terça-feira , 23 de outubro de 2018
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Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o XXVI Domingo do Tempo Comum

O texto evangélico que a liturgia propõe para este vigésimo sexto domingo do tempo comum – Marcos 9,38-48 – é a continuidade daquele refletido no domingo passado (cf. Mc 9,30-37), e apresenta mais uma atitude de incoerência dos discípulos, seguida da correção e catequese de Jesus. O contexto geral é o do caminho decisivo de Jesus com os discípulos para Jerusalém, que culminará com os eventos da paixão, morte e ressurreição. Com muita maestria, o evangelista Marcos diz que, mesmo estando próximos, os discípulos se tornam, nesse itinerário, verdadeiros opositores de Jesus, com um comportamento oposto ao que o Mestre ensinava. Embora Jesus já tenha, nesse contexto, feito dois anúncios explícitos da sua paixão (cf. Mc 8,31-33; 9,30-32), os discípulos continuam ignorando, preferindo alimentar seus próprios anseios de grandeza, poder e exclusivismo, colocando-se, assim, em oposição a Jesus.

A principal incoerência dos discípulos denunciada no Evangelho de hoje é o exclusivismo e a tendência ao fechamento e fanatismo, expressos na atitude e na fala do apóstolo João: “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue” (v. 38). Assim como a profissão de fé de Pedro – Tu és o Cristo! (Mc 8,27) – não representa uma afirmação pessoal, mas comunitária, ou seja, ele afirmou em nome do grupo, também nesse trecho de hoje a postura de João tem uma dimensão comunitária; é a expressão de todo o grupo de discípulos que permanecia com uma mentalidade fechada e exclusivista. É importante recordar que, no momento da formação do grupo dos Doze, juntamente com seu irmão Tiago, João recebeu o nome de Boanerges, que significa “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), em alusão ao temperamento explosivo, arrogante, intolerante e ambicioso dos dois. Além, dessa de hoje, há outras duas ocasiões em que essas características desses dois discípulos irmãos se revelam: quando pedem a Jesus para ocuparem as melhores posições no reino, um à direita e outro à esquerda (cf. Mc 10,35-40), e quando queriam eliminar com fogo os samaritanos, somente porque não os acolheram, no início do caminho para Jerusalém (cf. Lc 9,51-55). Juntamente com Pedro, João e Tiago são os discípulos mais difíceis de lidar no grupo; por isso, quando Jesus fica somente com eles, como no episódio da transfiguração (cf. Mc 9,2-8; Mt 17,1-8; Lc 9,28-36), não se trata de privilégio, mas de necessidade. Pelo comportamento e temperamento, ambos necessitavam de uma catequese mais intensa.

A atividade de “expulsar demônios” nos evangelhos, e principalmente em Marcos, significa a promoção da liberdade e da dignidade das pessoas. É abrir as portas do Reino de Deus, tornando-o acessível a todas as pessoas. É a difusão da boa nova que transforma vidas, rompendo com as estruturas de morte e opressão vigentes em qualquer sistema. Uma atividade assim, de promoção plena do bem das pessoas, não pode ser estranha ao programa e à mensagem de Jesus, independente do grupo ou movimento a qual se pertença. Quem faz o bem ao próximo, está em sintonia Deus. Ao afirmar que o homem estava “expulsando demônios em nome de Jesus”, o evangelista evidencia que ele estava em sintonia e comunhão plena com Jesus, mesmo sem pertencer ao grupo dos Doze, e nem segui-los. A proibição imposta por João denuncia o fechamento e o fanatismo dos discípulos. Uma atitude dessas coloca em risco a eficácia e a credibilidade do Evangelho. Como uma proposta de vida de alcance universal, que visa a libertação plena do ser humano em todas as suas dimensões, a mensagem de Jesus não é propriedade de nenhum grupo ou instituição. Por isso, a repreensão.

A reação de Jesus é de clara reprovação à mesquinhez dos discípulos liderados por João: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor” (vv. 39-40). Ora, “fazer milagres em nome de Jesus” significa estar em sintonia com ele; só faz isso quem reconhece a sua autoridade e conduz a vida de acordo com o Evangelho. Ninguém pode ser impedido de fazer o bem, mesmo que não pertença ao mesmo grupo ou movimento. Proibir alguém de agir em nome de Jesus é querer aprisionar a sua mensagem e delimitar a ação do Espírito Santo, o que é impossível. Dos discípulos, exige-se abertura, compreensão e consciência de que a mensagem do Evangelho não é propriedade, mas dom acessível a quem tem sede de justiça e de amor. Com um simples provérbio, Jesus fecha a questão: “Quem não é contra nós é a nosso favor”. Ser contra, significa optar pelo mal e fechar-se aos valores do Reino; quem não faz isso, já está, consequentemente, a favor e, portanto, apto a agir em seu nome, independente de pertencer ou não a algum grupo religioso.

Como sempre, às repreensões de Jesus aos discípulos são seguidas de catequese mais aprofundada e prática: “Em verdade eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa” (v. 41). Embora seja um gesto, aparentemente, simples, dar um copo de água era, para a mentalidade semita, uma das maiores demonstrações de hospitalidade e acolhida. A recompensa, aqui, significa a pertença a Jesus e sua comunidade. Essa pertença não depende de discursos ou formulações doutrinárias, mas de gestos e atitudes que revelem amor e justiça, como dar um simples copo de água a uma pessoa sedenta. O que importa, de acordo com o evangelista, é que tudo seja feito em “nome de Jesus”, ou seja, em comunhão com ele. Aqui, o ensinamento é dirigido exclusivamente aos discípulos: eles não devem esperar muita coisa, nem grandes adesões; basta um simples gesto de reconhecimento da pertença a Cristo, para que os destinatários sejam recompensados, ou seja, entrem em comunhão com sua vida.

Na sequência, a catequese é continuada com a retomada da importância dos “pequeninos” para o Reino de Deus, já introduzida no domingo passado com o exemplo da criança: “E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço” (v. 42). Escandalizar, aqui, é criar obstáculo ou impedimento à fé e à vida digna. O maior exemplo de escândalo numa comunidade é o espírito de grandeza e busca pelo poder. “Pequeninos” é a síntese de todas as categorias de pessoas vulneráveis e historicamente excluídas: pobres, mulheres, pecadores, etc. Quando os membros da comunidade cristã são motivos de escândalo para essas pessoas, isto é, quando não favorecem a acolhida e a inclusão, Jesus reprova e adverte severamente. Por sinal, Jesus tolera quase tudo, inclusive que sua mensagem seja rejeitada; a única coisa que ele não tolera é a indiferença e o desprezo aos pequeninos, os seus prediletos. A sorte de quem os rejeita é trágica. Ser jogado no mar com uma grande pedra amarrada ao pescoço é a certeza de que esse corpo jamais será resgatado; assim, não poderia receber uma sepultura digna e, consequentemente, não teria sequer direito à ressurreição dos mortos do último dia, como acreditavam os judeus. Esse destino exclui qualquer possibilidade de salvação. Dentre as tantas possibilidades de morte, a mais temida pelos judeus era o afogamento no mar, devido ao risco de não ter o corpo encontrado para ser sepultado. Daí, a ênfase de Jesus para mostrar que o ser humano se auto condena quando se torna obstáculo na vida dos pequeninos. Portanto, não é um convite para amputar membros do corpo, mas a ter o máximo cuidado de pautar toda a vida em favor do bem.

A chamada de atenção aos discípulos continua com a demonstração de certas ocasiões, através dos principais membros do corpo, que podem levar os discípulos a causarem “escândalo” aos pequeninos. A mão, o pé e o olho (cf. vv. 43-47) eram, de fato, os membros do corpo responsáveis pelo bom ou mau comportamento das pessoas, segundo a mentalidade semita. As mãos, representam todo o agir da pessoa; quando a pessoa não age conforme o evangelho, é melhor não tê-las, conforme essa mentalidade. Os pés representam a conduta, podendo levar a pessoa por caminhos justos e injustos; é melhor não ter pé do que andar por caminhos errados. O olho, como “lâmpada do corpo” (cf. Mt 6,22) é a porta de entrada dos sentimentos e desejos alimentados no coração da pessoa; tudo o que é processado no coração, sentimentos bons e maus, passou pelo olho. Diante disso, se esses membros são usados para o mal, é melhor o ser humano privar-se deles, do que ter um corpo são e uma vida perdida, sem sentido, ou seja, jogado no fogo que nunca se apaga. O texto original não fala de inferno, como na tradução litúrgica, mas de “geena” (em grego: γεενα). O “geena” era um vale onde ficava o lixão de Jerusalém; era sinônimo de imundície e de fogo constante. Inclusive, corpos humanos já tinham sido lá sacrificados, em cultos pagãos, por isso, esse local passou a ser símbolo de condenação completa para os judeus. Além do fogo, lá predominava também o mau cheiro constante. Era um símbolo concreto da negação da vida. Por ser depósito de todo o lixo de uma grande cidade, numa época em que o saneamento não era sequer imaginado, todos os tipos de resíduos iam para lá, por isso possuía um “fogo que não se apaga” (v. 48).

Com essa linguagem tão severa, Jesus não está apontando as possibilidades de uma vida futura, mas denunciando que não tem sentido algum a vida que não é pautada pelo bem ao próximo e, em especial, aos mais necessitados, ou seja, os pequeninos. “Geena” e fogo são imagens de uma vida fora do Reino de Deus, Reino esse que não é um paraíso futuro, mas um projeto real de vida para ser aplicado e vivido desde agora. Isso acontece quando a Boa Nova de Jesus é aceita com todas as suas dimensões e exigências. A dinâmica do Reino é incompatível com todas as formas de dominação, exclusivismo, autoritarismo e falta de amor e justiça.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN