Como O Mossoroense me acolheu e mudou a minha vida

William Robson

Em verdade, sou jornalista há mais de 20 anos e nunca trabalhei no jornal O Mossoroense. Porém, a minha relação com o mais que centenário jornal vem de antes do meu início profissional em 1995 e, não fosse isso, muito provavelmente, a minha história seria outra. O Mossoroense não foi o meu primeiro local de trabalho, foi o primeiro jornal que me acolheu com muito carinho. Por esta razão, meus primeiros passos como jornalista já traziam o DNA de O Mossoroense no sangue.

Lembro que minha paixão pelo jornalismo começou quando ainda era adolescente, ao buscar encalhes do jornal Folha de S. Paulo que chegavam em Mossoró com dois dias de atraso. Para mim, aquilo tudo era fascinante. Gostava de folhear as páginas, observar a padronização gráfica, a forma dos textos, as colunas, tudo era incrível aos olhos de uma criança. Mês a mês, minha casa se entulhava de jornais antigos da Folha e ninguém ousasse a mexer em  tamanho tesouro para mim.

Foi com a Folha que aprendi a escrever meus primeiros textos, incipientes, muitos deles de “cozinha”  (jargão jornalístico que significava refazer uma matéria com as suas palavras), nunca pretendendo que meus textos saíssem de casa ou alcançassem um jornal impresso. Para mim, sonho distante.

Sem máquina de escrever, utilizava uma emprestada do meu amigo de escola Antônio da Costa Bezerra, que morava na Lagoa do Mato, perto da minha casa, na Rua Joaquim Nabuco. Escrevia alguns textos e guardava. Até que um dia, meu tio, Paulinho Cordeiro,  gráfico com forte atuação no Rio de Janeiro e passagens por jornais de lá, foi convidado pelos diretores de O Mossoroense para consertar a linotipo da empresa. Para quem nunca ouviu falar, era com essas geringonças que imprimiam as edições diárias no final dos anos 80 em muitos jornais brasileiros.

Meu tio, que é mossoroense, voltava a Mossoró com esta missão: colocar a máquina para funcionar. E eu tive a oportunidade de mostrar meus textinhos inocentes para ele. Tio Paulinho olhou aquilo com uma atenção impressionante. E sugeriu que eu o acompanhasse em uma de suas visitas ao O Mossoroense. Isso, se a memória não me enganar, foi em 1989. Claro que aceitei e fui com muito entusiasmo. Imagine, ver os seus textos apresentados ao jornal não era pouca coisa para mim, um adolescente de 15 anos. Fui.

Chegando na redação, quem recebeu meu tio, eu e os meus textinhos sem futuro foi o editor do jornal, Gilberto de Sousa, que logo aceitou publicar alguns e pediu que eu continuasse escrevendo. Minha história com O Mossoroense começava com um voto de confiança a um menino e cuja ação repercutiu em minha vida até hoje. Meus textos se caracterizavam por misto de material reescrito da Folha e de outros jornais (passei a ver outros títulos que chegavam à redação) com opiniões sem fundamento. Mas, achava tudo aquilo o máximo e passei a frequentar a redação sempre que podia, só observando o pessoal trabalhar pela tarde inteira.

Sou o resultado da acolhida de O Mossoroense. Mas, vou revelar aqui, entre nós, que a intervenção do meu tio não significou a minha primeira visita à redação. Um ano antes, produzi uma revistinha sobre música com a máquina de escrever emprestada do amigo. Coloquei Prince na capa e dividia os textos em duas colunas de folha A4.

Como o diretor do jornal O Mossoroense era o então deputado Laíre Rosado, achei que seria uma boa pedir apoio do político para imprimir a revista, coisa de adolescente nonsense.  Mas, fui para a casa dele, mesmo assim, na Avenida Diocesana, uma residência enorme que tinha a impressão que tomava todo o quarteirão. Outras pessoas aguardavam para ser atendidas pelo deputado. E eu na fila, com minha revistinha de máquina de escrever.

Chegou a minha vez, apresentei a revista e recebi de Laíre uma “ordem”, uma espécie de bilhete de recomendação para que procurasse Luizinho em O Mossoroense. Saí de lá para o jornal, fui recebido por ele, mas a revista, logicamente, nunca foi impressa. No entanto, as portas do centenário jornal estariam, naquele momento, abertas para mim. E, por isso, eu prossegui.

Os anos se passaram. Atuei profissionalmente em outros jornais, na Gazeta do Oeste e no Jornal de Fato, ambos veículos que acreditavam em meus projetos e, como O Mossoroense, no sonhador. Formei-me em jornalismo logo em seguida, fiz mestrado e a vida jornalística, que começou com o centenário jornal, me levou a Florianópolis e Barcelona, onde tornei-me o primeiro doutor em Jornalismo do Nordeste, formado por uma universidade brasileira. E tudo começou no prédio da Travessa O Mossoroense.  Assim, a minha vida no jornalismo tem muito deste jornal.

Aproveito o aniversário de O Mossoroense para expor este testemunho e contar esta pequena história. Parabéns, parabéns, O Mossoroense, pelos 148 anos de histórias, de jornalismo, de formação de grandes jornalistas e de abrir suas portas para um infindo apaixonado por esta atividade.

William Robson é jornalista e doutor em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Também é professor do curso de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).