A Dialética de Clauder Arcanjo pós-cacetada

Sumi do noticiário das calçadas de Licânia nos últimos nove dias. Foi o suficiente para despertar, além fronteiras, uma série de questionamentos acerca do meu estado de saúde, física e mental.

Alfredo Pérez Alencart, peruano-espanhol, pediu notícias minhas a David Leite, lá da distante e vetusta Salamanca. O poeta Álvaro Alves de Faria inquietou-se com meu silêncio poético, e encheu minha caixa de entrada com versos acerca do mal da solidão. A portuguesa Leocádia Regalo, ao perceber o intrigante recolhimento meu, orou para os deuses lusos. Sânzio de Azevedo, sobraçado com suas leituras clássicas distópicas, clamava aos céus alencarinos pelo meu retorno ao mundo das Letras. Sem mencionar Paulo de Tarso Correia de Melo, Manoel Onofre Jr., Eduardo Aroso, Jarbas Martins, Thiago Gonzaga, François Silvestre, Marcos Ferreira, Dr. Agamenon, Ivo Barroso, Dulce Cavalcante, Enéas Athanázio, Rizolete Fernandes, Nicodemos Sena, Miriam Carrilho, Lilia Souza, Marília Arnaud, Regine Limaverde, Italo Gurgel, Hildeberto Barbosa Filho, Dr. Boghos, a poetisa Kalliane Amorim, o gaúcho Nelson Hoffmann, o mestre Álder Teixeira, os poetas Dimas Macedo e Luciano Maia, os confrades Edmílson Caminha, Fábio Coutinho, Anderson Braga Horta, Flávio Kothe, Danilo Gomes, Vera Lúcia de Oliveira

O vate Antônio Francisco inquiriu João Maria com relação ao meu paradeiro. O nosso Patativa de Mossoró compôs até um cordel tragicômico, no qual decantava o poder de uma cacetada na cabeça-dura de um provinciano.

Enfim, leitores, escritores e amigos insistiam em receber notícias minhas. Como a maior parte de tudo desaguava no colo da minha amada Biscuí, ela, aflita, ligou para Licânia, avisando que encarregara o casal Ângela e Edílson de cuidarem de mim.

Não peça que eu descreva tais nove dias, amigo leitor. Há certas coisas diante das quais o verbo mostra-se de todo impotente. O máximo que posso afirmar é que mergulhei no rio interior de mim mesmo. Nele, em suas cabeceiras, as vazantes da infância com seus valores de feijão maduro e gostoso, com seus carinhos de jerimum de leite, com suas fontes de água limpa; sem a inquietude do ter, muito menos com a litania da ambição.

Entre o sonho e a lucidez, em tênue limite, a desfilarem frente aos meus olhos provincianos, toda uma legião de tipos e situações na ribeira do meu novo Tejo: o sono na rede de mamãe (depois de mijar na minha, após sonhar pesadelos horríveis); os conselhos de papai (sempre a se mostrar sábio com as orientações, enquanto os outros recorriam ao reinado despótico da palmatória);os preparos da boa Lídia (com seu doce de leite, troféu que nos antecipou a certeza  só revelada longo tempo depois de que tínhamos em casa uma master chef)

Se me alimentei nesses nove dias? Claro, pragmático leitor. Alimentaram-me o corpo e o espírito. Sim, ao corpo ofertaram-me: os manjares dos céus de minha mãe. Vejamos: no café da manhã, leite fresco, pão quentinho, frutas da estação; no almoço, o ensopado forte de carne de bode, seguido da sobremesa de doce de leite; na janta, alternavam-se a canjica e a sopa indescritível de uma galinha cevada com capricho de quem iria ser ofertada ao banquete de uma deusa.

E no espírito? João Américo, sabedor da minha tara por livros, endereçou-me uma caixa de seus tomos preferidos. De início, zuruó com a cacetada, não me concentrava sequer na leitura de um gibi. Com o passar dos dias e o trinado do passaredo, os neurônios voltaram a cumprir o seu papel, o pensamento se encadeando, e a minha mente a pegar no tranco. Com pouco folheava Utopia, de Thomas Morus. Dias depois, amigas e amigos, já subi para o castelo de Montaigne e, de lá, só desci com meus próprios ensaios na algibeira.

Foi Chico de Neco Carteiro que anunciou aos céus e à terra, em especial à sua decantada Areia Branca, que eu voltara ao batente. “O homem está refeito, mais profícuo do que nunca. No entanto, preparem-se: com o acento de uma nova filosofia. Segundo ele me disse, numa ligação telefônica muito rápida: pronto para apresentar ao mundo a sua ‘Dialética pós-cacetada’. Encerrei logo o telefonema, admito, porque o Menino do Catecismo despejava nos meus ouvidos um emaranhado de filosofices (e, para mim, rabugices de louco) mais herméticas do que a prosa dos clássicos que ele sempre insiste que eu leia.”

 Seu Clauder?

 Quem me chama?

 Somos nós, Ângela e Edílson. A doutora Luzia nos pediu que viéssemos a Licânia para ajudá-lo.

A voz do casal amigo levou-me às lágrimas.

Os olhos dos dois se solidarizaram com os meus, úmidos. Ângela armou para mim uma rede mais fundadestas com varandas em bordados azuis; Edílson fez questão de organizar os livros que me rodeavam no quarto desarrumado.

 Tudo vai ficar bem. O senhor é forte e é um filho bom, e Deus protege e abençoa os seus eleitos professou Edílson, investido de suas funções de pastor.

 “A blasfêmia se alimenta /de criadouro de ouvidos. /O maldizer engorda em cativeiro, /até que se abra a gaiola /e o burburinho inche /seu papo amarelo de intriga.” Versos de Ronaldo Costa Fernandes, da obra A máquina das mãos, caro Edílson. Serão eles a minha primeira resposta, os levarei ao mundo de Licânia tão logo daqui seja libertado. Estou no cativeiro, todavia a minha alma jamais se sujeita aos grilhões.

Ângela bateu o olho para o esposo, como a dizer-lhe: “Não cutuque a fera. Ele precisa de descanso e de cuidados.”

Fiquei, então, a cevar os primados da minha dialética pós-cacetada.

Nove dias depois aqui estou. Recuperado, segundo os médicos que avaliaram a pancada do cacete de jucá no alto do cocurutoPorém ainda a cumprir o restante da quarentena pela Covid-19, ordens expressas do Dr. Tito Arcanjo. Sob a imperial (e respeitada) vigília do Aristides, guarda de valor e zelo. Nunca flagrei em discreto cochiloleitor amigo; agora bem entendo a “Honra ao Mérito que ele recebeu quando dserviço ao Exército à época do seu alistamento militar.

Confesso que tentei, juro perante Deus e o Diabo, até eleger o Aristides como o primeiro aluno da minha nova dialética. Tudo em vão. Quando o azucrinava com a mixórdia de filosofices por mim recém-descobertas, Aristides me apontava o cacete de jucá. E eu voltava, calado e contrafeito, ao fundo da rede. Consciente de que a dialética pós-cacetada precisa de um novo Freud para banir os meus fantasmas.

Clauder Arcanjo

é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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