Alguns tipos populares que conheci em Mossoró

Gutenberg Costa – Escritor e folclorista

Que me recorde, desde o ano de 1978, vou a querida cidade de Mossoró. Fui levado na campanha política pelo saudoso amigo e mestre padre Zé Luiz, o qual sempre me apresentava aos seus amigos mossoroenses. Entre eles, o poeta e escritor Crispiniano Neto que ali vivia e o fotógrafo de sua investida partidária, o irrequieto José Rodrigues. E a propósito, foi o Zé Luiz, que acertadamente nos filosofou, que existem os tipos ‘sabidos’ e os ‘inteligentes’ entre nós.

Os chamados ‘tipos populares’, erroneamente como teimam em chamar de ‘tipos folclóricos’, são pessoas populares que geralmente se destacam por suas manias ou trejeitos. São normais, só que ficam mais conhecidos nas ruas por onde passam e ganham a popularidade na localidade aonde vivem. O potiguar escritor Augusto Severo Neto, os classificou de “líricos e loucos”, no bom sentido. Já o carioca João do Rio, acertadamente, chamou-os a atenção para nós os tratarmos como a ‘alma encantadora das ruas’. E o que seria das praças e artérias públicas sem os seus gracejos e presepadas? Eles e elas alegram os ambientes dos sisudos e chatos que povoam nossos caminhos, carregados de problemas e complicações.

Vários autores folcloristas de Mossoró ou que viveram em seu abençoado chão, os relataram em seus trabalhos para a posteridade e quem sabe futuros trabalhos de pesquisa nesse campo humano. Aqui, destaco apenas dois: Lauro da Escóssia e Raimundo Soares de Brito. O primeiro não tive a sorte de conhecer em vida e quem sabe levou consigo inúmeras histórias que encheriam livros sobre as figuras engraçadas de seu tempo. Já o saudoso mestre e amigo Raibrito, posso testemunhar, pois via as relíquias de suas fichas, com fotos e dados de muitos tipos populares, homens e mulheres, todos conhecidos do velho e quixotesco Raimundo. Cada um com seu relato telúrico e bem testemunhal. Um dia, no meio deles e delas de seu riquíssimo arquivo mossoroense, me deu de presente uma fotografia da famosa ‘Maria Mula Manca’ que fizera no centro de Natal: “Está aí para seus arquivos, meu amigo Gutenberg Costa, a foto foi feita por mim na Natal dos anos 50”. Raridade ainda não publicada. De vez em quando eu voltava para Natal, com preciosidades na mala de alguma coisa do templo do inesquecível Raibrito: “O que for sobre Natal que eu for encontrando de seu interesse, vou lhe repassando”. Nem precisa dizer que ele tinha um grandioso ciúme dos assuntos ligados à sua amada região Oeste.

Digo sempre aos amigos e amigas, que tenho algo que atrai os tipos populares aonde quer que eu vá. O mestre Ariano Suassuna dizia, com todo o respeito, que atraia os doidos, porque também era um deles. E quem sabe, não seja esse o meu caso. Trato-os com atenção e total respeito. Procuro anotar seus nomes e suas histórias de vida, as quais geralmente ficam esquecidas ou são apresentadas com deboches e gozações. Infelizmente, são até motivos de maldosas piadas nas rodas ditas culturais, imaginem entre as demais nas feiras, mercados e bares.

