domingo , 16 de dezembro de 2018
Home / Destaques / Por religião ou necessidade, indianos abraçam cada vez mais o vegetarianismo
Nos estabelecimentos "mistos", o cardápio vegetariano tem destaque. Pratos com carne ganham alertas chamativos para evitar um erro de um cliente desavisado, que pode se tornar "impuro" se consumir proteína animal.
Nos estabelecimentos "mistos", o cardápio vegetariano tem destaque. Pratos com carne ganham alertas chamativos para evitar um erro de um cliente desavisado, que pode se tornar "impuro" se consumir proteína animal.

Por religião ou necessidade, indianos abraçam cada vez mais o vegetarianismo

Na Índia há vegetarianos e não vegetarianos, uma categorização peculiar dos hábitos alimentícios que mostra a realidade de um país no qual não comer carne é uma obrigação religiosa do hinduísmo para a elite e uma necessidade para os mais humildes, que adotam a dieta verde por questões financeiras.

Em Nova Délhi, as filas na entrada de alguns dos restaurantes vegetarianos mais populares são frequentes. Nos estabelecimentos “mistos”, o cardápio vegetariano tem destaque. Pratos com carne ganham alertas chamativos para evitar um erro de um cliente desavisado, que pode se tornar “impuro” se consumir proteína animal.

“As escrituras sagradas indicam que sua alma é o que você come. Se come bem, sua alma ficará bem. Se come o alimento errado, consome álcool e carne, sua alma ficará mal e te levará a cometer atos estúpidos”, explicou o sacerdote hindu Acharya Brijesh.

No comando de um dos principais templos dedicados ao deus Hanuman na capital do país, Brijesh esclareceu que nem todos os hindus são vegetarianos. Muitas vezes depende, segundo ele, do karma e da data de nascimento para que a pessoa coma ou não carne.

No ponto mais alto do sistema de castas hindus estão os brahames, que ocupam o sacerdócio ou postos de poder. Eles costumam ser na imensa maioria vegetarianos para manter um bom karma, energia que marca suas ações e determinará como reencarnarão após a morte.

Por outro lado, no ponto mais baixo do sistema de castas estão os “impuros”, relacionados frequentemente ao consumo de carne mais barata (porco e búfalo). Estes possuem karma negativo que marcou sua reencarnação como dalits (intocáveis).

Com a realização do Dia Mundial do Vegetarianismo nesta terça-feira, os dados mostram que a Índia é o principal país dos fãs da “comida não violenta”, como definiu o popular guru Baba Ramdev.

Segundo a última pesquisa sobre hábitos alimentícios feita pelo Ministério da Saúde da Índia entre 2015 e 2016, 30% das mulheres e 22% dos homens se declaram puramente vegetarianos no país.

No entanto, analisando a fundo as estatísticas, os números são ainda mais impressionantes: 90% da população consomem vegetais diariamente, contra apenas 6% de carne.

“Sim, os indianos são vegetarianos, embora existam alguns poucos que não são. Existe a possibilidade da escolha, mas, por natureza, a Índia é um país vegetariano”, afirmou Ramdev, que promove esse tipo de dieta através de sua própria marca de produtos alimentícios.

Em um país onde, segundo dados da ONU, 23% da população vive com menos de US$ 1,25 (cerca de R$ 5) por dia, os preços dos alimentos também são importantes na hora de definir os hábitos alimentares.

Enquanto o quilo das carnes mais consumidas, como frango e cordeiro, custam US$ 3 (R$ 12) e US$ 6,30 (R$ 25,30), respectivamente, o quilo de arroz pode ser cobrado por US$ 1,3 (R$ 5,20). Já o quilo de lentilha é encontrado por U$ 2,70 (R$ 10,85).

Para atender à grande demanda por legumes, verduras e hortaliças, Nova Délhi, com 18 milhões de habitantes, conta com o mercado de Azadpur, no norte da capital, um dos maiores da Ásia. Chegam ao local 13 mil toneladas de alimentos por dia, de acordo com o secretário do Comitê de Comercialização de Produtos Agrícolas (APMC), Anil Ghildiyal.

Desde o início da manhã, centenas de carregadores enchem os caminhões que partirão para os estabelecimentos e restaurantes de Nova Délhi. Perto do mercado, dezenas de vacas, sagradas na Índia, curtem os restos dos alimentos em um banquete particular.

Elena Granados/Agência EFE