sexta-feira , 24 de novembro de 2017
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Geraldo Maia

O despertar da fotografia em Mossoró
De N. Olsen a Manuelito Pereira
Geraldo Maia do Nascimento
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A fotografia, essa maravilhosa arte de fixar em chapa sensível à luz a imagem dos objetos, se fez presente pela primeira vez em Mossoró por volta de 1873, quando aqui chegou o retratista N. Olsen, a caminho das Províncias do Norte. Uma nota publicada na edição de 19 de abril daquele ano no jornal “O Mossoroense”, dizia: “PHOTÓGRAPHO – Rua de Victor Hugo – N. OLSEN de passagem para as Províncias do Norte, a pedido de muitos senhores Cavalheiros aqui presentes e que já conhecem a perfeição de seu trabalho, resolveu demora-se algum temo nessa cidade, onde acaba de abrir sua galeria e gabinete photográfico que de hoje em diante fica franqueado ao respeitável público. As pessoas, pois, se quizerem bem retratar, deverão procurar seu estabelecimento, na rua acima indicada, das 8 horas da manhã às 4 da tarde. Preço – 12 retratos em cartão 10$000, 6 por 6$000, 3 por 4$000. Em ponto grande de 6 a 20$000.

N. Olsen permaneceu em Mossoró até o dia 20 de junho de 1873.
Em 1904 surge o primeiro estúdio fotográfico mossoroense: Era o ATELIER ESCÓSSIA, que pertencia a João da Escóssia Nogueira, tipógrafo, artista xilógrafo e proprietário do jornal “O Mossoroense” na sua Segunda fase. João da Escóssia instalou o seu gabinete fotográfico no mesmo prédio onde já funcionava a sua oficina tipográfica e o jornal, que ficava na rua Dr. Almeida Castro. Em 1910 foi acometido de uma paralisia que o deixou em uma cadeira de rodas, não sendo mais possível a assiduidade na arte. Era possuidor de boas objetivas de marca ZEISS e grande angular. Faleceu em 14 de dezembro de 1919.

João Galvão de Miranda instalou em 1910 o “Foto Chic” que funcionou até 1914, quando o seu proprietário transferiu residência para Natal, continuando ali a arte com o mesmo título do seu atelier.

Em 1916 Osael Virgínio instalou em Mossoró a “Fotografia Pernambucana”. Funcionou por poucos dias. Em 1923 volta a se instalar em Mossoró e em 1936 passa a dirigir os trabalhos profissionais da “Foto Escóssia”.

Em 1919 o comerciante Natanael Luz ensaiou a montagem de um gabinete fotográfico em sua residência à rua Cel. Gurgel. Não se tornou profissional. Desvaneceu-se da arte algum tempo depois.

Foi também por essa época, 1919, que aqui chegou José Octávio Pereira Lima, vindo da cidade de Moreno, na Paraíba. Instalou-se como fotógrafo, mas logo no ano seguinte mudava de profissão. Passou a integrar a firma comercial de seu pai sob a razão social de José Pereira e Filhos. Teve curta permanência como comerciante. Voltou a se instalar como fotógrafo associado ao seu amigo Tertuliano Aires. Era o “Foto Otávio” seu novo gabinete de trabalho. Artista bem habilidoso, fez verdadeiros milagres na profissão, trabalhando em colorido, ampliação e montagem de modesta clicheria para a imprensa, com que chegou a ilustrar o seu jornal o “Correio do Povo” entre os anos de 1929 a 1932.

José Octávio faleceu em Niterói para onde viajava a trato de saúde.

Com a reforma eleitoral aprovada em 1932, todo título de eleitor deveria ter fotografia. Para atender a demanda, foi instalado a “Foto Escóssia”, que ficava na Praça Rodolfo Fernandes, e pertencia a Augusto da Escóssia. Este, em contato com a Aba-filme de Fortaleza, solicitou a indicação de um fotógrafo que se dispusesse a trabalhar em Mossoró. A indicação caiu sobre Manuelito Pereira, que terminou sendo o primeiro fotógrafo da “Foto Escóssia.”

Posteriormente Manuelito Pereira deixou a Foto Escóssia passando a trabalhar para José Octávio. A Foto Escóssia passou a ter novo profissional contratado que era Oscar Freire, da Foto Freire de Fortaleza.

Em 1942, num sábado de carnaval, Manuelito inaugurou o seu próprio atelier com o nome de “ FOTO MANUELITO”, na Praça Vigário Antônio Joaquim, onde se firmou como artista de largo conceito profissional. Por quase cinquenta anos retratou gente e coisas de Mossoró, sendo de sua autoria a quase totalidade das fotos históricas de nossa cidade. Todo o seu acervo fotográfico encontra-se no Museu Histórico “Lauro da Escóssia”. “ Acompanhei, através da fotografia, o desenvolvimento social, político, cultural e econômico do município durante quase quarenta anos. Registrei a passagem de diversos Presidentes da República entre eles Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas, Eurico Dutra, Jânio Quadros, João Goulart, Costa e Silva, etc, Ministros de Estados , Governadores , Prefeitos , Políticos em geral , Misses e diversas personalidades do mundo artístico e cultural, pela terra de Santa Luzia.”

Foi artista de capacidade ímpar, que através de suas lentes projetou as imagens de Mossoró para o futuro, retratando a paisagem do seu mundo. São pessoas, ruas, sobrados, igrejas e acontecimentos sociais que envolveram a cidade num longo curso da crônica que ele registrou nos negativos dos seus filmes e na contemporaneidade do tempo e da vida.

