segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
InícioColunasClauder ArcanjoPÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CLXXVIII) - Clauder Arcanjo

PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CLXXVIII) – Clauder Arcanjo

01

(O nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli)

 

A José Alcides Pinto

(in memoriam)

 

Se a Precisão é mãe da invenção, o Poeta dessa senhora não precisa. O melhor estímulo para o parto de um vate é sagrar-se, oferenda-coito de corpo e alma, escravo do labor da escrita.

 

&&&

 

Corri em desespero para o Romantismo — o Simbolismo antes me espantara —; quando entrei em seus verdes campos, o Realismo — lá montara campana — me abraçou. Quis resistir e recuar, mas logo desisti. E lá fiquei, calado, a ouvir o vagido sublime a anunciar o nascimento de um haicai. Helás! Helás!

 

&&&

 

Aquele que, vaidoso, muito propaga suas “divinas, e inéditas, criações literárias”, suspeito, pouco escreveu, nada (ou muito pouco) há o que publicar.

Quem produz, cauto, silencia.

 

&&&

 

Era tão apaixonado pela Dama Silêncio que resolveu construir sua alcova no berço do seu vazio.

De início, feliz. Com o tempo, descrente. Anos depois, concluiu:

— Poetas, o bulício do mundo (na dose certa!) é remédio para curar (e, a partir dele, se inspirar) alguns males da gente.

 

&&&

 

Torpe é todo aquele que tem prazer em menosprezar o que outro produziu. O filho torpe, o mundo bem sabe, só colhe em suas mãos áridas o fruto ázimo das sementes do vazio.

 

&&&

 

Ontem, ao acordar, percebi a presença de uma ave solitária na roseira do meu jardim.

Até então eu pensava que a rosa era o êxtase da jardinagem; mudei de ideia ao testemunhar a beleza do trinado daquele passarinho. Em louvor ao domingo, ao jardim… fazendo da minha morada a ribalta da sua singular sinfonia.

 

&&&

 

Meu reino por um poema! — clamo aos céus. Se paráfrase ou não, pouco importa.

Shakespeare e outros gênios da raça humana são, classicamente falando, uns benditos enxeridos.

 

&&&

 

Na luz da manhã, o sabor da noite, por antecipação.

Na escuridão da madrugada, a esperança no despontar do Sol. Este, apesar da alcunha de previsível, sempre surpreende ao despertar a luz no caos.

Luz e escuridão, faces da moeda da vida.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes