A Vida é Mesmo Assim!

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Neste domingo, vou puxar pela memória sessentona e relembrar algumas cantoras que assisti em shows. Todas vozes consagradas da nossa excelente música popular romântica brasileira. Não venham aqui chama-las de ‘bregas’, porque vão comprar comigo uma grandiosa briga. Meu encontro com a galega cantora e compositora do meu tempo, Claúdia Barroso, uma das amadas da vida do nosso Dom Juan, o baiano cantor e compositor Waldick Soriano. Mineira de Pirapetinga, nascida em 23 de abril de 1932, não foi em show, mas em um restaurante/bar de um hotel em Mossoró, testemunhado por dois grandes amigos, Cid Augusto e Caio César Muniz. Os bares mossoroense foram fechando e já pela madrugada, demos de cara com a Cláudia. Coincidências da vida, lá estava a mesma jantando em uma das mesas do recinto. Cid e o Caio, não a conhecia, só eu. Perdi seu show, mas conversei com ela.

Eu, seu velho fã, a vi e logo fui a sua mesa para uma conversa, sem gravador e máquina fotográfica por perto. A cantora mais velha do que eu ainda tinha os traços de suas antigas belezas, como cabelos louros, agora pintados, um pouco obesa e uma finíssima educação. Acompanhada de uma linda neta e já vestida com trajes simples, depois de uma noite de show com casa cheia. Aceitou de imediato conversar comigo e sorriu quando lhe disse que sentia muito não ter em mãos seus antigos vinis e cds para serem autografados naquele momento de surpresa. Também disse que era seu fã desde o tempo de seu grande romance com Waldick Soriano. Amor muito comentado nas revistas de fofocas, daquela época do programa televisivo do polêmico Flávio Cavalcanti. Falamos sobre seus grandes sucessos como: ‘Quem mandou você errar; Fracasso; Por Deus eu Juro e Ah! Se eu fosse Você’. Ela lembrou ainda do grande sucesso do Waldick: ‘Tortura de Amor’, uma belíssima canção interpretada pelas melhores vozes do Brasil.

Mas, apesar de tanta fama, naquele momento a cantora morava em Fortaleza/CE. Não era uma mulher milionária e só tinha um apartamento para morar. Mesmo com idade de descansar, ainda fazia shows para sobreviver e ajudar familiares. Infelizmente, sabemos que quase todos passam na velhice por desagradáveis apertos financeiros. Depois da fama, a história é geralmente triste para se contar! Poucos anos depois, a Cláudia, encantou-se em Fortaleza, em 09 de outubro de 2015, mesma cidade em que vivera e partira o seu antigo amado Waldick.

Eu estando certa feita em São Paulo, convidado de um seminário cultural, eis que me colocaram em um antigo Hotel bem pertinho do famoso cruzamento das avenidas São João e Ypiranga. Próximo a conhecidíssima casa de show ‘Bar da Brahma’. Em duas noites assisti a dois belíssimos espetáculos das cantoras Ângela Maria e Alcione. A Ângela, eu já tinha visto e ouvido quando adolescente na parte superior do velho bar/café Quitandinha, do meu Alecrim. Sua voz era a mesma, só que agora mais velha, um pouco obesa e baixinha como antes. Vestida elegantemente de preto, com brincos, pulseiras e colares. A madrinha musical de Agnaldo Timóteo, o qual fora seu motorista particular, encantou a todos os presentes naquela noite com seus sucessos: ‘Cinderela; Tango pra Tereza; Babalú; Vida de Bailarina; Balada Triste, entre outras pérolas musicais. Infelizmente, era um estranho ali, nenhum fotógrafo por perto e seus discos e cds estavam em minha casa em Natal. Recentemente, comprei a sua volumosa biografia escrita por Rodrigo Faour, em 2015. A carioca apelidada ‘Sapoti’, rainha do Rádio em 1954, no tempo de seu Getúlio Vargas, nascida em 13 de maio de 1929, encantou-se em 29 de setembro de 2018, em São Paulo/SP.

A outra cantora que eu vi e ouvi no tradicional Bar da Brahma, foi a Alcione, apelidada de ‘Marrom’. Maranhense e gente finíssima, a qual nunca esquece suas origens humildes e principalmente seu pai, um pobre músico. Sambista, romântica e instrumentista de primeira qualidade e belíssima voz. Na noite de seu show, estava elegantemente vestida em um inesquecível vestido longo azul brilhoso. A referida e famosa agraciou a todos os presentes com seus principais sucessos: ‘A Loba; Não Deixe o Samba Morrer; Você Me Vira a Cabeça e Estranha Loucura’, entre outros.

Em Natal, no histórico Teatro Alberto Maranhão, tive o privilégio de ver, ouvir e conversar com várias cantoras depois dos shows. Sem fotógrafos por perto, lembro bem de Leny Andrade cantando as inesquecíveis músicas: ‘Saigon; Adeus América, Amigo não tem defeito e Chega de Saudade’, entre outras. A Leny me foi recomendada há tempos pelo saudoso amigo, cantor e compositor Chico Elion. Segundo o amigo músico e escritor Antônio Amaral, o qual mora em Aracajú/SE, a Leny está entre as 10 melhores vozes femininas do Brasil. E eu já disse ao Amaral que concordo com sua criteriosa avaliação musical. Ele entende de música, eu sou apenas um curioso. Pena que a Leny é pouco conhecida do nosso público que, como me dizia o mestre Ariano Suassuna, prefere ouvir o que não sabe e nem traduz para o nosso português muita coisa que ouve.

