sábado, 31 de janeiro de 2026
InícioColunasClauder ArcanjoPílulas para o Silêncio (Parte CCLI)

Pílulas para o Silêncio (Parte CCLI)

Clauder Arcanjo*

(Pintura “A Mulher de Cabelos Verdes”, de Anita Malfatti)

O tempo

“Igualmente, não contribui pouco ao flagelo de nossa existência que o tempo urja, não nos deixe tomar fôlego e persiga a todos como um capataz com a chibata. – Os únicos que ele não acossa são aqueles que entregou ao tédio.”
(Arthur Schopenhauer, em Sobre o sofrimento do mundo & outros ensaios)

Abriu a porta, observou as ferramentas dispostas sobre a mesa tosca, tendo ao lado todo o material bruto aguardando o seu labor. Sentiu-se, então, invadido por uma pasmaceira, a tocar suas mãos, a percorrer seus músculos, a contaminar-lhe o juízo.
Virou-se e saiu pela mesma porta pela qual entrara. Lá fora, sentado na calçada, o Tédio. Entreolharam-se, como se se entendessem sem o uso das palavras.
Deram-se as mãos e saíram, sem urgência, a vagarem pelas ruas calmas e vazias.

&&&

O Tempo lhe fora tão exigente que não crescera direito, não amadurecera por completo, não aprendera tudo o que havia para lhe ser ensinado. E, ao fim de tudo, morrera prematuramente.
E concluiu, no instante final: “O Tempo não brincou comigo.”

&&&

Um pessimista de Licânia rezingou aos presentes:
“Disseram-nos que hoje choveria. Qual nada!, esta terra não merece o frescor da chuva, muito menos o verde nunca mais cobrirá este chão tão imprestável. Aqui é terra para se viver sob o fogo do sol inclemente, sem direito a sombra nem valimento. O quê?!, o nascente está se armando com nuvens pesadas!? Então, Licânia, que venha muita água, um dilúvio, a fim de lavar os pecados deste nosso povinho tão besta. E, com licença, que eu vou logo para casa. Deus me livre de pegar um resfriado.”

&&&

Sonhou com um poema lírico, entre sentimentos de paixão e gozo. Ao acordar, tomou uma xícara de café puro e foi cuidar de limpar o quintal. Ao observar o arrulho dos pombos, lembrou-se do sonho.
“Ai, lasquei minha canela!”; praguejou. Simplesmente, o lirismo roubara a sua atenção, e a enxada golpeara-lhe, com realismo e força, a perna esquerda.

&&&

“Tomai e bebei o cálice da vossa aflição. E que a vossa passagem por este vale de sofrimentos vos seja breve, pobres frutos de Deus!”; assim orou o pároco de Licânia, quando da bênção aos fiéis após aquela manhã tão fatídica.

&&&

“Dona Cleomar, a senhora ainda tem fé no tempo?”; perguntou a garbosa Safira à velha vizinha.
“Sim, tenho tanta fé nele quanto em Deus no Céu, minha querida!”; respondeu-lhe, irritada.
“Mas eu… eu sou agnóstica!”; devolveu-lhe a bela Safira, passando as mãos nas suas ancas esculturais.
“Bom, minha filha. Com o tempo, e a velhice, o corpo perde a forma e se vai… se agarrando a Deus”; completou Dona Cleomar, murmurando, baixinho, uma praga diante de tanta beleza.

“A tradição é uma barreira sólida de passado em torno do presente: aquele que deseja seguir na direção do futuro deve atravessá-la, pois a natureza não permite descansos ao conhecimento.”
(Stefan Zweig, em Dostoiévski: vida e obra)

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes