Domício Arruda – Reflexos da Vida

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Muito pouco se fala de um certo tipo de preconceito.

Quem nunca foi chamado de paraíba, baiano ou nortista é porque nunca esteve pr’as bandas do sul maravilha.

Se não há movimentos, ninguém se reúne em concentrações ou segue passeatas de protesto, é que todos que saíram das suas terras adoradas têm um único propósito.

Um dia, eu chego lá.

E volto pra contar como é bom, aqui.


(Publicação original em 09/08/2019)

ESPELHOS DE FAMÍLIA

Parque Guinle.

Um dos mais charmosos lugares do Rio, foi residência da família que deixou marcas na vida social, econômica e cultural da ex-capital.

Imigrantes franceses que souberam fazer o mundo novo no início do século XX.

Banqueiros e industriais, dos mais bem sucedidos. Ao falecer em 1914, o patriarca Eduardo tinha um patrimônio avaliado em mais de 10 bilhões de dólares.

Fundadores da Companhia Docas de Santos e do Fluminense Football Club.

Seus empreendimentos mais icônicos, o Hotel Copacabana Palace e as conquistas amorosas de Jorginho, o playboy do clã, com fama de Casanova e no curriculum, Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Jane Mansfield, Kim Novak e outras não menos desejadas.

Sob a batuta de mestres do naipe de Lúcio Costa e Burle Marx, o espaço unifamiliar foi dividido.   

A mansão, projetada por arquiteto francês, virou o palácio e residência do governador.

Décadas e muitas propinas depois, quem iria imaginar, seus mais recentes inquilinos trocando o aristocrático endereço por outro, igualmente afamado, em Bangu.

Cabral e Pezão têm lá seus motivos para as mudanças.

Nos jardins,  surgiu um sofisticado empreendimento imobiliário do mais alto padrão e bom gosto.

Nos anos 40 um paraíba de Caruaru fez fortuna. Com muito trabalho e uma lojinha de couros na Senhor dos Passos.

Seu negócio, comerciar os produtos dos curtumes dos irmãos, igualmente prósperos, em Campina Grande e Natal.

Casado com moça tijucana da gema (tia de Sérgio Mendes), seguiu seus conselhos e o tino comercial para investir  na compra de um apartamento dos sonhos na bucólica Laranjeiras.

Em um dos seis prédios em estilo neoclássico erguidos no sopé de morro, entre exuberantes árvores, olhos d’agua, riachos e jardins. Das mais exclusivas e luxuosas moradias da elite carioca.

Com o baita ap e flanando de  mercedes, não tinha como não ser o exemplo mais eloquente e invejado de migrante vitorioso.

O irmão caçula, depois de enfrentar penosa viagem de seis dias, em boleia de caminhão, também chegou ao paraíso.

Para curta temporada. Hóspede do magnata dos couros e tanantes.

Depois de desfrutar dos melhores passeios, restaurantes e espetáculos dos teatros de revista, muito a contragosto retornou ao agreste pernambucano e todas as dificuldades da vida dura de campesino.

Nada que pudesse se comparar com a do primogênito da prole de vinte e quatro nascidos e treze sobreviventes.

Dos parentes, ávidos por notícias, das novidades da cidade grande e de quem estava se dando tão bem de vida,  no meio de um garajal de perguntas, a óbvia.

O que o tinha impressionado mais.

Ninguém esperava que tivesse sido o banheiro da suíte onde foi cinderelo por uma semana.

-Era tanto espelho, tanto espelho que quando terminava o serviço, não sabia qual furico limpar primeiro.

Domício Arruda é médico e jornalista

Território Livre – Tribuna do Norte

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