Anita Garibaldi, a brasileira que se tornou ícone feminino
POR Edilson Veiga DW
Resgate republicano
Em uma época de mulheres apagadas pela história, ela não só se tornou guerreira como acabou sendo valorizada pelo marido — e os pesquisadores atestam que isso foi fundamental para que seu nome não acabasse esquecido ou subvalorizado.
“Em um período em que as mulheres eram frequentemente relegadas a papéis subalternos, Anita se destacou como uma combatente e líder, mostrando que a participação feminina é crucial em todos os aspectos da vida social e política”, afirma Soares. “Sua trajetória inspira inúmeras mulheres a se engajarem na luta por direitos e justiça social.”
“Segundo relatos presentes principalmente em diários da época, nota-se que ela foi reconhecida em seu tempo por sua coragem e bravura diante dos embates que enfrentava”, diz Trevelin, lembrando que ela era vista tanto por companheiros como por adversários como “uma mulher muito forte e destemida”.
Mas a sedimentação histórica do reconhecimento de Anita não foi automático. “Ela viveu no século 19, período que conservava um imaginário muito patriarcal […]. Era extremamente estranho pensar nas mulheres ocupando um lugar ativo em guerras e revoluções. […] Não quer dizer que por não ser socialmente aceito, mulheres nunca tomavam frente nos embates”, diz a historiadora.

Isso fez, segundo explica Trevelin, que Giuseppe se destacasse como herói “em um primeiro momento”. O resgate do papel de Anita aconteceria anos mais tarde, após a Proclamação da República, “na ânsia pela construção de uma identidade nacional, e brasileira, no início do século 20”, explica a historiadora.
E, para isso, houve uma contribuição muito grande do próprio Giuseppe. Ele mantinha um diário de memórias e, no final dos anos 1860, deu longos depoimentos ao escritor Alexandre Dumas (1802-1870), que escreveu Memórias de Garibaldi.
Na verdade, Giuseppe rascunhou o texto em 1849, quando estava exilado em Tanger, no Marrocos. Confiou o material ao escritor americano Theodore Dwight, que primeiro publicou o relato em inglês, nos Estados Unidos. Mais tarde, Giuseppe pediu que seu também amigo Dumas fizesse a nova versão, enriquecendo-a com mais informações.
“Anita pouco foi lembrada no seu tempo. Ninguém ousaria apresentá-la com matiz de heroína indômita em dois mundos. Isso ocorreu a partir das Memórias de Garibaldi, delineadas após a morte de Anita, certamente não isentas de subjetivismo do autor […]”, escreveu a historiadora Hilda Agnes Hübner Flores na obra Anita Garibaldi: A Criação do Mito, publicada em 2007.
Uma terceira versão dessas memórias acabaria sendo publicada pela alemã Elpis Melena (1818-1899), que também se tornaria próxima a Giuseppe Garibaldi.
Uma história sob o ponto de vista de Giuseppe
Assim, a história de Anita acabou documentada a partir do ponto de vista de Giuseppe. “Em seus escritos, Giuseppe não economizou adjetivos a respeito dela. Disse que desde o primeiro momento de embate ela não se intimidou, colocando-se à frente das lutas, incentivando seus colegas, liderando. Caracterizou-a como uma mulher-soldado”, afirma Trevelin.
Para a historiadora, nos diários de Giuseppe, construiu-se Anita “como heroína já nas primeiras linhas”. “E isso embasou muito do que foi escrito sobre ela depois, seja no âmbito da história ou da literatura”, explica.
“Sendo assim, em um primeiro momento, seu protagonismo foi silenciado pelo contexto em que vivia. Porém, reafirmado anos depois nas palavras de seu já renomado companheiro. E, posteriormente, nutrido pela pesquisa história a partir dessa primeira fonte”, contextualiza.
“Se na esfera masculina o alferes Tiradentes, traidor do império, passou a ser visto como exemplo de patriotismo para as novas gerações, Anita Garibaldi, a ‘heroína dos dois mundos’, passou a ser apresentada como modelo feminino de virtude cívica”, atesta Flores.
Ela recorda que “o fascismo italiano veiculou o nome Anita a interesses patrióticos”, entre os anos 1930 e 1940, “o integralismo no Brasil deu seu nome a vários núcleos políticos e o líder comunista Luís Carlos Prestes [(1898-1990)] batizou a filha com o nome de Anita”.
“Em sua terra natal, Santa Catarina, é nome de dois municípios: Anita Garibaldi e Anitápolis”, destaca a historiadora. No Brasil, em 2012, Anita Garibaldi teve seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.