A Arte do Comércio – Geraldo Maia

O comércio é uma arte para a qual exige talento para o sucesso. Talento, muita dedicação e porque não dizer, um tanto de sorte. Temos, na história de Mossoró, exemplos de muitos comerciantes, grandes comerciantes, que venceram por estarem no lugar certo, na hora certa, e souberam aproveitar a oportunidade. Para ilustrar o que digo, vamos dar o exemplo de Miguel Faustino do Monte, proprietário das Casas M.F. do Monte & Cia.

Nasceu numa quarta-feira, 11 de agosto de 1858, na cidade de Sobral/CE.  Veio para Mossoró por volta de 1884, quando contava vinte e seis anos de idade. O comércio lhe atraia e Mossoró era, naquela época, uma grande praça comercial. Conseguiu emprego de auxiliar de balcão na grande firma comercial de Alexandre de Souza Nogueira, que tinha uma casa exportadora de sal, com escritório em Recife.

Miguel era criterioso nos seus afazeres, disposto para o trabalho e com grande tino comercial. Conseguiu, com isso, não só a confiança do dono da empresa, como também a mão de sua filha. E foi assim que em pouco tempo passou de simples caixeiro de balcão a genro do patrão. Tinha crescido o suficiente na empresa para acompanhar o sogro à capital pernambucana, quando teve a chance de conhecer Delmiro Gouveia, o grande homem da indústria e do comércio da região. Delmiro mantinha relações com Souza Nogueira. Mas ao conhecer Miguel Faustino, vislumbrou no mesmo as qualidades que necessitava para um novo aliado. E o convite veio de chofre:

“- Menino, queres trabalhar para mim? Comprarás peles, couros, outros artigos, se preciso. Mas quem trabalha para mim, se honesto e ativo, acabará bem, ao contrário o diabo o levará”.

Miguel estremeceu. Delmiro Gouveia era um homem muito poderoso. Dava medo tratar com ele. Mas aceitou o negócio e passou a trabalhar para Delmiro com inteligência, fé e retidão.

Após algum tempo, foi ao Recife prestar conta a seu patrão. Nessa época, Delmiro Gouveia encontrava-se com um grande problema nas mãos: havia financiado uma sociedade salineira que estava à beira da falência. O inverno de 1894 havia levado todo lastro da produção de sal, não tendo, os proprietários, como pagar o empréstimo, de modo que a salina Jurema, juntamente com o rebocador, batelão e tudo o mais foi parar nas mãos do financiador. A solução encontrada por Delmiro foi confiar a Miguel Faustino o destino da salina.

Voltando a Mossoró, Miguel Faustino foi verificar a salina e notou que com as chuvas, os montes de sal foram soterrados, mas não estavam perdidos. Mandou que retirassem a lama e debaixo dessa encontrou o sal que a enchente do rio não levara. Foi aí que se tornou salineiro.

A parceria de Miguel Faustino com Delmiro Gouveia foi extremamente rendosa para ambas as partes. Quando Delmiro decidiu se afastar do comércio de couro e peles, Faustino se transformou em exportador, atuando praticamente sozinho, ao ponto de fazer uma legendária remessa para os Estados Unidos na 1ª Guerra Mundial. Com o crescimento dos seus negócios, decidiu criar uma firma com seu nome, passando a importar produtos e exportar sal, algodão, cera e peles, com escritório em Natal e Rio de Janeiro. O simples balconista cearense havia se transformado num dos capitães da indústria e do comércio de Mossoró.

Até meado dos anos vinte era tamanha a pujança da firma Miguel Faustino do Monte & Cia., que os seus produtos eram conhecidos nacionalmente. Numa exposição havia no Rio de Janeiro, por ocasião das comemorações do Centenário da Independência, teve três dos seus produtos premiados: sal, algodão e cera de carnaúba. A partir desse evento, a empresa mossoroense passou a ser referência nesses produtos.

Não havia empresário de maior fortuna e com correspondente brilho na vida social em Mossoró como Miguel Faustino do Monte, ao longo do tempo em que liderou o comércio da região. Influente politicamente e capaz de atos de grande generosidade, a começar pela sua participação no movimento abolicionista, também como coordenador da campanha para angariar fundos para a construção do Colégio Diocesano Santa Luzia, doando o seu próprio palacete para o Bispado, além de generosa quantia de 130 contos de réis ao patrimônio deste, construindo a Capela do Coração de Jesus em cumprimento de promessa, com convento em anexo, construindo a primeira barragem do Rio Mossoró, e muitos outros benefícios para a cidade que o acolheu.

O rápido enriquecimento de Miguel Faustino na sua juventude e a sua generosidade para com a Igreja, já na velhice, fizeram surgir lendas urbanas onde se dizia que o mesmo havia enriquecido por ter feito um pacto com o diabo. E estava passando parte dos seus bens para a igreja como forma de redimir com Deus. Essa lenda ainda é contada pelas pessoas mais antigas.

Já na velhice transferiu sua residência para o Rio de Janeiro, onde morreu em 10 de novembro de 1952, aos 94 anos de idade. Fez muito por Mossoró e por sua Diocese. Mossoró o homenageou emprestando o seu nome a uma praça no centro da cidade.

 

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