General view of Paraisopolis shantytown, the town's second biggest, in Sao Paulo, Brazil, on July 26, 2012. AFP PHOTO/Yasuyoshi CHIBA (Photo by YASUYOSHI CHIBA / AFP)

Condições precárias de moradia dificultam isolamento vertical nas periferias

De forma auto-organizada, moradores das regiões periféricas da cidade de São Paulo (SP) estão desenvolvendo estratégias para brecar a contaminação pelo novo coronavírus nas comunidades. Das 35 mortes registradas em todo o país até esta segunda-feira (23), 30 ocorreram na capital paulista.

Cláudio Aparecido da Silva, morador da comunidade Monte Azul, localizada no Jardim São Luiz, zona sul da cidade, conta que a organização entre os moradores se deu por conta da falta de informação e conscientização nos territórios periféricos.

Foi então que surgiu a ideia de criação do Comitê Popular de Enfrentamento a covid-19 – Jardim São Luiz, que hoje conta com diversos voluntários espalhados pelo distrito.

“As maiores vítimas dessa pandemia vão ser os mais pobres. As pessoas que têm pouco ou quase nenhuma informação efetiva. E aí achamos que seria legal tentar prestar apoio às famílias mais vulneráveis, como pessoas com doenças crônicas e idosos, e também às famílias carentes”, afirma Silva.

As maiores vítimas dessa pandemia vão ser os mais pobres. As pessoas que têm pouco ou quase nenhuma informação efetiva.

Conhecido como Preto Claudinho, o morador expressa preocupação com a situação dos trabalhadores informais em meio à pandemia da doença respiratória. “Sabemos que quem é carente e vive de forma autônoma, quem vive de carregar entulho, quem vive de cuidar de carro em feira, de vender bala no farol. Essas pessoas são muito pobres e estão sendo proibidas de circular. São famílias de até 8 filhos aqui no nosso bairro. Vai chegar um momento que elas não terão o que comer”.

::Favelas do Rio sofrem com falta d’água e população fica mais vulnerável a coronavírus::

A ida ao mercado, à farmácia, à feira e ao sacolão, agora, está ao encargo dos representantes do Comitê, que também tem recebido e distribuído doações de produtos essenciais.

“Resolvemos nos organizar no sentido de fortalecer esse povo. Colocamos nossos carros à disposição para poder fazer compras e qualquer coisa que exija circulação para essas pessoas mais vulneráveis e estamos organizando campanha de arrecadação de alimentos e produtos de higiene”, diz Cláudio, acrescentando que o grupo também tem produzido materiais de conscientização com as dicas de prevenção contra o coronavírus por meio do Whatsapp e cartazes nas comunidades.

Água

Uma dificuldade que vem sendo enfrentada há anos pelos moradores da favela Monte Azul, segundo denuncia o Comitê, é o corte de água no período noturno, o que impede a higienização correta dos moradores, contrariando indicações do Ministério da Saúde e aprofundando os riscos de transmissão.

Para interromper o racionamento a comunidade organiza um abaixo-assinado que será enviado para a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).


Moradores recolhem assinaturas contra o corte de água em meio à pandemia do coronavírus / Foto: Arquivo Pessoal

Procurada pela reportagem do Brasil de Fato, a empresa alegou que não há nenhum registro de falta de água distrito São Luiz e que o abastecimento dos 373 municípios atendidos em São Paulo funcionam normalmente.


Situação acontece há anos em regiões do distrito do Jd. São Luiz / Foto: Arquivo Pessoal

Por toda a cidade

A criação de comitês populares também foi colocada em prática na favela de Paraisópolis, uma das regiões mais carentes e vulneráveis de todo o estado de São Paulo. Estima-se que mais de 100 mil pessoas morem no local, lidando cotidianamente com problemas estruturais e de saneamento básico.

De acordo com Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, os moradores batalham contra o medo e lidam com a desconfiança da possibilidade do coronavírus de fato chegar a região, o que já aconteceu.

Conforme relata o líder comunitário, já são cinco casos de infecção pelo coronavírus confirmados em Paraisópolis. Duas pessoas estariam internadas no Hospital Campo Limpo.

Com os números crescentes de contaminação, os representantes dos comitês populares  têm se doado ao máximo para fortalecer o enfrentamento à pandemia.

“É uma rede de voluntários e moradores que se auto ajudam. A cada 50 famílias, um morador voluntário vai ajudar no processo de conscientização, garantir que essas pessoas não saiam de casa. Garantir que cheguem os materiais necessários que são doados e garantir um monitoramento em uma eventual situação em que a pessoa fique doente”, diz Rodrigues, que, com após uma grande articulação, conseguiu garantir duas ambulâncias para atender qualquer emergência com os moradores da Paraisópolis.

Questionados sobre o que fomenta as articulações e dedicação dos integrantes dos comitês neste momento de crise, a resposta é unânime: a solidariedade.

