sexta-feira , 13 de dezembro de 2019
Home / Destaques / Thadeu Brandão – Os militares na política brasileira
foto_mat_27210

Thadeu Brandão – Os militares na política brasileira

Por Thadeu Brandão.

O Brasil vivencia, desde a queda de Dilma Roussef, um acirramento do antagonismo suposto entre atores politicos. Isto é mais aparente (ou real) nas redes sociais do que na realidade. Afinal, muitos dos gladiadores das redes são aliados dos algozes ou já foram fiéis cargos comissionados. Entre esses, encontram-se ex-militares, todos já de “pijama” (como se diz no jargão da caserna) a vociferar moralidade e ética na política.

Pensemos um pouco.

O fim do Regime Militar (1964-1985) trouxe um processo de redemocratização que eu consideraria incompleto: primeiro porque os crimes cometidos pelo Estado no período não foram passados a limpo, como ocorreram com outras Ditaduras na América Latina; segundo, por deixar latente o mito da “competência administrativa de militares” no Brasil.

O período, marcado por esforços de desenvolvimento, com viés autoritário, foi marcado por erros crassos e grandes escândalos de corrupção (Ponte Rio-Niteroi, Transamazônica, Angra I e II, entre tantos outros) que não vieram à tona devido tanto à censura prévia como pela própria capacidade do Regime de reprimir qualquer crítica ou notícia negativa.

O legado do Regime Militar, em termos econômicos e sociais terminou sendo a década de 1980 com sua hiperinflação e uma crise sem precedentes que somente a redemocratização – com a Constituição Federal de 1988, o Real  e demais políticas – conseguiria sanar em parte.

Há, sine qua non, um vácuo de memória acerca do papel de militares na política. No Brasil, estes sempre estiveram presentes na ação política, seja nos golpes militares de 1831, 1889, 1930, 1937, 1945 e 1964, seja nas tentativas de golpe em 1922, 1924, 1951, 1954 e 1968 (dentro do próprio Regime). O Brasil tende a esquecer que, historicamente, os mitos se mantêm a despeito da farta documentação histórica. E a história, neste sentido, mostra que o Brasil passou de uma quartelada a outra, mantendo seus problemas e os velhos problemas incólumes.

Hoje, a presença de militares na política passa por esse esquecimento histórico. Não que eles não tenham direito de participar, ao contrário! Mas pelo discurso de alguns (se não da maioria) a advogarem barbaridades inconstitucionais e bobagens que não só desrespeitam o Estado de Direito, mas clamam pela volta da indisciplina nos quartéis, parece que todos que leem ou escutam perderam a memória por completo.

Como todos são reformados, não os vejo como perigosos em si ou mesmo como ameaça ao establishiment – como eles pretendem ser mas, há entre ele, espertalhões e verdadeiros “pilantras”, que longe de respeitarem ou representarem suas instituições, querem mesmo é “mamar” nas tetas gordas da viúva, junto com a sua família inteira.

Em todo caso, temos hoje um governo sem legitimidade e profundamente desacreditado, envolto em corrupção que está se apoiando em seu aparato militar para sobreviver. A intervenção no Rio de Janeiro, fracasso já anunciado por este que vos escreve há meses, é uma amostra do emparedamento do governo Temer pelo setor militar. Esse problema pode migrar ao Congresso no futuro governo, fragilizando-o também.

Aos sérios ex militares que adentram na política, sua presença é fundamental. Que contribuam para o debate sério e para soluções, dentro do Estado de Direito, para os profundos dilemas brasileiros. Aos espertalhões, que cospem raiva e fascismo latente, meu profundo e inesgotável desprezo.