EM NOME DE JESUS

NILO EMERENCIANO - Arquiteto e escritor

Tenho saudades da religiosidade simples de antigamente. Missa aos domingos. O anjinho de louça que balançava a cabeça agradecendo as moedas do óbolo.  O aroma de incenso. As belas expressões em latim. Dominus vobiscum. Et cum spiritu tuo. Os hinos. Os bancos da Igreja do Bom Jesus das Dores e as placas com os nomes das famílias. A mochila da coleta. O mistério da semana santa, os santos cobertos de roxo dando um ar fantasmagórico ao templo. O jejum rigoroso seguido pela ceia de páscoa. As mulheres de mantilhas e terços nas mãos. As beatas. Os homens na calçada conversando política e futebol. Minha mãe orando, contrita, lembrando os versos que havia na parede da casa do meu avô: eu vi minha mãe rezando/aos pés da Virgem Maria/era uma santa escutando/o que a outra santa dizia. E ao fundo, acima do altar mor, a imagem de Jesus de braços abertos na cruz e olhos voltados para o céu.

Em nossos dias é comum a existência de várias formas de expressões religiosas (não confundir com os movimentos de renovação surgidos dentro das religiões tradicionais). A maioria dessas práticas, mesmo as que carregam conotações orientais, teve a sua origem nos EUA ou ali se fortaleceram, cresceram e passaram a ser exportadas. Tudo começou na agitação sociocultural dos anos 1960, quando os jovens da contracultura buscaram inspiração nas religiões orientais de perfil místico-contemplativas, como o budismo ou o taoísmo. Os mais velhos lembram os Beatles em torno do guru indiano Maharishi ou o som maravilhoso da cítara de Ravi Shankar no Festival de Rock de Monterey (1967) frente uma multidão de jovens encantados. Aliás, registre-se, os artistas se apresentaram de graça para mais de duzentos mil pessoas, destinando a renda a instituições filantrópicas. Era o verão do amor.

Em nosso tempo de incertezas e desencanto, violência em todos os níveis, desemprego, corrupção, criminalidade e tráfico de drogas, chama a atenção esse crescimento paradoxal das ofertas de caráter religioso. Há, por exemplo, uma forma pasteurizada de Cabala, que tem como seguidoras mais ilustres a cantora Madonna e a atriz Demi Moore. Tom Cruise e John Travolta, por sua vez, são adeptos de uma estranha seita chamada Cientologia, que cultua o deus Xenu. Esses movimentos, menos que religiões, são na verdade formas sincréticas, reunião de velhas doutrinas e práticas religiosas. Mas há também a proliferação de líderes espirituais com acesso à TV e redes sociais, com crescente envolvimento na política. Em comum o foco mantido nos rituais e técnicas de autoajuda, nos milagres e curas, mais do que no desenvolvimento de uma ética de moralidade e de espírito fraterno.

Esses “gurus” em sua maioria oferecem uma práxis utilitária: a busca do sucesso, da saúde física, do poder aquisitivo, da felicidade a todo preço. O discurso é parecido: “Você é o mais importante. Você tem a força. Você tem que ser feliz. Você pode. Você faz. Seja um vencedor. Siga em frente e vença na vida”. E vamos acenar com as nossas carteiras profissionais abertas rogando as graças do Deus Altíssimo.

Ora, se o foco é a individualidade e o sucesso pessoal, dá pra concluir que esse tipo de pregação pode aumentar o amor próprio e a autoestima, mas enfraquece de forma poderosa o possível chamado à prática de uma ética fraterna e regras morais altruístas e de caráter universal.  O resto é consequência: omissão, apatia, passividade, irresponsabilidade moral. “Nada disso aí é comigo”. Sem uma ética de solidariedade o mal se instala no vácuo deixado pela ausência do bem.

As consequências são evidentes. Chacinas são chamadas de faxinas. As agressões violentas às mulheres, gays, pobres e até crianças, o desrespeito às diferenças. Tudo se tornou uma triste rotina. Em junho passado, um adolescente queimou uma mulher transexual em Recife. Crianças são torturadas e mortas às vezes pelos próprios pais.

Alguns, apesar do discurso religioso, estimulam a disseminação do uso de armas e demonstram criminosa indiferença frente ao genocídio praticado em nosso país. “Serei coveiro”? “Todos vão morrer um dia”. Sem falar dos que, como vampiros, tentam fazer da pandemia um evento lucrativo como tem mostrado a CPI. Um lucro sangrento. Lucro no luto. Lucro na morte e na dor. Lucro sobre mais de meio milhão de covas.

Essa ação quando processada recai finalmente, num efeito dominó, sobre nós próprios e sobre toda a sociedade. O resultado final é impossível de adivinhar, mas podemos, pelo menos, ter certa noção ao ouvir no ar o barulho das asas dos abutres que se precipitam, sedentos, sobre nós.

NATAL/RN

Imagem de J F por Pixabay