Clauder Arcanjo – Confidências a Manoel

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho.

Do meu olho esquerdo, Manoel de Barros, nasce uma catarata de profundeza de infinitude. Certo dia, quando me amanheci em asa de ave azul, cismei de me abeirar do meu rio de alma, fiquei de tontice com tantos pés de lonjura que em mim habitava. Eu me adescobri (montado estou na desrazão) num cacimbão que, na minha mente, ele vai dar em Marte.

Quando me deito no pasto da solidão, a catar escuras relíquias de riso e outras benditas traquinagens, é que estou pronto para, nesse cacimbão, lavar meu desfastio e me (re)encontrar com o eu-menino.

Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina.

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E onde estaria a tua musa?

Pegas no meu braço e, excitado, tu me respostas:

Minha musa sabe asneirinhas

Que não deviam de andar

Nem na boca de um cachorro!

— Poeta pantaneiro, fala baixo que as musas têm oiças de quero-quero. De tudo elas sabem, não arredam o bestunto do chocalhar da adivinhação! — Ponteia Carlos Meireles, com os ouvidos tomados pelo redemoinho do vento da Lua, abeirado do córrego ínfimo do desverbo.

Meu córrego é de sofrer pedras

Mas quem beijar seu corpo

é brisas…

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A água do lábio relvou entre pedras…

Quando li teus primeiros poemas, Manoel, me abestalhei de alumbrias. Não sabia se chorava ou se sorria. Só aguentei o espojo da loucura, porque me meti por entre as borboletas de abril e, com elas, aprendi a desgramática expositiva do chão.

Com pouco, já meio homem meio árvore, senti um sapo dentro de mim a ler os antissalmos do mundo, com a engenhosice de Platão. Neste instante, o alvoroço da chuva me reverdeceu a boca, antes seca e mal estrumada de invencionadas.

Todas as coisas cujos valores podem ser

disputados no cuspe à distância

servem para poesia.

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Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Meu graveto de sono, sempre no bolso da minha calça de mescla provinciana, três apitos quebrados (dos jogos em que eu maltratava a bola, a pensar nos teoremas da matemática), a asa de um beija-flor que, graças a Deus, nunca ficou ao alcance da mira de minha baladeira de mau caçador, o aboio do Pedro Chagas (hoje, vaqueiro no Céu) a chamar pelo gado no Eldorado, a desova das curimatãs nas cabeceiras do Riacho da Negra, enquanto o trovão troava imperial nos céus de Licânia. E, por último, o brilho do riso de minha mãe (enquanto se assustava com os relâmpagos, ela animava-nos com o inesquecível chamado: “Eita pai da coalhada!”).

A nos abençoar (“Saudade me urinava na perna”), o olhar do meu pai, com a mão direita em pala, sempre na direção do horizonte-nascente, em busca das nuvens mais bojudas. Quanta coisa de estima, meu Deus!

Tudo aquilo que a nossa

civilização rejeita, pisa e mija em cima,

serve para poesia

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E as garças eram tarde demais.

Nasci à beira do Rio das Garças, por isso sou ribeirinho e desfilo este sorriso branco, gracejo de luarado, bem como um jeito torto de sapo-cururu. Tardo a mergulhar nos fundões da vida, mas sou teimoso como um bem-te-vi grávido de manhãs chuvosas.

— E as tuas garças ainda voam no céu de Licânia?

— Não, Manoel, elas quase não existem mais no nosso riozinho. No entanto, retardo a esquecê-las, como se revivê-las, em arranjos para assobio, fizessem suas floradas de voo imaculado gracejar num sem fim. “Produzem no céu iluminuras”. Sem elas, o Acaraú anda com sofrência de asa quebrada, de águas contaminadas por uma saudade cinza.

Agora uma brisa me garça.

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O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum

convém se vestir roupa de trapo.

Se me achego dos paletós da utilidade, a poesia foge pelo cabo da panela velha sobre a mesa. Se me invoco, gramaticando-me filosofagens, a inspiração toma voejar de sumiço e se dependura na linha do desatino. Algumas vezes, tencionando amplitudes, marco o (com)passo no rumo da (des)razão acadêmica, coitado de mim!, recebo um cotoco como resposta do verso. Sem falar na mijada de palavrões inconfessos. E das risadas das galinhas d’angola e das gaitadas dos urubus-reis. É de matar! Ou morrer?

