Clauder Arcanjo – Pílulas para o Silêncio (Parte CLXXVII)

(Igreja Matriz de Santana do Acaraú-CE)

 

A Audifax Rios

(in memoriam)

 

Sempre que retorno a Licânia o meu mundo de infância se apresenta diante de mim. 

De início, discreto, como se envergonhado dos meus modos de exilado. Com pouco se aproxima, cordato, a puxar conversa, a saber das novidades que trago no bornal, herdadas de outros chãos. 

Logo depois, refeito do susto inicial, ele me aconselha, passa a mão na minha cabeça chata, num zelo de dadivoso amigo, leal companheiro.

Quando me recolho, antes de pedir a bênção a Senhora Sant’Anna, ele se intromete por entre os meus padres-nossos e — Ave, Maria! — não me deixa dormir. Relembra-me das mentiras da infância, causos do Eldorado, lendas do Buriti, traquinagens do Paulo Bodô, artimanhas do criativo Peditão, invenções metalúrgicas do Zé Aguiar e do Lau… 

De olhos infantes, a cair de sono, enfim me entrego ao rio, Acaraú de lembranças. E me deixo afundar na correnteza dos sonhos telúricos, caudal da minha Licânia. 

Destas águas eu somente saio quando desperto pelo bulício do passaredo, a trinar nos benjamins e nas algarobas da Praça do Poeta. 

Sempre que deixo Licânia o meu mundo de infância se afasta de mim? 

 

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Uma poesia surgiu-me em meio a dor de ontem. Medi seu passo de chegada, quis escolher os vocábulos, vesti-la de fraque, pentear-lhe os cabelos das rimas, tirar-lhe o excesso de adjetivos, assenhorear-me do compasso das estrofes… 

Pouco mais o poema se… foi. 

Dizem que ela, ao passar na esquina, lastimou-se: 

— Ele não respeita o meu ritmo, muito menos se entrega aos meus impulsos. Enfim, só quer mandar. Ninguém me domina, não! Saibam todos, eu (Poesia) não aceito dono. Que ele, nem outro alguém, se atreva! Ora, bolas! 

E partiu; espero que um dia ela volte. 

Estarei aqui, no entanto… 

 

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Na segunda-feira, quando deixei Licânia, o calendário marcava 27 de julho de 2020. No olhar de Djanira, minha mãe, uma saudade que nunca entenderei. 

— Sua bênção, mamãe! 

— Deus o abençoe, meu menino. 

— Logo estarei de volta. 

Ela se calou, baixou os olhos miúdos, amassou as contas do terço, a murmurar uma prece. 

A saudade de mãe é divina, abissal e inexplicável. 

 

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Os crápulas aproveitam os domingos, nos quais os cidadãos se recolhem para o santo descanso, para picharem os muros ou para implodirem os prédios antigos. 

Mal a semana nasce a cidade já se vê maculada pelos avisos infames, ou destituídas de mais uma morada plena de histórias. 

E os fantasmas, sem teto, vêm conversar (e reclamar) com os vates, exigindo-lhes versos de protesto, respostas aos desmandos dos energúmenos: 

— Poetas! Soltem o verbo, salvem o mundo. Ou, ao menos, esta abandonada cidade! 

 

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Levantou-se e saiu ao fim da tarde quieta. Em cada galho, a falta de um pássaro a animar o crepúsculo. 

Na esquina seguinte deu pela falta do pontual mendigo. “Alguém deve tê-lo adotado!” — animou-se. 

No bar da esquina os homens de negócio riam do acidente da tarde. Um deles, com a boca cheia de ouro, ergueu o tom de voz para vituperar: 

— Sejamos práticos: um mendigo é coisa de pouca valia — brandiu, sebento. 

Quis assacar-lhe umas verdades, recuou. 

Ao voltar para casa a omissão lhe cobrou preço: a insônia na noite. “Omisso, omisso…”, reclamavam-lhe os lençóis. 

 

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Se enviar-me o teu sinal agora, quem sabe decifrarei o teu silêncio de ontem. 

Por ora, saiba, ficarei aqui; sozinho, mas acompanhado da minha própria quietude. E ela nunca me basta. 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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