quinta-feira , 13 de dezembro de 2018
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MULHERES FANTÁSTICAS (IX): A MULHER ÍMPIA – Clauder Arcanjo

— Há no mundo dois tipos de indivíduos: os retos e os ímpios.

Aquela voz altissonante reboava no meu juízo. Enquanto isso, a lembrança da história daquela dama invadia meus olhos, minha mente… todo o resto de mim.

 

***

 

Naquela longínqua manhã de janeiro, Januário Batista descreveu-me a existência de Laura Flores.

— Todos fugiam, com nojo daquela pobre gente. Fugidos da seca, extenuados, secos de fome e de esperança. Seres cobertos de andrajos. Crianças, mulheres, homens. Dona Matilde Castrolina, pia dama da sociedade, levou seu lencinho de algodão à boca, como a se proteger do mau cheiro que exalava daqueles coitados tangidos do sertão calcinado.

Januário, enquanto relatava-me tal cena com contundentes adjetivações, inchava as veias do pescoço, como se tomado por uma espécie de fúria.

— Foi aí que ela apareceu: pequena, discreta, os passos medidos e com seus olhos exclamativos. Dobrou os joelhos e foi ofertando seus serviços. De início, um afago na cabeça da criançada; depois, um carinho ao dar as mãos para as senhoras sertanejas.

Januário Batista cofiou o bigode longo; em seguida, pigarreou, como a se livrar de um nó que lhe prendia a fala.

— Soube, apenas horas depois, que ela se chamava Laura Flores. Espantou a todos, quando ficou de pé, a conduzir aquela gente para a sua residência. Lá, ofertou-lhes água, banho, comida e abrigo. Não convocou ninguém, nada exigiu da vizinhança, nem dos curiosos que se acotovelavam nas janelas da sua casa. Ouvi, quando um deles, trajado com terno e gravata, concluiu: “Essa mulher trouxe a doença para dentro de sua casa!”. Os que estavam próximos, aflitos, fizeram o nome do pai. Laura não parou por aí: um mês depois, uma dama da cidade expulsou uma serviçal que, segundo ela, foi flagrada com as mãos nos cobres da família. A coitada, grávida de muitos meses, viu-se, com sua trouxinha de roupa, no olho da rua. Laura passava próximo; mas, ao tempo em que todos se afastavam, ela, sem nada proferir, deu-lhe a mão e consolou-a. “Essa mulher trouxe uma ladra para dentro de sua casa!”; exclamaram. Horas depois, Laura Flores acompanhou o nascimento da criança da serviçal. Uma menina de choro forte e de pernas fortes.

 

Neste momento, eu pedi um tempo, toda cena de nascimento de criança mexe comigo. Januário entendeu a minha emoção, e resolveu parar seu relato. Não sem antes asseverar-me:

— Eis a história de Laura Flores.

 

***

 

Dois meses depois, recém-transferido para Licânia, foi a minha vez de conhecer a história de Laura.

Saía da repartição pública, era fim de tarde, quando dei com o bulício.

— Esta mulher agora passou das medidas!

— Não é possível, não acredito.

Ninguém ouvia ninguém, o prazer de gritar e esbravejar guiava os gestos e os arroubos de zanga.

Ao me aproximar ainda mais, pude perceber que tudo era voltado para o “julgamento” de uma senhora.

Com pouco, entendi do que se tratava: Laura Flores conduzira uma jovem, julgada como adúltera, para dentro da sua morada. “Essa mulher trouxe uma ímpia para dentro de sua casa!”; espumavam, entre brados e má-criações.

 

***

 

Hoje, passados dois anos, a cena não se esvaiu da minha memória.

— Ímpia. Ela é uma ímpia, mulher!

Aquele grito, da velha pia dama de Licânia, ainda me acorda no meio da noite.

— E quem somos nós? Haverá alguma pura entre nós? — foram as palavras dela, serena na entrada do seu lar, enfrentando com placidez a turba que pedia a expulsão da “adúltera”.

Com pouco, as duas saíram. A protetora, de braços dados com a jovem. Esta, assustada, cabisbaixa, colada ao seu corpo. Como se ela encolhesse, ao tempo em que os gritos lapeavam-lhe os ouvidos.

— Ímpia! Ímpia! Mulher ímpia!

Eu quis protegê-las, contudo nada fiz.

Nunca mais soube do paradeiro daquela corajosa dama. Apenas o nome: Laura Flores. Sim, a senhora decantada por Januário Batista.

 

***

 

Entrei na Casa de Cristo, e lá fiquei diante do altar. Cabisbaixo, contrito.

— Há no mundo dois tipos de indivíduos: os retos e os ímpios.

A voz cavernosa do clérigo a reboar na nave. A história daquela dama a crescer frente aos meus olhos, frente à minha mente… Frente a todo o pouco de mim.

 

Clauder [email protected]