Clauder Arcanjo – Pílulas para o Silêncio (Parte CLXV)

Clauder Arcanjo*

(Vanitas, de Antonio Pereda y Salgado)

 

Quando lia Clarice Lispector amanhecia Macabéa. Se à noite se entregasse a Machado, arvorava-se, no dia seguinte, um legítimo Dom Casmurro. Por sua vez se se entregava na madrugada a Kafka… não dormia, com receio de alvorecer um inseto monstruoso. 

 

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— Para onde tu segues tão decidido? 

Parou, pensou e, ao perceber que não tinha rumo, sentou-se na sarjeta. 

— Por que tu ficas tão parado? 

Ergueu-se, pensou e, ao perceber que não havia motivo algum para ficar parado, seguiu em frente. Novamente célere e decidido. 

 

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Quando tropeçares na rua, finge um passo de dança no movimento da queda. Com certeza os mais curiosos, em vez de te vaiarem, te aplaudirão. 

Toda queda, dependendo do jeito e da dança, pode tornar-se motivo de aclamação. 

 

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— Não perca tempo, dê-me logo a solução! 

— Mas, senhor, eu não sou… 

— O mundo é dos decididos. Vamos, a solução! 

— Eu não sou desta… 

— Proponha, então, alguma coisa. 

— Não sou da empresa, meu senhor! Sou o carteiro. 

— Não se faça de bobo. Qual a solução? 

— Se é assim, lá vai! Que tal uma carta para o Santo Papa? Sempre acho que Roma tem a melhor solução! 

— Escondendo o leite, hein?!… Assessores, depressa: Qual o endereço do Vaticano? 

 

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Quando as estrelas luziram no céu limpo e franco, atribuiu o fato ao empenho do senhor presidente. “O céu está também sob o comando do nosso líder!” 

Na noite seguinte, o nevoeiro encobria totalmente o brilho dos astros. Ele saiu às ruas, vestido com a bandeira nacional, a revelar que aquilo era tão somente uma armação dos oposicionistas. “Eles mexeram no fundo do pântano, onde se dão muito bem, e a névoa gerada por eles querem apenas atrapalhar a gestão clara e limpa do nosso guia maior!” 

 

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Queria ser orador e se pôs de vigília no Congresso Nacional. 

— Aprenderei com os nossos dignos representantes. 

Dois meses após, ao voltar para a província natal, revelou-se um tribuno amigo dos improvisos. Usava os gentílicos ao seu modo, trocava o tempo e a regência dos verbos, amassava os sofridos adjetivos e o plural sofria, em seus lábios energúmenos, o pior castigo. 

Até que, certa noite, resolveu deixar a tribuna e escrever uma missiva endereçada ao senhor prefeito. Mordeu a língua, deixou a pena livre e, com pouco mais, sapecou uma cedilha num duplo “s”. 

O alcaide, após receber e ler a carta na manhã seguinte, entrou, de imediato, com um pedido de outorga da Comenda Municipal Rui Barbosa, por “notório e douto saber”. 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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