Como controlar o curral

Tomislav R. Femenick - Jornalista

Durante o período em que eu e minha mãe, que recém enviuvara, moramos na casa de meus avós, lá em Mossoró, eu vivenciei, como observador, um verdadeiro curso de como se fazia política no Brasil de então. E como eu aprendi, embora não tenha praticado “nadica de nada”. Vamos recordar o que acontecia em nosso país naquele período. Tínhamos saído do primeiro governo Vargas, quando aconteceu a pior ditadura jamais implantada por aqui, desde a nossa independência. O presidente da República era o Marechal Eurico Gaspar Dutra, que nada fazia sem antes olhar a Constituição, a qual tinha sido recém promulgada por uma Assembleia Constituinte.

O governo – Executivo, Legislativo e Judiciário – ainda estava instalado na cidade do Rio de Janeiro, que ostentava um DF, no final. Com muito orgulho, eu dizia para todo o mundo, os meus colegas de escola, de catecismo e do vesperal de domingo no Cine Pax, que eu tinha um primo que era deputado federal: Motinha, ou melhor, Vicente da Mota Neto.

Lá em casa o chefe político era minha avó, Dona Mariquinha, que era irmã do Padre Mota (ex-prefeito de Mossoró por quase dez anos) e tia de Motinha. Além disso, seu pai (meu bisavô) e dois outros seus irmãos tinham sido prefeitos da cidade. De política, o meu avô, José Rodrigues de Lima, somente tinha três posições: sorria quando era citado o nome de seu sobrinho, dizia “não gosto” sobre os políticos de quem ele não gostava e ficava calado sobre os demais. Dizia que fazer especulação sobre políticos era “disputar banana com macaco”.

Um certo dia, à tardinha, que não me lembro quando, um deputado estadual de uma cidade da região Oeste foi visitar meus avós. Estavam conversando em um banco de jardim, que ficava entre o roseiral lá de casa. Eu estava por perto e ouvi uma coisa inusitada: o meu avô fez uma pergunta sobre política. Perguntou ao deputado como ele conseguia ter tantos votos em eleições seguidas. “Fácil – respondeu o deputado. No dia da eleição, mando buscar o eleitor em casa, dou almoço e a metade de uma nota de vinte mil reis. No fim do dia, peço o título para vez se ele votou. Quando a minha eleição é confirmada, dou a outra metade dos vinte mil reis”.

Qual a lição que se tira disso tudo? Esse foi só um fato que em presenciei, mas os candidatos sempre tiveram interesse de controlar os votos dos eleitores, reunindo-os nos chamados currais eleitorais.

A solução encontrada pelo TSE-Tribunal Superior Eleitoral foi recorreu à tecnologia de ponta. Eis que, em 1996, surgiu a urna eletrônica, hoje já usada em cerca de 35 países, adaptando as peculiaridades locais. Conforme documento divulgado pelo Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral, da Suécia, usam as urnas eletrônicas Suíça, Canadá, Austrália, Estados Unidos (alguns estados), México, Peru, Japão, Coreia do Sul e Índia (também em algumas regiões). Experimentalmente, República Dominicana, Costa Rica, Equador, Argentina, Guiné-Bissau, Haiti, México, Paraguai e mais outros as usaram.

Da mesma forma que há quem ache que a Terra é plana e que a pandemia de coronavírus é uma gripezinha, também há os que levantam dúvida sobre a segurança das urnas eletrônicas e advogam o voto impresso, sem se moverem para verificar (aceitando ou contestando com fatos concretos) a afirmação do TSE de “que os equipamentos possuem diversos recursos que possibilitam a auditagem, como o registro digital do voto, log da urna, auditorias pré e pós-eleição, auditoria dos códigos-fonte, lacração dos sistemas, tabela de correspondência, lacre físico das urnas, e identificação biométrica do eleitor, entre outros”.

Ora, no Brasil de hoje, com as facções criminosas (tipo o PCC), os traficantes e as milícias se infiltrando na política, o voto impresso ressuscitaria os currais eleitorais, com muito mais controle sobre os eleitores – basta pedir o tal papel. Em nosso país, já está ficando comum se sacralizar a imbecilidade e satanizar a ciência. Pessoal, pensar não doe. Façam um esforcinho, raciocinem sobre os fatos, alternativas e premissas, antes de saírem por aí semeando bobagens “à mão cheia” – com licença de Castro Alves.