Aquela resposta me quebrou. Eduardo, que perdeu tudo de novo, encontrou na tragédia um motivo para seguir com esperança. Saí dali aos prantos, tentando encontrar uma forma de ajudá-lo a chegar ao Oiapoque, o ponto mais próximo da Guiana Francesa. Liguei para a rodoviária, mas não consegui informações.
Agora, só me resta orar para que Deus seja o guia de Eduardo nessa jornada, levando-o com segurança até sua família. Ele, como tantos outros invisíveis, continua a me ensinar lições sobre fé, resiliência e sobre a verdadeira essência da humanidade, que muitos infelizmente esquecem.
@joycemourarealize