A Virgulina – CLAUDER ARCANJO

Mais de um mês se passou, e nenhuma notícia do tratamento no Eldorado. A cidade, ansiosa e tomada pelo embalo do fuxico, anda por demais inquieta.

Na Pedra do Mercado, muitos alegam que a viagem de Licânia para a Fazenda Eldorado nem sequer se deu.

— O jipe do Lourenço não levaria essa gente toda, pessoal! — esbravejava um fuxiqueiro incrédulo, revisionista de plantão.

Nisso o Gordinho do Eurico rebateu, ofegante, com sua gagueira singular:

— E… e… você é um abes…tado! O jipão do Lourenço é… co-como co-coração de mãe, seu bes-bestão!

Com pouco, uma comissão, encabeçada pelo Raimundo Sacristão, foi designada para se dirigir ao Eldorado, e colher, para os pios paroquianos licanienses, notícias da eficácia (ou não) do tratamento com a canaquina.

Dona Maria Djanira, ao saber da comitiva, ofereceu os préstimos da rural do seu esposo. E a Virgulina, conhecedora dos caminhos que sempre levam ao Eldorado, foi eleita para conduzir o grupo de incrédulos (e curiosos) ao local do tratamento licaniense contra a praga do coronavírus.

Não posso aqui, caro leitor, relatar como se deu toda a viagem da Virgulina. A distância era de légua e meia, coisa que levava não mais do que quarenta minutos, que fique bem claro. O problema foi a ofensa, logo na saída, do “bendito” sacristão. Este, mal se achegou da rural, agrediu-a:

— Que carro velho da bexiga! E, além de tudo, batizado com o nome do maior facínora do sertão. Com a minha santidade, julgo que não deveríamos seguir nesta… Virgulina!

Foi o suficiente, bem mais do que o bastante.

Como não conseguiriam outro transporte, o jeito foi se aboletarem na Virgulina e seguirem caminho. Marquinhos, fiel motorista e exímio condutor, percebeu algo de errado no ronco, e no tranco, da “lampiônica” máquina.

Na primeira curva, a Virgulina deu uma guinada e uma brecada bruscas. Com isso o Raimundo Sacristão, sentado — imperial e sem cinto — no banco da frente, largou as fuças no painel da fubica.

Sem dar bolas para os urros de dor do secretário do padre, a Virgulina desembestou encapetada. Quando sobre a parede do açude do Zé Euclides, guinou para bem próximo da cerca, ameaçando o suicídio veicular, jogando-se de água adentro.

Nisto Marquinhos resolveu invocar todos os santos, bem como apelar para o bom coração, digo bom carburador da velha companheira:

— Calma, Virgulina! Ao longo desta nossa caminhada, superamos e perdoamos muitas faltas. Lembre-se da máxima do nosso patrão, como sempre professa Seu Zequinha Arcanjo: “Só há um sentimento maior do que o amor: o perdão!”.

Virgulina roncou uns desaforos fumacentos, enfiou as rodas no barro seco, fez pirraça com elas, jogando poeira na estrada… No entanto mantinha-se irredutível.

De repente, Marquinhos pede que o sacristão, causador da zanga de Virgulina, descesse e se ajoelhasse perante a ofendida:

— Como bem me ensinou Seu Zequinha: “Quem se ajoelha se agiganta!” Vá, filho de Deus, peça perdão à bichinha. Salve-nos deste mortal aperreio.

O assistente paroquial desceu com as calças completamente mijadas (segundo comentários ladinos, só não estava cagado porque não havia merda pronta). Trêmulo, Raimundo Sacristão se ajoelhou diante da encolerizada máquina, a rogar-lhe:

— Fubiquinha, fubiquinha. Virgulina tão amada por Seu Zequinha, não repareis nas minhas palavras, mas na fé que move o nosso caminho…

Virgulina achou aquele discurso muito empolado, assim como tomado de empréstimo. Melhor, julgou-o falso como uma tábua de fojo para pegar preá, e roncou furiosa:

— Vrum… vrum… vrummmm…

Jogando areia e poeira nos olhos do sacristão, a brava Virgulina deixava-lhe claro o descontentamento.

Nisso o restante dos passageiros a protestar:

— Ajoelha e pede logo perdão, filho de uma égua!

Neste exato momento, um relâmpago cruzou os céus de Licânia, e um trovão se seguiu, como se a rasgar a linha do horizonte.

— Valha-nos, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Valha-nos, Senhora Sant’Anna! — gritavam todos.

A Virgulina, agnóstica de combustão, mantinha-se impávida. Aproximou-se ainda mais do precipício, prestes a levá-los para os fundos do Inferno. No caso, o fundo das águas.

De imediato deu-se um milagre: Raimundo Sacristão beijou o para-choque da rebelde, acariciou os seus faróis, elogiou-lhe o potente motor, e lhe pediu, ajoelhado, perdão pela sua falta:

— Não nos deixe morrer, Dona Virgulina! Tenho quatro filhos legítimos para criar… — E, num tom mais baixo: — Sem contar a meia dúzia de ilegítimos espalhados por este sertão de meu Deus.

Virgulina deu uma ré e, antes de tomar o rumo do Eldorado, imprensou, contra a cerca de arame farpado, a bunda grande do sacristão.

Marquinhos recobrou o comando da direção da Virgulina, mas não conseguiu freá-la. Pôs a cara para fora e orientou ao Raimundo Sacristão que voltasse a pé para Licânia.

Eles seguiriam em frente. Virgulina era por demais sentida e temperamental. Seu perdão precisava de rogos e de muito, mas muito tempo.

O resto da odisseia correu sem maiores infortúnios. Virgulina, justiça lhe seja feita, tornou o caminho sedoso, pois sabia onde os buracos habitavam naquela quase meia légua que ainda restava.

Ao se aproximarem da Fazenda Eldorado, o céu já se tingia de sangue, e a rádio anunciava a Hora do Ângelus.

Marquinhos se benzeu; e a Virgulina buzinou, anunciando a sua chegada.

— Mi… miaiau… Oh, mimiau…

Sim, caro leitor, estamos diante de mais uma surpresa. O nosso bichano Nabuco, sem que ninguém percebesse, escondera-se na parte traseira de Virgulina, fazendo parte da citada comissão investigativa.

Mas… isso será assunto para um outro capítulo. Por hoje basta, descansemos.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.