Ninguém é pai de um poema sem morrer.

E de morrices já passei da casa de cem. Morri quando perdi o verso limpo e lindo, plumando na manhã agaroada. Morri, lembro-me da noitança de breu, no instante em que esperava o clarão da alvorada, e a madrugada me cobrou, com faca e punhal de solidão, o seu bocado merecido. Sem falar nas dezenas de abates em que me fuzilaram, sem dó nem piedança: a canjica esquecida e evitada (em respeito à saúde burguesa), o cangapé não dado no açude, em respeito aos bons modos da idade (perdi a chance de me meninar por anos), a fugida na entrada do matagal para colher o cochicho das juritis (Isto é coisa de abilolado!; e eu me acovardei, ficando em casa para ser possuído pelas más notícias de plantão)…. Enfim, só não me morri mais porque me despistei como poeta de aluvião. Cantador das gosmas das pré-coisas. Guardador de águas.

Defende-se como touro. E faz denúncias como um senador romano.

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É homem percorrido de existências.

Manoel, tu és um homem percorrido de poessências. Poessências advindas das existências bebidas nos varais passarinheiros do Pantanal, (a)tingidas pela poesia anil que se (a)colhe da noitada mais resplendente de “um azul arriscado a pássaros”.

Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.

No osso da fala dos loucos há lírios.

Todo poeta tem que lamber as palavras que nascem do cocuruto dos loucos. Somente eles carregam a chave que abre o cofre de chapéu que segura o alvorecer do nada, a primeira chuva pantaneira, a prestança do silêncio, bem como o algaravio dos restos das ninharadas.

Na medula do verbo dos tresloucados há uma poética do nada-tudo.

Assim,

Ao poeta faz bem

Desexplicar —

Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

Deixa eu me desexplicar. Segura o tranco, Poeta, que eu vou te embirutar.

Quando assuntei a poesia, acreditas?, eu tomei um copo de sereno de quebra-regras, duas doses de soluço dos enrolados, sem contar os banhos de erva-grota para incutir em mim as beradeiras nonadas.

E, toda vez que sinto a razão querer sarabandar o meu proferido, retomo todas essas doses, sigo todo esse moído, somente para não perder a forma desmemoriada de ser poeta (des)esclarecido.

Se não acreditas em mim, escuta bem o que te dirá (concerto a céu aberto para solos reptilianos), logo mais no sereno da madrugada, o jacaré cego que há de se acaningar no teu leito.

Passei anos me procurando por lugares nenhuns.

Até que não me achei — e fui salvo.

No mundo do tropel das palavras xucras, qualquer montador, se não bem serve ao verboente, recebe logo uma upa… E lá se vai ele com a bunda no chão.

Há que apenas saber errar bem o seu idioma.

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Porém, vendo o Homem

que as moscas não davam conta de iluminar o

silêncio das coisas anônimas —

passaram essa tarefa para os poetas.

E tu, Manoel de Barros, atarefou-se com primícias de azougado. Apois, em menos de rabo de calango magro, puseste iluminescências: no pavio da ponta dos galhos; no oco do pau sem coruja; na inutilidade do vazio da brecha do buraco sem dono; no roído-sujo das unhas de um pobre andarilho malsinado; no canto agourento do anum sem siso de morada; no cardume de peixes sem mar, a subir o riacheiro na ressaca do nada; nas ventas de um palhaço sem riso, a mirar as crianças com o rosto catarrento e com a esperança ao lado.

Já enxergo o cheiro do sol.

Enfim, Manoel, inseto de lápis azul do livro das ignorãças, és um cabra pai-d’égua para todas as águas mijadas de orvalho. Até para aquela que se colhe, na caneca furada, pelo bico do colibri desalmado.

O verbo tem que pegar delírio.

Obs.: os trechos em itálico foram extraídos do livro Meu quintal é maior do que o mundo, de Manoel de Barros. — Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

Fonte: Navegos

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras