domingo , 17 de dezembro de 2017
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Clauder Arcanjo – Carta a um leitor (in)existente

Clauder Arcanjo – Carta a um leitor (in)existente

 Escrever como quem desaparece, súbita e completamente; deixando tão só um rastro de jogos, de elipses e de subentendidos (ou seria, de mal-entendidos?) ao final da leitura, no beiral lírico da página.

Escrever como quem não quer nada; fingindo deslizes, pretensas vacuidades, quando, no íntimo de si, no miolo inacessível do verbo, tem muito, muito a dizer. Como se houvesse um (uni)verso todo a traduzir em palavras. Porém, bem se sabe que, no pântano da literatura, aterra-se (para desaparecer por completo na lama impiedosa do olvido) o afoito decifrador de todas as tragédias, comédias… Enfim, de todos os engodos da vida que nos cerca, lacera, brilha e encerra.

Escrever com um estilo sem marca e gênero alguns. Ao tempo em que se faz identificado por aqueles que acompanham, diuturnamente, tantos passos (a)letrados.

Escrever numa ira santa e louca, sabedor de que, sem tal pecado original, sem tal candente sinete, tornar-se-ia um espectro soturno de si próprio. Ao modo de um Otelo redivivo, a professar desconcertantes monólogos infindáveis.

Escrever como quem (re)vive de dor e sofrimento, transformando esses senhores em arautos de um amanhã sem único e ilusório sequer contentamento.

Escrever como um ser que prefere o exercício da metáfora, ao real; o eufemismo, à nódoa da mesmice malsã; a descrição, ao caroço sem sumo do descrito; como aquele que opta pela veloz tradução, em vez do insípido original.

Escrever como quem se entrega na total litania das horas, sem pausa, sem refrigério, sem o simulacro de uma aragem sequer de aplauso. Apenas impelido e alimentado (e preso) pelo visgo do desejo.

Escrever para si e por si, como um supremo egoísta de sua produção; sem dar vez nem voz ao julgado, sem optar pelo prêmio do agora, nem pela outorga daquilo que é manifestamente avaliado pelos críticos como coetâneo do sucesso.

— E não seria isto uma escravidão? — inquire-me o leitor de ocasião.

Se não for, não sei; mas se for, escravo eu serei, por livre e espontânea opção.

***

Escrever como quem some na poeira do instante cingido e traduzido.

Clauder Arcanjo

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