Preto Claudinho, do Jardim São Luiz, reforça que não é possível saber quando a pandemia irá passar, e, se for cada um por si, a luta e as dificuldades serão ainda mais difíceis.

“Se conseguirmos unir nossas forças e suprir a necessidade um do outro, seja ela de informação ou de comida no prato, vamos conseguir ter mais condição de enfrentar e superar essa crise. Quem tem um pouquinho mais vai ter que ajudar quem não tem nada. Essa crise é uma crise para vencermos abraçados. Vamos ter que se juntar, todo mundo dar as mãos e superá-la”, defende.

Se conseguirmos unir nossas forças e suprir a necessidade um do outro, seja ela de informação ou de comida no prato, vamos conseguir ter mais condição de enfrentar e superar essa crise.

E o Estado?

Na avaliação das lideranças comunitárias ouvidas pelo Brasil de Fato, as políticas públicas para o enfrentamento à pandemia são insuficientes e não chegaram às periferias, deixam aqueles que mais precisam ainda mais vulneráveis.

Cláudio reprova, por exemplo, a campanha de vacina da gripe em todo o município iniciada nesta segunda (23), com prioridade para os idosos, justamente o grupo de maior risco quando se trata do coronavírus. Ele indica ainda que o uso das equipes de saúde da família, do Sistema Único de Saúde (SUS), seria uma ação muito mais segura do que sujeitar os idosos à se locomoverem aos postos de saúde.

Ele também critica as atitudes tomadas em nível federal. “O presidente [Jair Bolsonaro] primeiro autorizou os patrões a cortar os salários e agora está autorizando os patrões a suspenderem os contratos de trabalho. As pessoas mais pobres estão ficando ainda mais vulneráveis pelas mãos do governo”, declara. “Os mais dependentes do Estado, para quem ele mais deveria funcionar nesse momento, estão ficando a quem da presença do Estado”.

As pessoas mais pobres estão ficando ainda mais vulneráveis pelas mãos do governo.

Gilson Rodrigues cita que, em meio à crise causada pelo coronavírus, muitas diaristas estão sendo dispensadas do trabalho e estão “sem um tostão na mão”. Em resposta ao triste cenário, o presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis argumenta em defesa da ampliação de programas de distribuição de renda com prioridade para as comunidades periféricas.

“O governo deveria criar uma política pública específica para a favela, garantindo que os trabalhadores do serviço doméstico pudessem ter o que comer, oferecendo alimentação, garantindo que as pessoas tivessem acesso à materiais de higiene como álcool gel e máscara, e garantindo uma renda”, comenta.

Comunicação local

Desde que o coronavírus chegou ao país, não há outro tema nas televisões, jornais, revistas e na internet. Mas, será que de fato todos os brasileiros estão acessando as informações necessárias para combater o coronavírus?

Segundo comunicadores populares e periféricos que recentemente formaram a Coalizão de Comunicadores da Periferia contra o Coronavírus, mesmo sendo as mais afetadas, as periferias ainda não conseguem debater, participar e se informar do modo que realmente é necessário sobre a pandemia.

Moradora do bairro Brasília Teimosa, em Recife (PE), Ingrid Farias, integrante da frente #CoronaNasPeriferias, acredita que para disseminar as práticas de prevenção é preciso que a comunicação tenha outra forma de linguagem e seja mais acessível.

“É pensar como fazemos uma linguagem que não gere pânico nas pessoas de periferia mas que consiga dialogar com elas a partir de seu contexto sobre a importância e a urgência desse momento que vivemos”, afirma Ingrid.

Ela acrescenta que, como o sudeste concentra os casos, e, especialmente pela cultura de regionalização da informação, várias comunidades no nordeste estão sem acesso às notícias diárias locais que atualizem como a contaminação está se dando na região.

“Ainda existe uma necessidade grande, especialmente dos moradores de periferia, de receber informação direta sobre a situação. Ontem, por exemplo, domingo, que é dia de feira, ainda vimos muitas aglomerações de pessoas, muitas pessoas idosas andando nas ruas. Estamos com um grande desafio que é como chegar à comunicação dessas pessoas, onde a comunicação formal infelizmente não chega”, lamenta.

Em manifesto publicado recentemente, a Coalizão Nacional de Comunicadores da Periferia contra o Coronavírus reforçou que, a exemplo do que passa o Jardim São Luiz hoje, muitas favelas não possuem acesso contínuo à água em todo o Brasil para, ao menos, lavar as mãos.

Ingrid complementa que a falta de água nas comunidades de Recife, entre elas Peixinhos, Alto do Sol Nascente, Água Fria e Jaboatão, é constante, especialmente nos morros.

“É muito hipócrita da nossa parte chegar na comunidade e dizer para que lavem as mãos o tempo inteiro sendo que eles não tem nem água. Muita gente compra água mineral pra se alimentar e cozinhar. É também esse lado perverso de como a situação epidemiológica do Brasil gera ainda mais o aprofundamento da desigualdade”, avalia.

 

Brasil de Fato

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