Nasceu em Fortaleza a 17 de agosto de 1910. Ingressou na arte fotográfica ainda jovem, com menos de 20 anos, como aprendiz do “Foto Sales”, e depois da Aba-filmes, ambas de Fortaleza. Perdeu os pais muito cedo e ficou sob a tutela de uma tia, que logo o matriculou no colégio interno dos Franciscanos de Canindé. Lá, dedicou-se a arte, influenciado pelos frades franciscanos que lidavam com pintura e outros trabalhos artísticos.

Em sua modesta sala de trabalho, soube compensar a falta de estrutura com seu imenso talento. Com o passar do tempo foi adquirindo fama, renome e prestígio com a instalação de um novo e moderno atelier fotográfico, onde atendia a todos com extrema cordialidade, sempre franco, expansivo, fumando seu cigarrinho, rindo manso por entre os dentes, batendo e revelando chapas dia e noite, e aos poucos, amealhando as economias que lhe chegavam às mãos, como justo prêmio de um trabalho incansável e honesto.

Soube se impor como profissional, tornando-se presença obrigatória nas festas sociais, nos prélios esportivos e acontecimentos tumultuosos da política, que no dizer de Raimundo Nonato, “sempre transforma a vida de Mossoró numa espécie de campo de batalha ou de guerra fria, com seus profetas de rua, seus ídolos populares, suas figuras carismáticas”.

De acordo com depoimentos de pessoas que conheceram de perto não só seu trabalho, como também o cidadão Manuelito, ele foi o maior entre todos os fotógrafos. Era um homem simpático, mas na realização do seu trabalho era sempre sisudo e perfeccionista ao extremo. Não podemos deixar de falar também da eterna auxiliar de Manuelito, Albertina, destacada entre os depoimentos como peça fundamental para o resultado excelente de cada trabalho executado pelo artista na arte de fotografar. “Albertina fazia todos retoques nas imagens retratadas por Manuelito. Era ela que dava aquele toque final em cada foto”. Manuelito foi o primeiro a fazer fotos aéreas de Mossoró. Era um profissional que realmente dominava a sua profissão. Conhecia todas as etapas do trabalho. Foi professor de todos os fotógrafos da cidade na sua época.

Registrou também figuras populares das ruas da cidade, tipos inesquecíveis como Benício Gago e Manuel Cacimbinho, cujas biografias foram publicadas pelo saudoso memorialista Raimundo Soares de Brito em sua obra “Eu, egos e os outros. Desses, Manuelito trabalhou as imagens dando formas pictóricas admiráveis, em belos quadros que poderiam figurar em qualquer museu do país.
Demais acontecimentos de relevo como foi o Congresso Eucarístico de Mossoró, ocorrido entre os dias 12 e 26 de agosto de 1943, com a presença do Arcebispo do Rio de Janeiro Dom Jaime de Barros Câmara, tiveram todos os seus atos fotografados por esse grande artista nordestino.
Por todos esses fatos mereceu o título de Cidadão Mossoroense, numa justa homenagem da Câmara Municipal ao fotógrafo número 1 da cidade.
Casou-se na década de 40 com D. Maria Silva Barbosa Pereira, também cearense, das macambiras de Canindé, com quem teve cinco filhos.

Mas essa não é a primeira vez que Manuelito Pereira é homenageado com exposição de suas fotos. Em 1995 o Centro Mossoroense promoveu em Natal uma exposição com pequena parte do acervo fotográfico de Manuelito, prestando-lhe, ao mesmo tempo, uma homenagem através de seus familiares. Em 1998 foi feita uma amostragem pública, defronte ao antigo Cine Teatro Cid, através do projeto cultural “O Museu vai a Praça”, tendo alcançado largo sucesso de público presente. Em 2006 foi a vez da Biblioteca Municipal Ney Pontes Duarte e o Cerimonial do Palácio da Resistência promoverem uma exposição de fotos em homenagem a Manuelito. Foram 20 imagens postas em biombos que retratavam a arquitetura antiga e a vida dos mossoenses em eventos sociais da época.

Manuelito Pereira dos Santos Magalhães Benigno faleceu no dia 10 de agosto de 1980, sete dias antes de completar setenta anos de idade. A Cidade de Mossoró o homenageou emprestando o seu nome a uma rua localizada no Planalto 13 de Maio. O Projeto de Lei 08/80, foi de autoria do vereador Joalba Vale, subscrito pelos vereadores Antônio Fernandes Duarte, Gilmar Lopes Bezerra e Antônio Almeida Sobrinho. Foi lembrado também na Assembleia Legislativa, quando o deputado Carlos Augusto Rosado submeteu a apreciação dos seus pares, a inserção nos anais da Casa de um voto de profundo pesar pelo falecimento de Manuelito. Ao fazer o seu necrológio, o deputado Carlos Augusto solicitou que a decisão da Casa fosse comunicada a família.

Todo o seu acervo fotográfico, composto de aproximadamente 40 mil fotografias e negativos, equipamento de trabalho, duas máquinas fotográficas de tempo e idade perdidos na distância do passado, sendo uma de foco fixa (caixão) e outra de fole, chassis, marca Agfa, de fabricação alemã, encontram-se no Museu Histórico “Lauro da Escóssia”. Segundo as palavras do historiador Raimundo Nonato, “Invulgar atividade profissional a desse artífice provinciano que vale como capítulo da história de uma cidade heroica, que tem sobrevivido pelas iniciativas do seu povo, pelos feitos e pelo seu amor à liberdade, tantas vezes comprovado em campanhas memoráveis e em dias de soberba glorificação”.

Pelos fatos expostos é possível concluir que Manuelito Pereira dos Santos Magalhães Benigno deixou em Mossoró uma herança de trabalho que muito engrandece a cidade, pois é através de sua obra que o nosso passado é revisitado, evitando assim que a poeira do tempo cubra para sempre os nossos feitos e glórias.