Ainda no mesmo citado teatro, assisti a Maria Creusa cantando o seu saudoso amado Vinícius de Moraes e lhe oferecendo uma dose de uísque no palco: “A você, meu grande amigo e amor Vinícius, esteja aonde estiver agora!”. Fez a plateia se emocionar ao tomar a dose e cantar o grandioso hino do amor: “Eu sei que vou te amar”. E ao final do referido show, mesmo sem fotógrafo, eu corri com um de meus Cds e, sorrindo e me abraçando, a carismática cantora o autografou com carinho para o Cd voltar a minha discoteca.

Outras duas cantoras autografaram meus CDs no Alberto Maranhão. Tânia Alves, a qual sorriu muito quando eu me declarei seu fã nos boleros e na televisão: “você foi a Maria Bonita mais bonita de Lampião”. O amigo fotógrafo Evaldo Filho estava bem perto desse memorável encontro, clicou logo o momento para a minha posteridade musical. E a outra foi a grandiosa e consagrada Elza Soares. Negra linda de corpo e alma. Apesar da idade, cantou e dançou tal qual uma adolescente seus antigos sucessos, entre eles, os clássicos: ‘Maria vai com as outras; Se acaso você chegasse; Mulata Assanhada; Salve a Mocidade; Lata d’água na Cabeça e Marambaia’. Finalizando seu grandioso espetáculo musical, corri para o seu camarim e fui o primeiro e único fã a ser fotografado, pois a cantora sentiu-se mau e teve que ir ao hospital para tomar soro e reanimar-se. Já estava com mais de setenta anos e não uma garota para pular e sambar como nos velhos e bons tempos. Sorriu muito agradecida quando eu lhe disse que tinha a biografia do seu amado Garrincha, muito bem escrita por Ruy Castro e era seu admirador desde a minha adolescência. E ficou comprovada a minha declaração quando teve que autografar vários CDs: “Eu estou vendo que o senhor é um ferrenho apaixonado pela Elza Soares. Disso não duvido!”. E imaginem se eu tivesse levado debaixo do meu braço os Vinis deixados em casa. Outro dia, a vi já sentada cantando no Rolando Boldrin e a cena do nosso encontro me fez até chorar de emoção. O tempo na velhice é muito cruel, principalmente com os famosos e famosas! Nem quero mais voltar a ler o que aconteceu com as famosas cantoras do Rádio do passado, irmãs Batista, Dircinha e Linda.

Já a nossa Núbia Lafayette, depois de muitas noites ouvindo nas radiolas de fichas nos bares e cabarés de Natal, fui vê-la pessoalmente em uma noite no pátio do velho palácio do governo do RN. Noite memorável, convite da amiga pesquisadora musical e escritora Leide Câmara. Infelizmente, a nossa grande Núbia anda esquecida, como muitos valores culturais do RN. Ela, nascida em 21 de janeiro de 1937, na região do Assu/RN e encantada em 18 de junho de 2007, em Maricá/RJ. Não tenho como esquecer os sucessos na sua voz, como: ‘Quem eu quero não me quer; Devolvi; Lama; Casa e Comida e Vingança, entre outros. Sempre tocados em meus domingos.

Para finalizar, tenho por justiça e amizade lembrar novamente da grande amiga Glorinha Oliveira. Fui a seus vários shows e lhe prestei duas homenagens em vida quando estive a frente da nossa banda carnavalesca ‘Antigos Carnavais’. Por emoção, vou resumir aqui o nosso último encontro e almoço recheado de muitas alegrias e conversas. A grandíssima Glorinha veio até minha casa em Nísia Floresta, trazida pelo seu filho, Aécio Queiróz, querido amigo das antigas boemias natalense. Era um feliz domingo de sol de 18 de junho de 2017. Logo ao entrar, foi recebida com sua voz tocando em minha velha radiola. Vinha de um de seus vinis. Muito emocionada, chorou e me beijou como uma mãe faz ao ver um filho que morava agora distante. Fizemos fotos e até vídeo desse reencontro final. Nossa Glória chegou em Natal/RN a 27 de fevereiro de 1925 e encantou-se no mesmo berço nascedouro, em 23 de fevereiro de 2021. Agora me desculpem por não ter mais condições para descrever os demais detalhes desse inesquecível dia de minha vida!

Todo domingo ela volta com sua voz a embelezar meus ouvidos e minha morada, iniciando com a música de Pedro Mendes e Heraldo Palmeira – ‘Meu Tempo’. Depois, a bela composição do amigo Nelson Freire, ‘Passado’ e finalizando com a música de Regina Justa: ‘Assim é a vida’

Finalmente termino esse texto lembrando que ‘assim é a vida’ ou ‘a vida é mesmo assim’. Sou um velho jovem, ou quem sabe um jovem velho? Sou daqueles que chora e rir simultaneamente, quando relembra o passado e as boas amizades que já se foram. Se eu não reagi com lágrimas e sorrisos, ao ver as velhas fotografias guardadas, nada passou por minha vida!

E a vida é mesmo assim!

Morada São Saruê. Nísia Floresta/RN.

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