Aqui nesse curto texto, não caberia dados biográficos dos que conheci e nem sei aonde estão agora minhas anotações em meio a minha bagunçada biblioteca e arquivo na terra de Nísia Floresta, na qual resolvi baixar a minha âncora do barco viajante. E por falar em Natal, a minha cidade, teve um sério candidato a Prefeito muito famoso e conhecido como ‘Miguel Mossoró’. Não ganhou, mas como dizem no mercado mossoroense do vuco-vuco, fez medo aos concorrentes endinheirados. Com ele estive várias vezes em conversas no finado Café São Luiz, de minha Natal. Partiu, mas deixou-nos incontáveis histórias de suas aventuras políticas. Sonhou muito acordado, como o povo costuma também sonhar sem ver as concretizações…

Voltando a Mossoró, em uma das vezes em que eu estava na churrascaria ‘Gauchinha’, eis que chega em minha mesa um senhor de tipo forte, branco e muito inteligente, com uma invejável memória política estadual do nosso Rio Grande do Norte. O dito foi logo dizendo-me que diria na hora o nome do prefeito e do vice prefeito de qualquer cidade do RN. Sabe-se que nas ruas vivem os sabidos e os inteligentes, mas só ganham dinheiro os sabidos ou espertos, como o povo os chamam: “O senhor diga uma cidade aí, que eu acerto quem é o atual prefeito agora!”. Pensei de imediato em Pendências, pois o prefeito Levani de Freitas havia falecido há poucos dias e o sujeito foi ligeiro na resposta e acertando: “O prefeito é o senhor Jonas Martins, que era o vice prefeito de Levani que morreu há poucos dias”. Nisso os garçons vieram tirá-lo de minha mesa e eu tive que intervir pedindo uma carne e um refrigerante para o homem de privilegiada memória, que só estava era morrendo de fome, em um país tão rico como o Brasil.

Sempre que chegava na terra do saudoso mestre Vingt Un Rosado eu ia ao bar Oitão, conversar com alguns amigos já previamente avisados de minha chegada. Vi muita gente, alguns sendo devidamente apontados e feitas as propagandas de suas famas: “Ali está o homem que mais enterro acompanhou aqui em Mossoró!”. Um tipo com recorde nacional de presenças em funeral no mundo, quem sabe. Dizia até que ele tinha um caderno com os nomes e datas dos finados e finadas.

Nessa referida esquina não faltava o músico assobiador mais ilustre do Brasil, tendo gravado um disco de vinil, o irrequieto Waldemar dos Passarinhos. Disco que ele próprio não tinha em casa. Uma das vezes, final de tarde, ele vinha em uma velha bicicleta. Outra vez, veio ao meu encontro cambaleante puxando por uma perna. Antes que eu dissesse a palavra ‘Coitado’, o já banguelo Waldemar deu três saltos em cima de mim e milagrosamente desaparecera qualquer munganga vista antes. Era presepeiro e divertido com seus amigos. Reconhecia-me de longe e sempre recebia um trocadinho meu para um café e lanche. Apesar do sofrer cotidiano, vivia alegre, como se auto declarara em uma entrevista ao genial cineasta baiano Glauber Rocha: “Vivo famoso e liso!”. Vou confessar que tenho em meus arquivos, várias fotos ao lado do bonachão ‘seu’ Waldemar dos Passarinhos!

E para finalizar conto uma em que eu estando no carro do amigo poeta e empresário gráfico Gustavo Luz, avistamos o maior apaixonado por fusca que já vi em minha vida. Pedi imediatamente ao paciente amigo Gustavo para parar seu automóvel e aproveitar sua máquina fotográfica e ‘bater uma chapa’ do ainda jovem ‘César do fusquinha’. O resultado foi o seguinte, acreditem se quiserem. Feita a fotografia, fomos para o bar famoso na ocasião do também amigo artista Rogério Dias. Ao sairmos pela madrugada, a dita máquina desaparecera misteriosamente da mesa, com o filme Kodak, onde estaria a dita foto. Coisa para o ‘Sherlock Homes’ tentar descobrir o tal sinistro com muita calma e paciência do velho bíblico Jó. E como diz o sábio povo, quando não tem de acontecer, não acontecerá mesmo. E nem que a vaca tussa!

Com certeza, eu teria outras histórias e com outros envolvidos, mas deixarei para os futuros e belos dias de domingo.

Mês do folclore. Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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