Nunca se esqueceria do seu sorriso trigueiro. Os outros nunca substituiriam, por completo, aquela relação forte e, diria até, carnal. Parece que ela se entendia com ele, mesmo à distância. Mal entrava no portão, parece que ele dava por sua aproximação, antes até da sua presença física.
Certa noite, lembrava-se dela muito bem, atrasara-se no trabalho. Foi um deus nos acuda. Sua mãe, desesperada, lhe aguardava na varanda, num ir e vir de angústia e sofrimento. “Não suportava mais tanto sofrimento, minha filha! Ele não quis comer nada, está numa tristeza só. Vem ao portão, e volta. Os olhos baixos e soturnos, parece que a melancolia tomou conta do seu corpo. Nunca vi isso antes, cruz credo!”
Entrou e abraçou-se com ele. Fez-lhe carinho, mexendo com sua cabeça, coçando a parte de trás de suas orelhas, pois sabia estar aí o seu ponto fraco. Hora depois, na cama, tudo caiu no fundo esquecimento. E dormiram juntos, como se dois anjos.
***
Numa certa tarde, a vizinha falara à sua mãe acerca da doença de uma prima distante. Caso grave, fazendo-se necessária a internação para uma intervenção cirúrgica de urgência. Como era viúva, não havia ninguém para ficar com o seu companheiro.
— Ele poderia ficar uns dias com vocês. É caso de caridade, Deus está vendo e as cobrirá de graças e bênçãos.
O rogo esticando a corda da caridade, e pondo Deus num dos extremos da corda, fizera-as capitular. Seria coisa de alguns dias; no máximo, acreditavam, de uma a duas semanas.
A entrada daquele hóspede trouxe uma luz nova à velha casa assobradada. As brincadeiras corriam pela sala, pelos corredores e pelas dependências de dormir, sem mencionar o terreno aos fundos; mãe e filha ganharam, a partir daí, foros de uma nova mocidade. Sem falar que o Francisco, acreditem, não teve ciúmes do Adamastor, era este o nome do companheiro da enferma. Ao contrário, formaram uma dupla de amizade canina. Na pura acepção da palavra.
— Vivem como dois irmãos, mamãe — comentava Nathália, contente com a convivência dos dois.
Mãe e filha redobravam-lhes os cuidados. Nada lhes faltava: companheirismo, cuidados pessoais, alimentação e conversa ao cair da noite.
— Não se esqueçam de dormirem cedo. Nada de flanarem pela casa a noite toda. O sono é bom e traz saúde, ouviram-me? — admoestava-os Dona Goretti, antes de se recolher para o merecido descanso, e depois de abençoar a filha Nathália.
Comentam que, mal Dona Goretti entrava no seu quarto e trancava a porta, eles cuidavam de esgueirar-se para a alcova da jovem Nathália e, lá, conversarem longas horas. Em algumas noites, comentam, dormiram nas cadeiras, junto ao leito da amiga e confidente.
***
— Dona Goretti?! Nathália?! Ô de casa!
Era a vizinha. Dois meses haviam se passado.
— A coisa se esticou; quase que minha prima foi mais cedo ajustar as contas com os céus! Abracei-me, então, com São Francisco de Assis, e ele obrou mais um milagre. A prima está curada e, graças a Deus, de volta ao seu lar.
— Deus é grande! — comentou, sem dar-se conta do que tal milagre geraria, Dona Goretti.
— Vim pegar o Adamastor. Ao recobrar a saúde, a prima só fala nesse cachorro. Espero que ele não tenha lhes dado muito trabalho; não é, Adamastor?
Quando a vizinha lhe abriu os braços magros, Adamastor baixou os olhos capiongos e ganiu de dor. Sim, de dor. O que foi aparteado pelo soluço da mãe e da filha. E pelo latido melancólico de Francisco. Os dois cães correram para o fundo da casa, escondendo-se da vista da vizinha.
— Venha cá, Adamastor. Sua mãezinha o aguarda. Venha, bichinho!
Dona Goretti e Nathália não se mexeram, enfiaram-se numa tristeza sem par, e decidiram não mover uma palha para a saída de Adamastor. Francisco, serelepe e ativo, montara guarda à frente do esconderijo e, quando a vizinha metera a mão por baixo da velha poltrona, foi recebida a mordidas e por latidos coléricos.
— Seu cachorro desgraçado! — disparou.
— Desgraçado, não! — devolveram as duas, mãe e filha. Cuidando, Nathália, de tangê-la, tal qual uma loba, para fora de casa.
— O que vocês estão fazendo? Adamastor é cachorro de estimação da prima, vocês não podem ficar com ele. Prima não suportaria essa separação.
Não lhe deram mais ouvidos. Dona Goretti e Nathália bateram-lhe o portão da frente; em seguida, trancaram-se dentro do velho sobrado, colocando tramelas em todas as portas e janelas.
Dizem que, na madrugada chuvosa, as duas saíram pela porta dos fundos, para nunca mais serem vistas em Licânia. Nos alforjes, tão só os dois bichos de estimação: Francisco e Adamastor.
E quanto à prima da tal vizinha?! Comentam, à boca miúda, que ainda não superou a falta do “companheiro”, nunca se esquecera do sorriso trigueiro do seu pinsher. Ouvem-se seus uivos de saudade, mal a noite se anuncia nas ribeiras de Licânia.
Clauder Arcanjo




